No 25, o senhor engenheiro
A natural e até mais impetuosa apetência é a de vir comentar a repetida aparição na TV, designadmante no SIC-Notícias, de um punhadinho de ex-pides de largo currículo que muito bem explicaram que torturas contra presos políticos não houve, excepto porventura uma ou outra bofetadita em comunistas de mau feitio que teriam feito perder a santa paciência a algum subalterno, sendo todo o resto que por aí se conta uma enorme mentira espalhada, já se vê, pelos mesmíssimos comunistas. Irremediavelmente ingénuo, ainda fui esperando, a principio, que por força da democraticidade informativa que decerto terá justificado a dação de tempo de antena a tão refinados indivíduos houvesse, lá mais para diante, algum debate contraditório que poderia ser conseguido, por exemplo, com entrevistas a dois ou três, ou dois mil a três mil, torturados por aquela gente. Mas esperei em vão, não houve nada disso. O mais que se conseguiu em matéria de contradição foram questões postas pela jornalista que conduzia a reportagem e que, felizmente para ela, não terá vivido esses tempos pelo menos como cidadã adulta. Dei-me conta, então, de que a minha expectativa havia sido tonta, pois esquecera que já não estamos em revolução, mas sim em «evolução». E que o processo revolucionário, iniciado já há um bom par de anos, chegara já ao ponto, enfim, de ser dado tempo de antena ao nojo e deixar para mais tarde a indignação.
Sustada, pois, a minha inicial apetência, e não querendo escolher entre outros possíveis temas que a TV este ano me ofereceu directamente relacionados com o que aconteceu há trinta anos, não porque não houvesse por onde escolher, mas sim porque a presença dos ex-pides me pareceu tão significativa que relegou todo o resto para um plano secundário, fixei a atenção numa outra entrevista. Aconteceu na RTP2, no programa «Diga lá, Excelência», que por sinal é um patusco título, perfeitamente adequável a qualquer programa cómico. Não era de modo nenhum o caso, porém. O entrevistado do próprio dia 25 de Abril não foi nenhum capitão do 25, muitíssimo menos pertenceu à patriótica corporação a que acima se fez referência. Ainda assim, porém, a RTP lá foi entrevistá-lo no ainda chamado Dia da Liberdade, ou para transmissão nesse dia, e não poderá dizer-se que sem motivo. É que o entrevistado, Belmiro de Azevedo de seu nome e engenheiro por qualificação académica, é uma das mais poderosas figuras da actual vida portuguesa, diz-se mesmo que personalidade integrante do poder efectivo que comanda o País muito mais que o poder eleito. Quanto a isto, convirá ler um livro recentemente publicado e ouvir o que o seu autor tem vindo a explicar sem que lhe tenha sido dada muita atenção, sendo que o livro se intitula «Ensaio sobre a Lucidez» e quanto ao autor não será preciso nomeá-lo.
As inúteis despesas
Foi o eng. Belmiro de Azevedo entrevistado pelo dr. José Manuel Fernandes, digamos sumariamente que seu empregado no jornal «Público», e pela dra. Graça Franco, jornalista da RR que recentemente se notabilizou por repetidas referências ao Estado Novo quando no «Clube dos Jornalistas» se discorria acerca da censura fascista. Como seria de esperar. Como seria de esperar, Belmiro de Azevedo disse muitas coisas que reclamam atenção e reflexão, todas relacionadas com a «evolução» agora assumida pela direita e pelo seu governo, mas, entre elas, uma me pareceu especialmente significativa: quando o senhor engenheiro, repetindo aliás o que vem sendo uma recorrente exigência do grande empresariado e não só, acentuou a necessidade prioritária do equilíbrio orçamental pela redução das despesas do Estado e sem qualquer alusão à necessidade de cobrar as receitas devidas. Ouvindo-o, como eu o compreendi, caramba! É que as mais relevantes despesas públicas são as havidas com a Saúde, com a Segurança Social, com a Educação, com a Justiça, e nesses sectores consubstanciam a devolução ao povo, sob a forma de serviços aliás fundamentais, dos impostos cobrados. Ora, é claro que o senhor engenheiro não precisa desses serviços para nada. Alguém imagina o senhor engenheiro, mais os que de algum modo com ele se possam comparar, a irem para a fila nos postos do SNS, para as longas esperas nas urgências hospitalares? Alguém acha que o senhor engenheiro está a contar com uma reforma da Caixa Nacional de Pensões para uma velhice tranquila? Ou que precisa de mandar os seus descendentes estudar no ensino público português? Ou que sente o seu futuro dependente de um processo que esteja há dez anos encalhado? Em resumo: alguém acredita que o senhor engenheiro precisa de que o Estado tenha despesas com ele? Percebe-se lindamente que todo o dinheiro gasto com o País, isto é, com as gentes que o habitam, seja para ele um desperdício. Entende-se. E é bom entender. Até para melhor percebermos o ponto actual do processo revolucionário em curso.
Sustada, pois, a minha inicial apetência, e não querendo escolher entre outros possíveis temas que a TV este ano me ofereceu directamente relacionados com o que aconteceu há trinta anos, não porque não houvesse por onde escolher, mas sim porque a presença dos ex-pides me pareceu tão significativa que relegou todo o resto para um plano secundário, fixei a atenção numa outra entrevista. Aconteceu na RTP2, no programa «Diga lá, Excelência», que por sinal é um patusco título, perfeitamente adequável a qualquer programa cómico. Não era de modo nenhum o caso, porém. O entrevistado do próprio dia 25 de Abril não foi nenhum capitão do 25, muitíssimo menos pertenceu à patriótica corporação a que acima se fez referência. Ainda assim, porém, a RTP lá foi entrevistá-lo no ainda chamado Dia da Liberdade, ou para transmissão nesse dia, e não poderá dizer-se que sem motivo. É que o entrevistado, Belmiro de Azevedo de seu nome e engenheiro por qualificação académica, é uma das mais poderosas figuras da actual vida portuguesa, diz-se mesmo que personalidade integrante do poder efectivo que comanda o País muito mais que o poder eleito. Quanto a isto, convirá ler um livro recentemente publicado e ouvir o que o seu autor tem vindo a explicar sem que lhe tenha sido dada muita atenção, sendo que o livro se intitula «Ensaio sobre a Lucidez» e quanto ao autor não será preciso nomeá-lo.
As inúteis despesas
Foi o eng. Belmiro de Azevedo entrevistado pelo dr. José Manuel Fernandes, digamos sumariamente que seu empregado no jornal «Público», e pela dra. Graça Franco, jornalista da RR que recentemente se notabilizou por repetidas referências ao Estado Novo quando no «Clube dos Jornalistas» se discorria acerca da censura fascista. Como seria de esperar. Como seria de esperar, Belmiro de Azevedo disse muitas coisas que reclamam atenção e reflexão, todas relacionadas com a «evolução» agora assumida pela direita e pelo seu governo, mas, entre elas, uma me pareceu especialmente significativa: quando o senhor engenheiro, repetindo aliás o que vem sendo uma recorrente exigência do grande empresariado e não só, acentuou a necessidade prioritária do equilíbrio orçamental pela redução das despesas do Estado e sem qualquer alusão à necessidade de cobrar as receitas devidas. Ouvindo-o, como eu o compreendi, caramba! É que as mais relevantes despesas públicas são as havidas com a Saúde, com a Segurança Social, com a Educação, com a Justiça, e nesses sectores consubstanciam a devolução ao povo, sob a forma de serviços aliás fundamentais, dos impostos cobrados. Ora, é claro que o senhor engenheiro não precisa desses serviços para nada. Alguém imagina o senhor engenheiro, mais os que de algum modo com ele se possam comparar, a irem para a fila nos postos do SNS, para as longas esperas nas urgências hospitalares? Alguém acha que o senhor engenheiro está a contar com uma reforma da Caixa Nacional de Pensões para uma velhice tranquila? Ou que precisa de mandar os seus descendentes estudar no ensino público português? Ou que sente o seu futuro dependente de um processo que esteja há dez anos encalhado? Em resumo: alguém acredita que o senhor engenheiro precisa de que o Estado tenha despesas com ele? Percebe-se lindamente que todo o dinheiro gasto com o País, isto é, com as gentes que o habitam, seja para ele um desperdício. Entende-se. E é bom entender. Até para melhor percebermos o ponto actual do processo revolucionário em curso.