Um risco é um risco, é um risco

Manuel Augusto Araújo
Olhar uma coisa na coisa: o seu significado íntimo
como forma, aura, função
(Clarice Lispector, Um sopro de vida)


O desenho é assumido por Ângelo de Sousa como um trabalho de sísifo que se decidiu a escavar aplicada e racionalmente a terra para ir descobrindo a essencialidade das suas estruturas. Trabalho a que se entrega inteiramente desde o primeiro traço mas que se condena a só encontrar fim quando esvaziar absoluta e integralmente a Terra de toda a substância visível, até só subsistir a lei da gravidade. Pelo caminho, Ângelo de Sousa vai elaborando inúmeros registos de objectos materiais e imateriais que lhe fixaram a atenção e que analisa detalhadamente, libertando-os de tudo o que não é significante.
Esse trabalho de desenho substantivo, limpo de toda e qualquer adjectivação, de pesquisa sobre as coisas até aos limites em que a estrutura se confunde com o código genético, tornando-as identificáveis, desenvolve-se num plano que se sobrepõe ao plano paralelo onde se desenrola a investigação sobre o desenho na materialidade simples e essencial do risco nas suas principais componentes:
-- o meio material exacto a que o artista recorre para que o gesto fique inciso com rigor máximo no suporte seleccionado, explorando as diversas durezas da grafite ou a variação da mesma cor produzida pela diferenciação do suporte que a produz;
-- a capacidade expressiva desse mesmo gesto para que, sem qualquer maneirismo, as intenções do artista sejam apreensíveis em simultaneidade com o reconhecimento do que foi desenhado.
A consequência imediata desse projecto de afirmação do desenho é libertar a realidade, a matéria-prima da realidade, da sua carga simbólica para dela se apropriar na totalidade e originar um sistema simbólico autónomo, que fica encerrado nas fronteiras que Angelo de Sousa demarca, definindo-o como o território do desenho.
Desenhar é, com este projecto, um ponto de chegada que imediatamente se torna ponto de partida. Cada desenho é a madre de uma série de outros, em que todos os desenhos são o mesmo e sempre outros e se autonomizam numa explosão de suportes, dos diferentíssimos papéis à tela, do lápis de grafite aos de cor, dos variadíssimos bastões de pastel às tintas acrílicas que se imprimem caligraficamente, até que num determinado momento, e unicamente por vontade do seu autor, essa torrente se fecha ficando todos a fazer parte de uma série que em que nenhum é o original e nenhum é a cópia. Uma espécie de tábua de Mendelieff em que a classificação é organizada tematicamente. Para além do que é imediatamente perceptível pode-se conjecturar que existe ainda uma outra área de experimentação: a do exercício do desenho em plano horizontal, o da mesa de trabalho, e em plano vertical, o do cavalete ou da parede o que faz depender o traço não só do ângulo em que se observou ou observa o modelo mas da relação corporal entre olhar e a mão independentemente do suporte onde se vai fazer o registo.
A agilidade do traço de Ângelo de Sousa faz com que mesmo as formas mais complexas alcancem o estado de graça de uma imensa simplicidade. E o desenho aproxima-se do divertimento, do gozo de deixar correr o risco pelas valas subconscientes que mais não são que o trazer para a superfície um longo e elaborado trabalho racional onde se afinaram empenhadamente os modos de ver até fluírem com a naturalidade da pulsação da vida.
São pássaros, aviões, cavalos, pontes, árvores e mais árvores, muitas árvores, palavras e paisagens, manchas de cor e jogos aparentemente aleatórios, algumas memórias, de que faz parte um auto-retrato, e tramas de traços verticais ou horizontais que inventam espaços e onde tudo o mais que se vê foi filtrado pelo olhar do artista que se diverte seriamente a registá-los em inúmeras variações, como se estivesse, distraída mas afincadamente, a afinar a corda de um instrumento ou a descascar paulatinamente uma cebola camada por camada.
Um trabalho de desenho assim é um trabalho em si próprio, não é ferramenta para outros trabalhos. Existe como desenho enquanto desenho.
As dezenas de anos ao longo dos quais Ângelo de Sousa tem desenhado são um tempo curto porque os desenhos são riscados hoje ou trinta anos antes. O projecto, o impulso continua com a mesma pujança e frescura. Tornaram-se intemporais.

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Notas sobre a exposição de desenhos de Ângelo de Sousa, «Transcrições, Orquestrações» que esteve no CAM- Fundação Gulbenkian



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