E. Kennedy e o Iraque
Irmão de John F. Kennedy, assassinado pela CIA em 1963, enquanto presidente dos
Estados Unidos, e também de Robert Kennedy, que teve o mesmo fim seis anos depois, quando se preparava para candidatar-se ao mesmo lugar. Edward Kennedy, atendendo talvez a estes dois antecedentes, nunca pareceu muito interessado na Casa Branca, e contentou-se com ser senador por Massachushetts, lugar que deixou vago, em 1962, o irmão mais velho. Numa sociedade tão conservadora como os Estados Unidos – mais do que conservadora, reaccionária – este Kennedy é considerado um «liberal», se bem que defensor claro do «establishment».
Contudo, lado a lado com Bush, por muitas que sejam as coincidências de objectivos entre ambos, não são poucos os desacordos estratégicos, especialmente se os caminhos escolhidos pelo regime de Bush levam ao desastre.
Nos finais de Janeiro, Edward Kennedy esteve Universidade de John Hopkins e falou sobre o Iraque, e o que disse foi tão do desagrado de Bush e do complexo militar-industrial que domina actualmente a Casa Branca, que o discurso passou totalmente por debaixo da mesa.
Um dos poucos meios da comunicação social que o registou foi um programa de rádio de Miami, dirigido pelo cubano Max Lesnik, que reside nos Estados Unidos há muitos anos. O título da intervenção de Edward Kennedy foi «Iraque: é urgente mudar de rumo», e vale a pena conhecer alguns fragmentos do mesmo, que a seguir se publicam. [Os subtítulos são da redacção].
Corrigir o rumo
«Nesse tempo, em 1965, tínhamos no Vietname o mesmo número de soldados e de baixas que hoje no Iraque. Naqueles primeiros dias no Vietname pensávamos que
estávamos a ganhar (…) Em nome de uma guerra mal dirigida (note-se que é «mal
dirigida» não injusta, NR), continuámos a guerra demasiado tempo. Não entendemos os acontecimentos que se sucediam à nossa volta. Não entendemos que a nossa simples presença criava novos inimigos e derrotava os objectivos que nos propúnhamos conseguir. Não podemos permitir que a história se repita no Iraque.
«Devemos aprender com os nossos erros. Devemos ter em conta o que pensam cada vez mais iraquianos. A guerra no Iraque tornou-se uma guerra contra a ocupação estadunidense. Chegamos a um ponto tal em que uma presença prolongada no Iraque já não é produtiva nem para aquele país nem para os Estados Unidos. Essa presença tornou-se parte do problema, não da solução.
«Necessitamos de uma verdadeira correcção de rumo, e necessitamo-la agora. Devemos fazê-la por esses soldados estadunidenses que estão a pagar com a sua vida. Devemos fazê-la pelo povo estadunidense, que não se pode permitir o luxo de delapidar recursos e prestígio nacional continuando indevidamente uma guerra. Devemos fazê-lo pelo povo iraquiano, que aspira a um país que não seja um campo de batalha permanente e a um futuro livre de ocupação.
Bush enganou o país
«Por muito que o governo o negue, não há dúvida de que enganou a nação e nos meteu num pântano no Iraque. O presidente apressou-se em ir à guerra com base numa - exagerada e com o argumento obstinado de que o Iraque era uma arena crítica na guerra mundial contra o terrorismo (…) e que por alguma razão o perigo era tão urgente que não se podia dar tempo aos inspectores das Nações Unidas para que completassem a busca de armas de destruição maciça.
«Como consequência das nossas acções no Iraque, o nosso respeito e credibilidade em todo o mundo chegou aos níveis mais baixos da história. Também pagámos com vergonha e desonra o bom nome dos Estados Unidos como defensor dos direitos humanos (…) Acham que algum estadunidense dirá com orgulho aos seus filhos que o seu país tortura prisioneiros? E, apesar de tudo, altos funcionários do governo, empurrados pela sua arrogância, desviaram-se tanto da nossa herança e do nosso credo no fundamental da decência humana que aprovaram a utilização da tortura. Fizeram mal, terrivelmente mal.
«O desprezo deliberado do governo pelas Convenções de Genebra levou às torturas e aos abusos flagrantes contra os prisioneiros de Guantánamo e Abu Ghraib, e essa degradação diminuiu os Estados Unidos aos olhos do mundo.
«A maré da história levanta-se contra a ocupação militar. No Iraque, desprezámos a verdade e estamos em perigo por isso. É tempo de reconhecer que há uma só eleição. Os Estados Unidos devem devolver o Iraque ao povo iraquiano (…)
«É tempo de o presidente Bush engulir o seu orgulho e pôr fim aos seus fracassos no Iraque e aos olhos do mundo. (…) Se não o fizer, a nossa liderança no mundo estará perdida para sempre. Não podemos permitir que isso suceda.»
Estados Unidos, e também de Robert Kennedy, que teve o mesmo fim seis anos depois, quando se preparava para candidatar-se ao mesmo lugar. Edward Kennedy, atendendo talvez a estes dois antecedentes, nunca pareceu muito interessado na Casa Branca, e contentou-se com ser senador por Massachushetts, lugar que deixou vago, em 1962, o irmão mais velho. Numa sociedade tão conservadora como os Estados Unidos – mais do que conservadora, reaccionária – este Kennedy é considerado um «liberal», se bem que defensor claro do «establishment».
Contudo, lado a lado com Bush, por muitas que sejam as coincidências de objectivos entre ambos, não são poucos os desacordos estratégicos, especialmente se os caminhos escolhidos pelo regime de Bush levam ao desastre.
Nos finais de Janeiro, Edward Kennedy esteve Universidade de John Hopkins e falou sobre o Iraque, e o que disse foi tão do desagrado de Bush e do complexo militar-industrial que domina actualmente a Casa Branca, que o discurso passou totalmente por debaixo da mesa.
Um dos poucos meios da comunicação social que o registou foi um programa de rádio de Miami, dirigido pelo cubano Max Lesnik, que reside nos Estados Unidos há muitos anos. O título da intervenção de Edward Kennedy foi «Iraque: é urgente mudar de rumo», e vale a pena conhecer alguns fragmentos do mesmo, que a seguir se publicam. [Os subtítulos são da redacção].
Corrigir o rumo
«Nesse tempo, em 1965, tínhamos no Vietname o mesmo número de soldados e de baixas que hoje no Iraque. Naqueles primeiros dias no Vietname pensávamos que
estávamos a ganhar (…) Em nome de uma guerra mal dirigida (note-se que é «mal
dirigida» não injusta, NR), continuámos a guerra demasiado tempo. Não entendemos os acontecimentos que se sucediam à nossa volta. Não entendemos que a nossa simples presença criava novos inimigos e derrotava os objectivos que nos propúnhamos conseguir. Não podemos permitir que a história se repita no Iraque.
«Devemos aprender com os nossos erros. Devemos ter em conta o que pensam cada vez mais iraquianos. A guerra no Iraque tornou-se uma guerra contra a ocupação estadunidense. Chegamos a um ponto tal em que uma presença prolongada no Iraque já não é produtiva nem para aquele país nem para os Estados Unidos. Essa presença tornou-se parte do problema, não da solução.
«Necessitamos de uma verdadeira correcção de rumo, e necessitamo-la agora. Devemos fazê-la por esses soldados estadunidenses que estão a pagar com a sua vida. Devemos fazê-la pelo povo estadunidense, que não se pode permitir o luxo de delapidar recursos e prestígio nacional continuando indevidamente uma guerra. Devemos fazê-lo pelo povo iraquiano, que aspira a um país que não seja um campo de batalha permanente e a um futuro livre de ocupação.
Bush enganou o país
«Por muito que o governo o negue, não há dúvida de que enganou a nação e nos meteu num pântano no Iraque. O presidente apressou-se em ir à guerra com base numa - exagerada e com o argumento obstinado de que o Iraque era uma arena crítica na guerra mundial contra o terrorismo (…) e que por alguma razão o perigo era tão urgente que não se podia dar tempo aos inspectores das Nações Unidas para que completassem a busca de armas de destruição maciça.
«Como consequência das nossas acções no Iraque, o nosso respeito e credibilidade em todo o mundo chegou aos níveis mais baixos da história. Também pagámos com vergonha e desonra o bom nome dos Estados Unidos como defensor dos direitos humanos (…) Acham que algum estadunidense dirá com orgulho aos seus filhos que o seu país tortura prisioneiros? E, apesar de tudo, altos funcionários do governo, empurrados pela sua arrogância, desviaram-se tanto da nossa herança e do nosso credo no fundamental da decência humana que aprovaram a utilização da tortura. Fizeram mal, terrivelmente mal.
«O desprezo deliberado do governo pelas Convenções de Genebra levou às torturas e aos abusos flagrantes contra os prisioneiros de Guantánamo e Abu Ghraib, e essa degradação diminuiu os Estados Unidos aos olhos do mundo.
«A maré da história levanta-se contra a ocupação militar. No Iraque, desprezámos a verdade e estamos em perigo por isso. É tempo de reconhecer que há uma só eleição. Os Estados Unidos devem devolver o Iraque ao povo iraquiano (…)
«É tempo de o presidente Bush engulir o seu orgulho e pôr fim aos seus fracassos no Iraque e aos olhos do mundo. (…) Se não o fizer, a nossa liderança no mundo estará perdida para sempre. Não podemos permitir que isso suceda.»