Prioridade do novo século
É usual dizer se que «a história é uma luta de tigres». A metáfora condensa a ânsia de poder e a ferocidade do ser humano que, uma vez alcandorado a situações cimeiras, se deixa mover não raro por impulsos vindicativos e sobretudo por razões de Estado (ou de classe), que encobrem quase sempre grandes interesses económicos.
Assistimos ainda recentemente a genocídios de uma infinita crueldade, praticados em África, especialmente no Biafra e no Ruanda, por motivos de natureza étnica e de fanatismo religioso.
É já hoje evidente em todo o mundo que não foi de facto a preocupação com as inexistentes armas de destruição maciça que levaram a coligação liderada pelos Estados Unidos a bombardear o Iraque e a ocupá lo militarmente, mas sim o desejo de dominar uma zona petrolífera importante e de incentivar a própria indústria norte americana.
É dramático verificarmos que, depois dos grandes sonhos que levaram à criação da ONU após a segunda guerra mundial e que trouxeram para o primeiro plano da convivência internacional a defesa dos direitos humanos, se tornou possível assistir ao criminoso desrespeito pela dignidade dos detidos que se verificou na prisão de Abu Grahib ou em Guantanamo.
Este é apenas um exemplo, mas bem aflitivo, de uma degradação dos valores humanos que está também a ocorrer de forma bem dolorosa na Palestina, onde se confrontam paroxismos de violência e vemos um povo atingir limites de humilhação e de miséria.
O terrorismo é sem dúvida um dos maiores problemas do nosso tempo e há que combatê lo não só investigando, procurando os culpados, como em Madrid depois do tremendo 11 de Março, mas buscando as origens profundas do ódio que opõe os deserdados da Terra a muitas transnacionais e ao império americano, levando à morte de milhares de inocentes e ao puro horror como no 11 de Setembro.
Não se pode responder ao crime com o crime ou com violências susceptíveis de gerar mais violência numa interminável cadeia de sangue e morte.
Estou vos falando de morte e de guerra para poder falar vos da conquista da paz, que é o objectivo primacial de sociedades autenticamente democráticas, desejosas de promover a humanização do homem.
Quero com isto dizer que não atingimos ainda o estádio de respeito pelo outro, de fraternidade de entre-ajuda capaz de fazer do nosso planeta, com todas as dificuldades de natureza ambiental, política, social que estão a avolumar se, um lugar verdadeiramente habitável, onde a beleza ande de mão dada com a razão e com os afectos.
O primado do economicismo egoísta terá de dar lugar ao gosto de viver olhando os outros de frente e não de alto.
Só o triunfo da paz permitirá à humanidade desenvolver harmoniosamente as suas potencialidades de criação em todos os domínios rumo ao progresso colectivo e à possível felicidade.
Dir me ão que estou sonhando, que os tigres estão atentos ao voo das pombas, quando elas se atrevem a invadir a área das suas grandes decisões. Mas o sonho é uma componente fundamental da vida, está até na origem das grandes descobertas cientificas, como na das obras de arte geniais. O sonho é o sangue da esperança.
Se quisermos um planeta sem florestas devastadas pela fúria do lucro imediato, sem gases tóxicos e venenos pseudo fertilizantes a destruírem as plantas, se quisermos abolir as guerras cirúrgicas que resultam em mortandades, erradicar da Terra a tortura, a pena de morte, as novas formas de escravatura da mulher e dos trabalhadores migrantes, então teremos de sonhar muito forte, de olhos abertos e bem alto, porque tudo isso está a acontecer ao nosso lado.
A literatura, as artes visuais, a música, que sempre abriram espaços ao que se costuma chamar a espiritualidade humana, estarão connosco, com os que teimosamente lutamos pela paz em tempo de guerra (e outra coisa não conhecemos, senão guerras, a não ser em breves oásis de luz). A marcha é longa, o solo às vezes é traiçoeiro, porque a repressão tende a aumentar, num mundo que ainda aclama a liberdade e onde os sonhadores costumam ser perseguidos.
Mas a união faz a força. Sonhadores de todo o mundo, desfraldemos a bandeira da paz e cantemos para nós mesmos e para os outros, porque a jornada é difícil.
A festa é o contrário da carnificina e hoje o crime está por toda a parte, porque a injustiça e a corrupção, o desprezo pelo outro convidam ao crime e ao salve se quem puder. A festa, que é a libertação da alegria e do prazer, pode ser também o horizonte dos que tentam construir um mundo melhor. Festa de energia, de paz e de amor, contagiante festa de quem não pára de sonhar.
Joaquim Lagoeiro
Venho rectificar um erro que, por equívoco, cometi no meu pequeno artigo sobre o escritor Joaquim Lagoeiro, recentemente publicado no Avante!. A data de publicação do célebre romance de Joaquim Lagoeiro Viúvas de Vivos não é 1967, como eu referi: o livro foi de facto editado vinte anos antes. Esta obra relata o sofrimento das mulheres dos então emigrantes portugueses nos States (Estados Unidos), ausentes da pátria durante longos anos.
Ao camarada Joaquim Lagoeiro apresento por este motivo as minhas desculpas.
Urbano Tavares Rodrigues
É já hoje evidente em todo o mundo que não foi de facto a preocupação com as inexistentes armas de destruição maciça que levaram a coligação liderada pelos Estados Unidos a bombardear o Iraque e a ocupá lo militarmente, mas sim o desejo de dominar uma zona petrolífera importante e de incentivar a própria indústria norte americana.
É dramático verificarmos que, depois dos grandes sonhos que levaram à criação da ONU após a segunda guerra mundial e que trouxeram para o primeiro plano da convivência internacional a defesa dos direitos humanos, se tornou possível assistir ao criminoso desrespeito pela dignidade dos detidos que se verificou na prisão de Abu Grahib ou em Guantanamo.
Este é apenas um exemplo, mas bem aflitivo, de uma degradação dos valores humanos que está também a ocorrer de forma bem dolorosa na Palestina, onde se confrontam paroxismos de violência e vemos um povo atingir limites de humilhação e de miséria.
O terrorismo é sem dúvida um dos maiores problemas do nosso tempo e há que combatê lo não só investigando, procurando os culpados, como em Madrid depois do tremendo 11 de Março, mas buscando as origens profundas do ódio que opõe os deserdados da Terra a muitas transnacionais e ao império americano, levando à morte de milhares de inocentes e ao puro horror como no 11 de Setembro.
Não se pode responder ao crime com o crime ou com violências susceptíveis de gerar mais violência numa interminável cadeia de sangue e morte.
Estou vos falando de morte e de guerra para poder falar vos da conquista da paz, que é o objectivo primacial de sociedades autenticamente democráticas, desejosas de promover a humanização do homem.
Quero com isto dizer que não atingimos ainda o estádio de respeito pelo outro, de fraternidade de entre-ajuda capaz de fazer do nosso planeta, com todas as dificuldades de natureza ambiental, política, social que estão a avolumar se, um lugar verdadeiramente habitável, onde a beleza ande de mão dada com a razão e com os afectos.
O primado do economicismo egoísta terá de dar lugar ao gosto de viver olhando os outros de frente e não de alto.
Só o triunfo da paz permitirá à humanidade desenvolver harmoniosamente as suas potencialidades de criação em todos os domínios rumo ao progresso colectivo e à possível felicidade.
Dir me ão que estou sonhando, que os tigres estão atentos ao voo das pombas, quando elas se atrevem a invadir a área das suas grandes decisões. Mas o sonho é uma componente fundamental da vida, está até na origem das grandes descobertas cientificas, como na das obras de arte geniais. O sonho é o sangue da esperança.
Se quisermos um planeta sem florestas devastadas pela fúria do lucro imediato, sem gases tóxicos e venenos pseudo fertilizantes a destruírem as plantas, se quisermos abolir as guerras cirúrgicas que resultam em mortandades, erradicar da Terra a tortura, a pena de morte, as novas formas de escravatura da mulher e dos trabalhadores migrantes, então teremos de sonhar muito forte, de olhos abertos e bem alto, porque tudo isso está a acontecer ao nosso lado.
A literatura, as artes visuais, a música, que sempre abriram espaços ao que se costuma chamar a espiritualidade humana, estarão connosco, com os que teimosamente lutamos pela paz em tempo de guerra (e outra coisa não conhecemos, senão guerras, a não ser em breves oásis de luz). A marcha é longa, o solo às vezes é traiçoeiro, porque a repressão tende a aumentar, num mundo que ainda aclama a liberdade e onde os sonhadores costumam ser perseguidos.
Mas a união faz a força. Sonhadores de todo o mundo, desfraldemos a bandeira da paz e cantemos para nós mesmos e para os outros, porque a jornada é difícil.
A festa é o contrário da carnificina e hoje o crime está por toda a parte, porque a injustiça e a corrupção, o desprezo pelo outro convidam ao crime e ao salve se quem puder. A festa, que é a libertação da alegria e do prazer, pode ser também o horizonte dos que tentam construir um mundo melhor. Festa de energia, de paz e de amor, contagiante festa de quem não pára de sonhar.
Joaquim Lagoeiro
Venho rectificar um erro que, por equívoco, cometi no meu pequeno artigo sobre o escritor Joaquim Lagoeiro, recentemente publicado no Avante!. A data de publicação do célebre romance de Joaquim Lagoeiro Viúvas de Vivos não é 1967, como eu referi: o livro foi de facto editado vinte anos antes. Esta obra relata o sofrimento das mulheres dos então emigrantes portugueses nos States (Estados Unidos), ausentes da pátria durante longos anos.
Ao camarada Joaquim Lagoeiro apresento por este motivo as minhas desculpas.
Urbano Tavares Rodrigues