Histórias de Paula Rego

Manuel Augusto Araújo

PAULA REGO – pintura, desenho, gravura
Claustros do Instituto Politécnico de Setúbal
Largo dos Defensores da República - Setúbal
De 18 de Fevereiro a 18 de Março
2.ª feira a Sábado, das 14h30 às 18h30

Cada obra de Paula Rego confronta-nos, em simultâneo, com vários níveis de significação e outros tantos de realidade. É esse o território onde a pintora se move e onde estende a rede narrativa que os vai ligando até surgir uma imagem final, que nunca é uma mas são várias, normalmente fixando-se em séries que expõem a urgência de fabulação, chama eterna a consumir violentamente, desde sempre, a artista que, mesmo quando tem como referencia uma obra literária e por mais importante que a leitura dessa obra tenha tido para si, nunca conta ou ilustra um texto ou uma história. Apropria-se delas para lhes conferir uma fisicalidade visual que nem existia, nem tinha ainda sido descoberta.
Um mestre do cinema, Douglas Sirk, escreveu que «não se faz cinema sobre o ódio, a dor, o silêncio mas com o ódio, a dor, o silêncio». Não se encontra melhor axioma ao enfrentar a obra, as cinco décadas de intenso trabalho, de Paula Rego. Uma actividade continuamente em ebulição, sempre com histórias novas que se abrem para novos ciclos. Uma actividade que não tem uma paragem e que, suspeita-se, é parte da vida de Paula Rego, como o respirar, o circular do sangue, o comer e o digerir.
Desde as primeiras obras de protesto político, «Salazar a vomitar a pátria» ou «Mártires» até às séries sobre o aborto ou o Crime do Padre Amaro ou Jane Eyre ou Mulheres Cães, onde por outras veredas o protesto político e social continua, Paula Rego nunca se perde nos labirintos da pintura como elemento auxiliar do que está a produzir. Trabalha a pintura ou a gravura ou o desenho como parte do problema que está a resolver no plano do suporte físico que o regista. Foi assim desde sempre, quando espalhava tinta directamente do tubo ou quando «recortava tudo» ou agora, quando cria cenários com modelos para os pintar em perspectivas impróprias. Foi assim desde quando a(s) «história(s)» se acotovelavam numa única cena, como uma banda desenhada que se comprimisse numa única folha, às que se prolongam e autonomizam em vários «quadros».
A multiplicidade de sentidos e de leituras que cada obra, seja uma ou seja parte de uma série, provoca clarões iluminantes da vida, das cenas da vida, dos seus recantos mais íntimos, abrindo os armários onde se albergam as coisas embaraçosas que escondemos de nós próprios. Como se estivesse sempre possuída pelo olhar infantil, na ambivalência da inocência e da crueldade, Paula Rego provoca as convenções sociais derrubando tapumes, confrontando-nos com o que todos os dias, num exercício de sobrevivência, varremos para debaixo do tapete e sobre ele adormecemos
Em Paula Rego a eficácia da arte é o que viola as emoções dos espectadores, obrigando-os a rever os valores políticos e sociais.
Esta exposição é a expressão de uma amizade entre dois artistas, Bartolomeu dos Santos e Paula Rego, desde que se encontraram pela primeira vez em Londres, em 1962, quando a jovem pintora o procurou. Em todos a Paula dedica palavras ao Bartolomeu e à sua mulher Fernanda, na oportunidade de dias festivos: aniversários, anos novos. Assim se podem acompanhar, ao longo dos anos as diversas fases de trabalho de Paula Rego. Desde um dos seus primeiros quadros a óleo, «A prima Manuela», pintura feita aos dezoito anos, ao afastamento da pintura de cavalete incentivada pelo pintor Victor Willing, seu marido e pelo conhecimento travado com uma das influências decisivas no percurso de Paula Rego, a Arte Bruta de Dubuffet, ao trânsito que estabeleceu entre o mundo humano e animal, destruindo as suas tradicionais hierarquias utilizando para suporte dessa subversão histórias infantis recorrentes, «O Macaco do Rabo Cortado», «A Formiga Rabiga» ou as centradas na imagem do cão.
Particularmente significativas são as gravuras. Da série Jane Eyre com «In the Confort of the Bonnet» onde Jane está entregue a uma invencível tristeza moldada nos profundos cinzentos-negros da litografia; «Jane in a Chair with a Monkey», é um desencontro de solidões: de Jane, do macaco e do chapéu; «Girl swallowing Bird» que tem relação directa com «Loving Bewick», imagem fortíssima de múltiplos significados.
Outras obras completam esta exposição, de pequena dimensão mas, bem significativa da obra de Paula Rego, que tem a vantagem de mostrar a obra desta artista famosa, fora dos grandes circuitos de circulação das obras de arte.


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