Contrastes
Por ocasião dos últimos Jogos Olímpicos (JO), mostrava-nos já o pequeno ecrã – lá saiu o lugar comum – o acabar do final de espada individual para mulheres (alguns dizem «senhoras», mas então pergunto eu qual a razão de, para o género masculino, dizerem «homens» e não «senhores» ou, talvez, «cavalheiros»?), com a nova campeã olímpica, a húngara Nagy de seu apelido, de trinta anos de idade e já mãe, a festejar o seu título, a correr para o seu treinador (mestre de armas, como se diz na esgrima) e a dar-lhe um enorme abraço e… quem era este? Nem mais nem menos que Kulcsar, que foi um dos maiores esgrimistas, em particular entre os espadistas, da sua geração – na segunda metade dos anos 60 / viragem para os anos 70. Registem-se, próximos da sua enorme categoria, outro húngaro, Nemere, bem como Kriss, soviético de nacionalidade russa, e Nikantchikov, soviético de nacionalidade bielorrussa.
Pois, a Kulcsar, não o via desde o México, em 1968, quando se sagrou campeão olímpico de espada; ou seria desde os campeonatos do mundo de esgrima que se celebraram em 1971 em Viena de Áustria (lembro-me: quando voltei desses campeonatos do mundo, estava a prestar serviço militar, o comandante quase me matava por ter faltado alguns dias, não obstante todas as autoridades me terem deixado ir na selecção nacional; por contraste, um futebolista conhecido, a tirar a especialidade no mesmo regimento nunca teve dificuldades - nem sequer coacções psicológicas - para as suas frequentes ausências). E ainda, Kulcsar, aí estava com a novidade de um cabelo grisalho quase branco (incluindo um bigode, para mim novo). Mas o meu cabelo também já embranqueceu quase por completo… Tinha voltado – ouvi da locução do programa –, Kulcsar, havia alguns anos ao seu país, após umas temporadas em Itália como treinador.
Kulcsar foi iniciado, em menino ainda, e formado na esgrima (tal como Nemere, atrás referido), por Barnabas von Berszeny, o qual no seu tempo – durante os anos 50 – foi, por sua vez, um dos maiores espadistas do mundo. Este mestre de armas de grande categoria, depois de passar pelo Cairo e Helsínquia, foi contratado por Portugal para treinar a equipa de esgrima para os JO do México e para trabalhar na Mocidade Portuguesa. Von Berszeny, a quem muito fiquei a dever, era um reaccionário patológico: «Francisquinho», mil vezes piores os comunistas húngaros que os nazis alemães – chegou a afirmar-me durante um jantar em sua casa. Outra vez, por ocasião da Taça dos Campeões Europeus de espada de 1968, em Heidenheim, em que participei integrado na equipa do CDUL, o treinador da equipa dos campeões soviéticos – o Dínamo de Minsk – pediu-lhe lume para acender um cigarro. Barnabas deu-o do seu próprio cigarro, logo de seguida apagando-o com grande aparato com a sola do seu sapato. O soviético, atónito, a procurar entender…
Pois, a este Barnabas, no México, quase lhe ia dando uma apoplexia quando, encolerizado, assistiu à caminhada de Kulcsar para o título olímpico da espada individual. E se foi emocionante a disputa então havida!
Ora, naquele tempo, o apuramento do campeão olímpico, e das outras posições (com ou sem medalhas), não era disputado, como hoje é, por razões mediáticas de espectáculo, em eliminação directa – quem perde, sai –, mas sim no sistema de jogarem todos contra todos os da mesma série até à série final. Acontecendo igualdades «absolutas» – em número de vitórias nos assaltos jogados, em toques recebidos e dados totais –, o desempate deveria ser conseguido jogando todos os empatados uns contra os outros. Portanto, para o efeito, disputava-se uma barrage.
O que aconteceu foi, feitas as contas ao total dos resultados dos assaltos da final de espada individual, dos quatro finalistas três estavam empatados: Kulcsar, Kriss, o soviético mencionado atrás, e o italiano Saccaro. Portanto, von Berszeny só tinha um candidato por quem torcer, o «ocidental» Saccaro, um talentoso esgrimista, mas o menos forte dos três. Kriss, soviético, campeão olímpico em título (Tóquio, 1964), era o odiado inimigo, compreendia eu muito bem. Mas que o seu «menino» Kulcsar também fosse parte do odiado inimigo era coisa que eu não poderia ter imaginado, até porque, até aí, Barnabas tinha conseguido mascarar tal sentimento. Mas Kulcsar acabou em grande campeão e Kriss em segundo lugar – e foi, para mim, o melhor assalto que já vi. «Pobre» Barnabas!
Barnabas renegou o pupilo e o seu próprio trabalho. Este, Kulcsar, ali estava a exultar com a brilhante vitória de Nagy, portanto também uma sua vitória.
Pois, a Kulcsar, não o via desde o México, em 1968, quando se sagrou campeão olímpico de espada; ou seria desde os campeonatos do mundo de esgrima que se celebraram em 1971 em Viena de Áustria (lembro-me: quando voltei desses campeonatos do mundo, estava a prestar serviço militar, o comandante quase me matava por ter faltado alguns dias, não obstante todas as autoridades me terem deixado ir na selecção nacional; por contraste, um futebolista conhecido, a tirar a especialidade no mesmo regimento nunca teve dificuldades - nem sequer coacções psicológicas - para as suas frequentes ausências). E ainda, Kulcsar, aí estava com a novidade de um cabelo grisalho quase branco (incluindo um bigode, para mim novo). Mas o meu cabelo também já embranqueceu quase por completo… Tinha voltado – ouvi da locução do programa –, Kulcsar, havia alguns anos ao seu país, após umas temporadas em Itália como treinador.
Kulcsar foi iniciado, em menino ainda, e formado na esgrima (tal como Nemere, atrás referido), por Barnabas von Berszeny, o qual no seu tempo – durante os anos 50 – foi, por sua vez, um dos maiores espadistas do mundo. Este mestre de armas de grande categoria, depois de passar pelo Cairo e Helsínquia, foi contratado por Portugal para treinar a equipa de esgrima para os JO do México e para trabalhar na Mocidade Portuguesa. Von Berszeny, a quem muito fiquei a dever, era um reaccionário patológico: «Francisquinho», mil vezes piores os comunistas húngaros que os nazis alemães – chegou a afirmar-me durante um jantar em sua casa. Outra vez, por ocasião da Taça dos Campeões Europeus de espada de 1968, em Heidenheim, em que participei integrado na equipa do CDUL, o treinador da equipa dos campeões soviéticos – o Dínamo de Minsk – pediu-lhe lume para acender um cigarro. Barnabas deu-o do seu próprio cigarro, logo de seguida apagando-o com grande aparato com a sola do seu sapato. O soviético, atónito, a procurar entender…
Pois, a este Barnabas, no México, quase lhe ia dando uma apoplexia quando, encolerizado, assistiu à caminhada de Kulcsar para o título olímpico da espada individual. E se foi emocionante a disputa então havida!
Ora, naquele tempo, o apuramento do campeão olímpico, e das outras posições (com ou sem medalhas), não era disputado, como hoje é, por razões mediáticas de espectáculo, em eliminação directa – quem perde, sai –, mas sim no sistema de jogarem todos contra todos os da mesma série até à série final. Acontecendo igualdades «absolutas» – em número de vitórias nos assaltos jogados, em toques recebidos e dados totais –, o desempate deveria ser conseguido jogando todos os empatados uns contra os outros. Portanto, para o efeito, disputava-se uma barrage.
O que aconteceu foi, feitas as contas ao total dos resultados dos assaltos da final de espada individual, dos quatro finalistas três estavam empatados: Kulcsar, Kriss, o soviético mencionado atrás, e o italiano Saccaro. Portanto, von Berszeny só tinha um candidato por quem torcer, o «ocidental» Saccaro, um talentoso esgrimista, mas o menos forte dos três. Kriss, soviético, campeão olímpico em título (Tóquio, 1964), era o odiado inimigo, compreendia eu muito bem. Mas que o seu «menino» Kulcsar também fosse parte do odiado inimigo era coisa que eu não poderia ter imaginado, até porque, até aí, Barnabas tinha conseguido mascarar tal sentimento. Mas Kulcsar acabou em grande campeão e Kriss em segundo lugar – e foi, para mim, o melhor assalto que já vi. «Pobre» Barnabas!
Barnabas renegou o pupilo e o seu próprio trabalho. Este, Kulcsar, ali estava a exultar com a brilhante vitória de Nagy, portanto também uma sua vitória.