Pelos Caminhos do Mundo

Walid, o palestiniano

Miguel Urbano Rodrigues
Foi em Havana que o conheci há uns oito anos, durante uma Conferência Internacional.
Recordo que Walid Ahmad, ao falar em nome da Frente Democrática de Libertação da Palestina, me impressionou. Pelo força do discurso, pela confiança na vitória, pela imagem.
Walid traz à memória estampas dos beduínos do século VII que, saídos das areias da Arábia, fizeram o impossível em menos de um século: destruíram o império persa, conquistaram a Síria e o Egipto, entraram pela Índia, derrotaram os chineses na Ásia Central, molharam as patas dos cavalos no Atlântico marroquino e semearam na Espanha uma grande civilização.
Muito alto, de uma magreza esquelética, desengonçado, lento no falar, faz pensar num Don Quixote do Islão.
Walid residia numa vivenda com um grande jardim, que lhe atribuíra o Partido Comunista de Cuba por ser representante de uma organização revolucionária amiga. Mas na vida quotidiana deixava transparecer uma indiferença ostensiva pelas comodidades. O mobiliário da casa era escasso.
Não tinha passaporte. Viajava com um salvo conduto que inspirava desconfiança nas embaixadas, quando solicitava o visto.
Eu bombardeava-o com perguntas sobre a vida na Palestina ocupada. E as respostas deixavam em mim quase sempre um sabor de insatisfação.
Um dia, em sua casa, abriu-se:
- Sabes, eu sofro por conhecer mal o meu país. Uma estória pessoal parecida com a de milhões de palestinianos da diáspora.
Pedi-lhe que a recordasse.
E ele contou-a mais ou menos assim, segundo as notas que então tomei.
- A minha família foi expulsa quando eu era um menino. Vivíamos em Nazaré em situação de pobreza. Meu pai era operário. Em certos dias a única refeição era de pão e chá. No Líbano, aos 7 anos, comecei a perceber que todas as nossas desgraças resultavam de a nossa terra estar ocupada por Israel. Eu cresci praticamente na FDLP. Aos 10 anos aprendi a manejar armas. Aos 14 anos, combatendo no Sul do Líbano, fui ferido pela primeira vez. De manha à noite ouvia falar de liberdade, de revolução, de socialismo. Mas os actos, a luta, as palavras que pronunciávamos somente principiaram a inserir-se numa concepção própria do mundo quando, para tratamento e estudo, cheguei pela primeira vez a Cuba. Na minha cabeça as ideias arrumaram-se. O povo revolucionário da ilha comoveu-me. O debate ideológico entrava pelo quotidiano e ajudou-me a compreender melhor a tragédia da minha gente, um povo antiquíssimo, escorraçado das suas casas e terras por um povo de origem também semita que, esquecendo o que sofrera durante muitos séculos, fez da Palestina o cenário de um genocídio de novo tipo. Estudei marxismo e ao ler Marx e Lenin compreendi que era comunista. O que te posso dizer é que tudo ganhou maior clareza e me senti cada vez mais identificado com a luta da FDLP.
- As fronteiras do mundo alargaram-se durante a minha permanência na União Soviética, onde recebi treinamento militar.

Um revolucionário comum

Walid evocou naquele dia, com pormenores, fases da sua existência de revolucionário profissional.
Em 92 entrou novamente no Líbano. Para combater. Mas a sua permanência foi breve. Dali seguiu para Damasco, na Síria. Cumprindo sempre missões da FDLP, foi até à Índia e viajou por diferentes países socialistas.
Um tribunal de Israel condenou-o, entretanto, à revelia, a 23 anos de cadeia como terrorista.
Perguntei-lhe como reagira a essa sentença.
- Recebi-a como prova do dever cumprido. Mas, claro, pagamos um preço. A Interpol persegue-nos como terroristas. Para as Polícias da Europa e de muitos países do Terceiro Mundo, e bem entendido dos EUA, sou um apátrida, um subversivo, indocumentado.
Faz algum tempo informei Walid que algum dia escreveria sobre ele.
Sorriu, no seu jeito de eterno nómada, e comentou:
- Se o fizeres, só te peço que deixes claro que sou um revolucionário palestiniano comum, cuja vida repete a de muitos outros. Se a morte me encontrar no caminho, estou preparado. E acrescenta que, sendo irrestrita a minha disponibilidade para lutar pela nossa causa, amo intensamente a vida, a minha mulher, o meu filho, os prazeres que a aventura da existência proporciona. Sem alegria de viver um revolucionário não se realiza plenamente.
Cumpro no Avante!, um jornal revolucionário, a promessa, já antiga, feita ao meu amigo Walid Ahmad.


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