Os Dias Levantados

Manuel Augusto Araújo

(…)É então o canto da promessa/sem tréguas;
a poesia concertante/intempestiva.
A música fora dos eixos:/os tempos que nascem do tempo

Manuel Gusmão, Fala da 3.ª irmã, texto no programa da ópera «Os Dias Levantados»

Quase seis anos depois de ter sido realizada a ópera «Os Dias Levantados», de António Pinho Vargas, foi finalmente registada fonograficamente e colocada no mercado discográfico. Não se compreendia que sendo escassa a produção de óperas por compositores portugueses a feitura de uma, particularmente esta, estivesse afastada de um dos principais canais de circulação de bens culturais, até porque um investimento daquele teor, tanto artístico como económico, não deveria ficar limitado a três ou quatro representações no teatro S. Carlos e, anos mais tarde, à sua reedição em formato concerto na Culturgest.
Foi editada em CD o que sendo bom é insatisfatório. Gostaríamos de a ver em formato DVD, uma normalidade nos nossos tempos, sobretudo quando esse deve ser o formato preferencial de um espectáculo de ópera, o que nos retira a possibilidade de a (re) ver na íntegra.
Fica a hipótese de a ouvirmos e, para quem a viu, relembrar alguns momentos fortes da encenação de Lukas Hemleb, a contínua construção/desconstrução de uma cidadela do 25 de Abril, que o movimento dos elementos cenográficos, desenhados por Eduardo Souto Moura — variantes de uma maqueta para um edifício em torre que resulta da análise formal do empilhamento de paletes —acentua e que se conjuga com o desenho das luzes envolvendo e sublinhando o movimento das personagens, fazendo e desfazendo grupos no território do palco sobrevoado pelo Anjo Camponês, vigiado pelo Anjo da História. Move-se o mundo, aquele mundo concreto naquele tempo concreto, em movimentos ditados pela articulação das texturas sonoras e poéticas de António Pinho Vargas e Manuel Gusmão em excelentes interpretações sob a direcção musical de João Paulo Santos, realizando a celebração da história colectiva de «um tempo que saiu dos eixos».
A primeira nota deve reportar-se à encomenda. Não é prática moderna encomendar obras musicais que celebrem factos históricos, particularmente numa altura em que muitos dos seus actores, activos ou passivos, estão vivos e a memória dos muitos acidentes que marcaram o percurso do processo revolucionário é tão recente que ainda vive no virar da esquina. Não é usual mesmo numa época em que o regime de encomenda, por parte de entidades públicas ou privadas, está na base de parte substancial da produção musical contemporânea.
Por essa proximidade histórica e pelas muitas apropriações a que o 25 de Abril foi e é sujeito, quase todas no sentido de, com subtilezas sofisticadas, rudes mistificações ou mentiras descaradas, menorizar o corte revolucionário que representou e embaciar as expectativas geradas, a encomenda de uma ópera que o celebrasse, quase um quarto de século decorrido, foi um desafio arrojado por quem a fez e escolheu o destinatário: António Mega Ferreira que, em nome do Festival dos Cem Dias da Expo’98, endereçou o desafio a António Pinho Vargas.
Reacções, foram muitas, na sua maioria de «incompreensão» pela encomenda, depois pelo libreto e, por arrasto, pela música. A análise dessas opiniões, muito variadas e de valor muito diferente, far-se-á um dia, mas na sua raiz, e muito desigualmente está a abordagem histórico – ideológica do 25 de Abril, com o desejo, expresso ou implícito, maior ou menor, de aplainar a sua carga revolucionária o que tem a sua expressão máxima e mais reaccionária nas teses que procuram mostrar (utilize-se por sarcasmo o vulgar linguajar dos nossos meios de comunicação social) a revolução como um acidente desnecessário se o fascismo tivesse sabido gerir a transição para a democracia. Paralela e nem sempre coincidente, desenvolve-se o posicionamento retrógrado e alienante em relação às artes que são entendidas, no limite, como um adereço, expurgadas de capacidade de reflexão histórica – estética, deportando-as da sociedade onde se encontram integradas e onde ocupam lugar estético mas também crítico e ideológico.
A celebração do 25 de Abril e a ópera «Os Dias Levantados» não têm lugar nessa geografia por muito dissemelhante que seja o seu mapa. O recurso mais banal e imediato do encartado parque jurássico que vive nesse mundo, por mais armanis, versaces ou gaultiers que vistam ao seu argumentário, é classificar o libreto como um texto ideologicamente datado. E se, por vezes, não dizem o mesmo da música ou da encenação é porque não sabem ler/ouvir/ver como o julgam fazer com o poema.
«Os Dias Levantados» é, contra esses ventos soprados do restelo, uma belíssima e inteligente ópera de António Pinho Vargas. Um encontro com um país que ganhou voz que aqui encontra uma sublime «multivocalidade social, discursiva, poética».


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