A importância de ser tutor

Correia da Fonseca
Estava-se em «As escolhas de Marcelo», e por sinal aquilo não me estava a parecer apaixonante, com Ana Sousa Dias aparentemente intimidada pelo prestígio mediático do interlocutor e Marcelo Rebelo de Sousa a não ultrapassar a imaginária linha do esperável. De súbito, aconteceu o aparente pormenor que não apenas me salvou a noite televisiva como talvez também me tenha libertado de uma espécie de perplexidade que me tinha sido suscitada pelo elenco do novo governo: ao recapitular a distribuição das diversas pastas e enunciar-se o nome de Augusto Santos Silva, Ana Sousa Dias teve o cuidado de acrescentar à indicação do ministério dos Assuntos Parlamentares a tutela da Comunicação Social. E, aí, a cabecinha iluminou-se-me por dentro, ao menos um pouco. Como a muita gente, parecera-me que colocar Augusto Santos Silva a tratar apenas dos assuntos parlamentares, e salvo todo o respeito que lhes é devido, era qualquer coisa como «caçar moscas com carabina», como se dizia no velho slogan publicitário num contexto completamente diferente. É certo que Santos Silva é um cidadão com todos os sinais de ter tido uma educação óptima e de ser pessoa de excelente trato, o que se supõe vantajoso nos vários contactos intra-parlamentares e que, além do mais, é tão bonito de ver quanto é repugnante o espectáculo daquele dirigente do PSD que se celebrizou por ser grosseiro, desembestado e fanfarrão. Ainda assim, porém, eu daria Augusto Santos Silva por mal empregado se confinado apenas às invisíveis negociações de S. Bento se não fora a outra função que lhe foi distribuída e que Ana Sousa Dias revelou. Por muito merecedores de tudo quanto é bom que sejam os senhores deputados, a verdade é que não chegam a ser duas centenas e meia, ao passo que são à volta de dez milhões os utentes da Comunicação Social, e neste caso quem fala em «utentes» fala em potenciais vítimas que nem sequer têm consciência de o serem. A desproporção dos números já decerto indicia por que razão me parece mais importante a tutela dos media que o convívio com os deputados. Acresce que deste convívio pode porventura depender parcialmente o modo como esta legislatura vai ser vivida em S. Bento, ao passo que da Comunicação Social pode depender, e não em irrelevante medida, que as gentes deste nosso País sejam estimulados para a lucidez ou para a burrice, para a ignorância convencida ou para o entendimento das coisas, para as verdades ou para as imposturas. Concordar-se-á que não são pequenas diferenças.

Música, mas ao longe

É claro que não posso esperar, por muitos e vários motivos, que Augusto Santos Silva chegue e faça milagres, o mais importante dos quais seria maior que a bíblica transformação da água em vinho: seria a transformação dos venenos em água pura. Com razão ou sem ela, porém, tenho a impressão de que Santos Silva tem perfeita consciência da enorme relevância do sector, tem ideias para ele e tem a convicção (ou a ilusão, não sei) de que poderá implementá-las. Como decerto se compreenderá, quando escrevo media estou a pensar sobretudo televisão, ou talvez televisão & rádio, o que já será meter foice em seara alheia. Ora, acontece que tenho a tristíssima convicção de que, salvo excepções quase exclusivamente radiofónicas, os grandes media estão desde há anos decididamente empenhados em transformar o seu público, isto é, o nosso povo, numa vastíssima massa tontinha, ignorante e míope, manipulável quanto convenha a quem sobre os media tem poder. Escolhendo daquele tríptico apenas a ignorância para que não se diga que estou apenas preocupado com a política em sentido estrito, direi que a ignorância e o seu natural complemento que é o ódio à cultura não são nada recomendáveis a um País que precisa de emergir da mediocridade multidisciplinar. Terá sido também por isso que Carrilho, quando ministro da Cultura, tentou deter a tutela da TV, o que lhe valeu o apodo de ambicioso, e que o próprio Santos Silva a terá conseguido quando da efémera passagem pelo mesmo ministério. Por outro lado, Augusto Santos Silva teve a quase-coragem, um dia destes, de confirmar em intervenção na TV que o PCP é tratado na televisão como enteado indesejado, feio e mal-cheiroso, ainda que obviamente não por estas rudes palavras, e essa denúncia induziu-me a esperançar que o actual ministro tenha detectado certas poucas-vergonhas (des)informativas e não as ache lindas. Por tudo isto, que não me parece nada pouco e que provavelmente até é excessivo, a informação prestada por Ana Sousa Dias em tom de mero aditamento entrou como música nos meus ouvidos calejados por tantas más notícias. E quanto à intimidação que Ana me pareceu sentir perante Marcelo e as circunstâncias novas daquele programa, isso é coisa que passará em tempo breve. Sobretudo se ambos o quiserem e fizerem por isso.


Mais artigos de: Argumentos

A «moda» do desporto escolar

Noutro dia, um dia chuvoso deste Outono de 2004, assisti à inauguração do pavilhão gimnodesportivo da Escola Secundária Camões (ES Camões) em Lisboa. Um pavilhão com o nome de «Mário Moniz Pereira», que esteve presente na cerimónia e bem vivo, um pavilhão ao serviço da escola – do Desporto Escolar –, um pavilhão também...

Torres de Alcântara

Subitamente as que se tornaram conhecidas por Torres do Siza, em Alcântara, desapareceram não por qualquer estudo, debate ou aplicação de Planos, nem mesmo por aquela coisa encomendada pela Ambelis a dois arquitectos, com o extraordinário argumento de que, como já estavam a trabalhar na zona, quer dizer como tinham entre...