A arte da escrita

Isabel Araújo Branco
Muitos foram os autores da Antiguidade que se debruçaram sobre a literatura e a forma de melhor a produzir: Aristóteles, Longino, Horácio... Este, na sua «Arte Poética», sublinha a importância da liberdade de criação paralelamente à simplicidade e à unidade. Esta é a fórmula essencial para escrever bem, que pode ser seguida por escritores, escreventes, redactores ou mesmo porque quem apenas deixa bilhetes ao namorado ou à mãe. Porque o principal objectivo destes conselhos é a melhor compreensão pelo leitor ou pelo ouvinte, a boa transmissão de sentimentos e ideias, a comunicação, afinal.
Horácio salienta que a obra tem de ser um todo e que o texto deve ser directo, sem rodeios e sem demasiados pormenores. A escolha das palavras não será fruto do acaso. A subtileza e a cautela são as armas usadas e o resultado será magnífico se, «por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais correntes». O uso – ou seja, os falantes – é senhor do vocabulário e dele depende o surgimento de novas palavras e a recuperação de outras caídas em desuso. No entanto, convém não abusar de palavras novas ou recém-criadas.
Os poemas, escreve Horácio, além de belos, devem ser emocionantes, de modo a trazer consigo o espírito do ouvinte. Assim, é importante que, na declamação, na retórica ou no teatro, o intérprete expresse os sentimentos que pretende transmitir, mesmo que para isso tenha de fingir que os sente: «Se queres que eu chore, hás-de sofrer tu primeiro: só teus infortúnios podem comover-me. Tristes palavras só dão bem com rostos pesarosos e com o irado as ameaçadoras; com rosto jovial palavras folgazãs e com o severo as que mostrem seriedade.»
As personagens têm de ser coerentes do princípio ao fim e devem mostrar características da sua idade. Não se deve narrar o que não interessa e a unidade e coesão devem nortear a escrita. Havendo acções no palco e outras apenas relatadas, Horácio lembra que a acção observada comove mais, pois o espectador apreende por si próprio. No entanto, não se deve mostrar cenas sangrentas ou maravilhosas, porque o público não acreditará nelas. É a questão da verosimilhança, tratada por outros autores, nomeadamente Aristóteles. «As tuas ficções, se queres causar prazer, devem ficar próximas da realidade e não se pode apresentar tudo aquilo em que a fábula deseja que se creia, como quando se tira viva do ventre de Lâmia a criança há pouco por esta devorada», exemplifica Horácio.

Bom ou mau?

Os defeitos são inevitáveis em todos os textos, mas perdoáveis apenas num bom poema, «quando inúmeras qualidades brilham» e os compensam. Por seu lado, «os poetas medianos», diz o autor, «esses não os admitem nem os deuses nem os homens, nem as colunas dos livreiros».
Horácio diz que não há que ter medo de fazer alterações ao texto, considerando que o bom poema é o que é aperfeiçoado e emendado repetidas vezes. Para isso, é preciso o poeta ter talento e arte. Os conhecimentos filosóficos também não são de desprezar.
«Há quem discuta se o bom poema vem da arte se da natureza: cá por mim, nenhuma arte vejo sem rica intuição e tão-pouco serve o engenho sem ser trabalhado: cada uma destas qualidades se completa com as outras e amigavelmente devem todas cooperar», escreve Horácio, defendendo que a poesia é fruto da vocação e da técnica. E dá uma dica para se saber se o trabalho é bom ou mau: dá-lo a ler a outros e esperar nove anos para publicá-lo. No caso dos bilhetes para a família, é melhor não aplicar este conselho...


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