A «moda» do desporto escolar

Francisco Silva
Noutro dia, um dia chuvoso deste Outono de 2004, assisti à inauguração do pavilhão gimnodesportivo da Escola Secundária Camões (ES Camões) em Lisboa. Um pavilhão com o nome de «Mário Moniz Pereira», que esteve presente na cerimónia e bem vivo, um pavilhão ao serviço da escola – do Desporto Escolar –, um pavilhão também ao serviço das actividades gimnodesportivas da comunidade local onde a escola se insere.

Que me recorde, também já tal aconteceu – a homenagem, mais o nome – com uma pista de atletismo e uma piscina. Ao contrário daqueles que só são homenageados depois de mortos, Moniz Pereira tem sido homenageado em vida – como ele notou. Por isso, por continuar vivo, também teve ocasião de ver «arder» o objecto da homenagem como foi o caso da pista de atletismo do Estádio Alvalade, tão pesada de glórias do Desporto português. Uma situação ímpar, esta, a do homenageado ver desaparecer o objecto em que tinha sido consubstanciado o acto de homenagem. 83,7 anos de idade, como ele disse, mas ainda com saúde para lutar com vigor pelos «seus» objectivos.
A justiça, mas sobretudo o querer entender-se as visões, as vontades e as dinâmicas políticas relativas à área do Desporto Amador e Desporto Escolar, obrigam-me a referir que o novo pavilhão gimnodesportivo da ES Camões (com projecto da Câmara Municipal de Lisboa - CML) foi construído ao abrigo de um protocolo acordado entre a CML e o Ministério da Educação, nos tempos da Coligação «Amar Lisboa»; protocolo concretizado no mandato anterior, quando o Pelouro do Desporto da responsabilidade de vereadores do PCP, desenvolvia um Plano Desportivo Municipal, com características impares em todo o País. Pelouro cujas estruturas de apoio foram entretanto desmanchadas, a partir da entrada para Presidente da CML da pessoa do actual Primeiro Ministro (PM). Pelouro, que entrou numa fase de instabilidade anémica, Desporto, que perdeu ao nível da Capital uma base de apoio essencial.
E obrigam-me ainda a mais tais necessidades de ponderação das possibilidades de desenvolvimento do Desporto Escolar no nosso País. Porque palavras e mais palavras – words, words, como me lembro de ouvir ao meu avô, era eu criança – podem ser proferidas sem que nada, ou quase nada, de interesse aconteça. Portanto, leva-as o vento. Pois, como parece estar a defesa do Desporto Escolar numa certa moda, com frequência na boca dos seus politicamente correctos defensores, mais na dos defensores vindos uma certa direita aspirante a benfazeja, é de elementar obrigação, repito, vir a terreiro desfazer as demagogias entretecidas por tais formas de procura de provocado enternecimento da vontade das massas.
Porque, se bem me lembro, quando fui Vereador da CM de Oeiras – entre 1985 e princípios de 1989, ainda ontem –, por ocasião do primeiro mandato de Isaltino de Morais como seu Presidente – o famoso Isaltino, em fase de lançamento como vedeta política cá deste nosso doce torrão –, a certa altura, espantou-se, numa reunião daquele órgão, com o facto de as escolas recentemente – então – construídas para os graus do ensino básico (não primário) e secundário, serem-no sem instalações para a Educação Física. Com efeito, o governo da AD (CDS, PPD, PPM), capitaneado por Sá Carneiro – participado por Freitas do Amaral e por Ribeiro Telles –, assim o determinou, poupando, por certo, dinheiro, já que, em termos de prioridades, o Desporto para os jovens afinal não seria assim tão indispensável como a instrução da mente (como se ela, pá, funcionasse por si só, sozinha!). A referir tais medidas do governo saiu a terreiro, logo na hora, e com a clareza e incisão que lhe eram próprias, o Vereador comunista e cidadão ímpar que foi Celorico Moreira (ainda está por fazer a história e o estudo do seu papel a favor do nosso Poder Local, do nosso Desporto, em particular em prol dos munícipes do Concelho de Oeiras). E de tal maneira Celorico o fez que deixou sem resposta a maioria da Câmara que era PSD/CDS, tendo à cabeça a estupefacção de Isaltino rodando entre os lábios a cigarrilha, bem como os vereadores do ps que, aos vistos, também tais factos desconheciam. Afinal, tudo a propósito de uma proposta de Celorico Moreira, Vereador da Educação para uma construção para Educação Física numa das tais modernas Escolas do Poder Central …

Uma pergunta: apregoadores hodiernos do Desporto Escolar, como o agora «desaparecido» Marcelo ou o «desportivo» PM, já renunciastes hoje às perspectivas da defunta AD ou quê?


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