Casa da música

A (foto)novela continua

Manuel Augusto Araújo
Pelos motivos mais preocupantes a Casa da Música voltou a ser notícia. Anunciada que tinha sido a sua inauguração para 14 de Abril de 2005 e depois de Pedro Burmester ter sido afastado pela actual administração, que o demitiu desse órgão de gestão e o nomeou consultor para a área da programação musical, pelouro que anteriormente lhe estava atribuído, o que logo fazia prever o pior, ou seja que as preocupações com a gestão cultural tinham, na melhor das hipóteses, sido afastadas para planos secundários, o responsável por esses sucessos Alves Monteiro, presidente do conselho de administração, demitiu-se e, com rapidez inusitada, logo foi anunciado o seu sucessor, Couto dos Santos, com a novidade de ir ocupar esse cargo a tempo parcial e a prazo.
Nessas danças e contra-danças do conselho de administração da Casa da Música algo opaco ocorre e nada de positivo se pode augurar.
A questão já não é a da escandalosa derrapagem orçamental - o que não impedia que os actuais administradores e particularmente o actual presidente do conselho de administração, este em acumulação com outros cargos, auferissem remunerações privilegiadas (1) - dos disparates do programa funcional que orientaram o projecto de arquitectura e tudo o mais que, desde o princípio, inquinou o processo e que não isenta ninguém que esteve envolvido nessa novela de entremezes camilianos, sem a grandeza de Camilo.
Preocupante é a questão de praticamente a seis meses da anunciada inauguração, que certamente se irá revestir da maior pompa e circunstância, não estar definido o modelo organizacional da entidade que irá gerir a Casa da Música, de não se perceber qual vai ser o futuro conteúdo da programação cultural e, até mais restritamente da programação musical, que lugar irá ocupar e como se irá articular com as outras entidades musicais existentes e em funcionamento no norte do país e, particularmente, no Porto.
Preocupante é que a seis meses da inauguração o presidente do conselho de administração se afaste deixando por resolver todas essas questões centrais para o futuro da Casa da Música, retirando-se com o orgulho, bem pago claro está, de ter fixado a data da sua abertura ao público o que, depois de todos os inacreditáveis atrasos, teria que acontecer mais mês, menos mês.
Preocupante é que no, impropriamente, chamado programa de governo e no meio das ditas intenções culturais lá se dedique uma linha à Casa da Música, afirmando-se que «o governo continuará ainda a apoiar o projecto da Casa da Música do Porto», o que levanta várias questões que não são de semântica.
O que quererá dizer continuará ainda a apoiar? Existe um limite temporal para
esse apoio? O governo, accionista principal, simplesmente apoia sem se comprometer e sem o dirigir ou, pelo menos orientar mesmo que não directamente, um projecto para a Casa da Música? E que projecto está na forja? Que conselhos estarão inscritos nos relatórios da «Boston Consulting», pagos naturalmente a peso de ouro contra o peso de papel dos grossos dossiers que naturalmente produziam como é apanágio dessas empresas, e que eram a principal bengala consultiva de Alves Monteiro?
Em risco parece estar todo um modelo consistente de acção cultural de relacionamento com a comunidade, como em várias actividades foi praticado pela Casa da Música, e de integração nos circuitos internacionais de música, que era a face positiva do enredo desta iniciativa que foi, em 2001, trombeteada como a nuclear do Porto Capital da Cultura e que vai arrastando num jogo de enganos penoso.
Cá estaremos para ver se isso não será substituído por acções musicais avulsas, ad-hoc, à medida lux da imagem que a consultora está a fabricar para o nosso primeiro e dos leques da ministra da tutela.
__________

1- De quando em vez saltam para o conhecimento público autênticos escândalos remuneratórios como o da pensão, 18 000 euros/mês, que vai auferir o ex-presidente da CGD e que corresponde, salvo erro, a 80% do que recebia mensalmente acrescido de outros mimos inerentes ao cargo. Dirão os entendidos nessas matérias que o país é escasso em recursos humanos pelo que é preciso pagar-lhes bem. É verdade que é escasso em recursos humanos, mas uma boa parte desses quadros não emerge por excepcionais qualificações profissionais mas sim pelo seu poder lobista, pelo modo como anda pelos corredores do poder angariando benesses para os seus senhores, que por seu lado se isentam de investir em investigação e desenvolvimento. As empresas privadas em Portugal são das que menos gastam nessa área e depois queixam-se da falta de competitividade como o fizeram aqueles jovens espertalhaços do “Compromisso Portugal”. Esta também é uma questão cultural que se reflecte na cultura em sentido estrito.


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