Os vendedores de cérebros

Correia da Fonseca
Patrick Le Lay, cavalheiro distinto e de verbo desassombrado, é o presidente da TF1, o mais importante canal francês de televisão. O jornalista Marc Jézégabel caracterizou-o nas páginas de «Télérama» como «um dos homens mais intocáveis de França», e não espanta que essa sua condição lhe favoreça a natural predisposição para a franqueza por vezes chocante. Em Maio último, Patrick Le Lay concedeu uma entrevista que não parecia destinada, em princípio, a ter grande repercussão. Porém, o seu gosto pela desinibição em «chamar gato a um gato» (expressão que também usou, embora noutro momento) levou a que algumas das frases então proferidas fossem citadas e comentadas pelos mais diversos media, incluindo naturalmente a própria televisão. E, contudo, Le Lay não disse nada que não seja verdade, bem pelo contrário: o facto de ter retratado a verdade com palavras nítidas é que suscitou a celeuma, pois bem se sabe que as hipocrisias preferem os meios tons, as sobras, as ambiguidades. O que o presidente da TF1 disse foi simples: «- Há muitas maneiras de falar de televisão», disse ele. «Mas numa perspectiva “business”, sejamos realistas: basicamente, o trabalho da TF1 é ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto. Ora, para que uma mensagem publicitária tenha capacidade de penetração é preciso que o cérebro do telespectador esteja disponível.» Como se compreende, esta simplicidade completamente descomplexada suscitou uma nuvem de comentários diversos, desde a indignação perante a evidência enfim confessada e assumida até ao desconforto de quem preferiria que as coisas continuassem a passar-se sob o véu da suposta inocência. Alguns anunciantes, entre os quais o presidente de uma importante empresa de refrigerantes, acharam que as palavras de Patrick Le Lay se haviam revestido de uma brutalidade inútil, capaz de dar péssima imagem quer da TF1 quer dos que nela anunciam. De facto, a verdade é por vezes brutal. Mas, bem se sabe, a impostura é repugnante.

Os limites da apetência

A questão é que Patrick Le Lay forneceu em traços duros mas adequados, porque exactos, um retrato do que prioritariamente define a intervenção social da televisão privada, em primeiro lugar, e da televisão pública quando esta segue na esteira da privada a pretexto da mera conquista de audiências sob a alegação de que só com audiências substanciais é que a TV pública encontra plena justificação. Este argumento é insustentável: a defesa e promoção de valores culturais e cívicos, que cabe indeclinavelmente a uma estação pública de TV, não pode ser trocada pela destruição directa ou indirecta desses mesmos valores a pretexto de só assim poder tocar largas audiências. Quanto às privadas, é-se por vezes inclinado a conceder que aquilo é lá com eles, os donos da estação, que podem fazer com o que é seu o que muito bem lhes apeteça. Mas não é tanto assim. Por mais que lhes apeteça, não podem entregar-se sistematicamente à tarefa de manterem um povo inteiro no grande território das ignorâncias convencidas: não podem mantê-lo num estado de analgesia capaz de permitir que sobre ele se cometam vários crimes: não podem vender os cérebros de uma população não só aos fabricantes das coca-colas mas também aos saqueadores profissionais por conta própria ou alheia. Não pode, enfim, trair um país e um povo sob a alegação de que fazer negócio é preciso, ser útil não é preciso.
Não há muitos dias, o responsável pela programação de uma estação privada portuguesa veio a público defender o que designa por “televisão popular”. A expressão é simpática, até com clara conotação de democraticidade, mas é preciso descascá-la para vermos o que tem dentro. Não é difícil: uma já longa experiência ensina-nos que sob a lustrosa casca há 90% de lixo (perfumado ou açucarado, conforme os gostos) e 10%, se tanto, de indícios esparsos de qualidade. Não garanto o rigor das percentagens indicadas, mas garanto, infelizmente, o efeito devastador que a televisão supostamente popular, mas de facto servidora de interesses não populares, tem produzido no nosso país. Não tenho dúvidas de que, como tudo o que é demagógico, populista e reles, conquistou muita gente desprevenida, mas nem por isso é democrática. Porque não é democrático «vender cérebros humanos disponíveis» aos traficantes das mais variadas coca-colas.


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