De súbito, a realidade
Há muito, muito tempo, ainda Abril era apenas um projecto no horizonte de alguns, Luís Filipe Costa disse perante câmaras e microfones de televisão do fascismo uma frase que eu nunca mais esqueci e muitas vezes tenho vindo a citar de então para cá: «Não é triste ser velho: é triste ser velho em Portugal.» É claro que era também uma frase corajosa, proferida ali e no quadro de vigilância e repressão do tempo, mas se tantas vezes a tenho citado já nos anos da democracia que vivemos não se deveu isso à coragem que a possibilitara nem à lucidez que a tinha gerado, mas sim à desesperante actualidade que a frase tem mantido ao longo dos últimos trinta anos. Entretanto, bem se sabe, já deixaram de existir os velhos do tempo em que a frase foi dita, já se tornaram velhos os que nessa altura pensariam a velhice como realidade longínqua. E voltei a lembrar-me dela, e muito, enquanto assistia no passado fim-de-semana ao «Expresso da Meia-Noite», programa de debate na SIC-Notícias. O tema da emissão era a aparente descoberta pelo jornal «Público», com extensa reportagem e grande manchete na primeira página, de muitas milhares de pobres em Portugal, pelo menos duzentos mil e a contar por baixo, revelação que parece ter espantado muita gente excelente que parece não saber muito bem em que país vive. E lá foi dito o que aliás não terá sido grande novidade: que uma importante fracção dos pobres é constituída por elementos da chamada Terceira Idade, esse elegante eufemismo com que por vezes parece supor-se resolvida a antiga tragédia da velhice desprezada.
A tal manchete que lançou agora a questão ao nível da chamada opinião pública e suscitou ecos que decerto vão dissipar-se depressa até porque muito se fará para isso referia, como já acima se disse, o número de duzentos mil pobres. Contudo, no programa da SIC-Notícias foi dito o que aliás já fora afirmado noutros media embora mais de passagem: que a contagem pecaria por escassa e que o verdadeiro número facilmente atingirá o milhão. O caso é que o recenseamento dos pobres não tem sido um trabalho em que o Estado se tenha empenhado muito; tem preferido deixá-lo ao cuidado de instituições da sociedade civil onde gente de bom coração e decerto nervos firmes se tem aplicado a conhecer mais de perto o vasto e complexo território de pobrezas várias, quando não de misérias extremas, que se estendem de norte a sul do País embora com especiais concentrações em certas zonas. Assim fica o governo da nação («de Portugal», como o dr. Portas gosta de repetir em tom manual de História pré-Abril) ao menos um pouco desobrigado de se ocupar muito desse desagradável assunto que passa a ter o ar de ser coisa «lá deles», quer dizer, das santas almas que foram tocadas pelo bom impulso da caridade.
Abril e anti-Abril
Contudo, depois da reportagem do «Público» e das suas sequelas na TV, ficou claro que pobres em Portugal há muitos milhares e que fome, a tal fome que os níveis oficiais só lobrigavam no chamado Terceiro Mundo, também a há e em apreciável quantidade. Talvez se deva registar aqui que logo houve quem acorresse a tentar fechar a janela aberta dizendo que nisto há sempre grandes exageros e as coisas não serão tanto assim. Foi também pelo efeito, que terá tido, de reduzir a cisco essa objecção razoavelmente miserável que teve mérito esta emissão do «Expresso da Meia Noite», e é preciso referir a importância que no debate tiveram as intervenções do dr. Alfredo Bruto da Costa, para lá da contribuição enorme que o seu trabalho desde há muito tem relativamente a esta matéria. Faltou, porém, quem ali dissesse uma coisa fundamental: que a existência de uma tão grande mancha de pobreza em Portugal, agravada por situações de fome cujo volume se desconhece ao certo mas que seguramente existem e não serão raras, são um efeito directo dos êxitos obtidos pela contra-revolução ao longo das últimas décadas. Isto porque, dizendo-o em palavras que podem parecer excessivamente sumárias mas de facto não o são, Abril foi feito a favor dos pobres e o já longo avanço anti-Abril é feito a favor dos ricos. Quando a direita expende a sua suposta convicção de que o melhor meio para eliminar as desigualdades sociais, isto é, também e sobretudo a pobreza, é favorecer o enriquecimento de alguns, que aliás já são ricos embora não tanto quanto ambicionam, para que da riqueza criada transbordem algumas migalhas a partilhar com os outros, os mais ou menos pobres, está a assumir uma impostura que desde sempre a prática desmascara. Está a dizer aos pobres que esperem sempre um pouco mais, isto é, indefinidamente. Está a manter a pobreza e a fome.
A tal manchete que lançou agora a questão ao nível da chamada opinião pública e suscitou ecos que decerto vão dissipar-se depressa até porque muito se fará para isso referia, como já acima se disse, o número de duzentos mil pobres. Contudo, no programa da SIC-Notícias foi dito o que aliás já fora afirmado noutros media embora mais de passagem: que a contagem pecaria por escassa e que o verdadeiro número facilmente atingirá o milhão. O caso é que o recenseamento dos pobres não tem sido um trabalho em que o Estado se tenha empenhado muito; tem preferido deixá-lo ao cuidado de instituições da sociedade civil onde gente de bom coração e decerto nervos firmes se tem aplicado a conhecer mais de perto o vasto e complexo território de pobrezas várias, quando não de misérias extremas, que se estendem de norte a sul do País embora com especiais concentrações em certas zonas. Assim fica o governo da nação («de Portugal», como o dr. Portas gosta de repetir em tom manual de História pré-Abril) ao menos um pouco desobrigado de se ocupar muito desse desagradável assunto que passa a ter o ar de ser coisa «lá deles», quer dizer, das santas almas que foram tocadas pelo bom impulso da caridade.
Abril e anti-Abril
Contudo, depois da reportagem do «Público» e das suas sequelas na TV, ficou claro que pobres em Portugal há muitos milhares e que fome, a tal fome que os níveis oficiais só lobrigavam no chamado Terceiro Mundo, também a há e em apreciável quantidade. Talvez se deva registar aqui que logo houve quem acorresse a tentar fechar a janela aberta dizendo que nisto há sempre grandes exageros e as coisas não serão tanto assim. Foi também pelo efeito, que terá tido, de reduzir a cisco essa objecção razoavelmente miserável que teve mérito esta emissão do «Expresso da Meia Noite», e é preciso referir a importância que no debate tiveram as intervenções do dr. Alfredo Bruto da Costa, para lá da contribuição enorme que o seu trabalho desde há muito tem relativamente a esta matéria. Faltou, porém, quem ali dissesse uma coisa fundamental: que a existência de uma tão grande mancha de pobreza em Portugal, agravada por situações de fome cujo volume se desconhece ao certo mas que seguramente existem e não serão raras, são um efeito directo dos êxitos obtidos pela contra-revolução ao longo das últimas décadas. Isto porque, dizendo-o em palavras que podem parecer excessivamente sumárias mas de facto não o são, Abril foi feito a favor dos pobres e o já longo avanço anti-Abril é feito a favor dos ricos. Quando a direita expende a sua suposta convicção de que o melhor meio para eliminar as desigualdades sociais, isto é, também e sobretudo a pobreza, é favorecer o enriquecimento de alguns, que aliás já são ricos embora não tanto quanto ambicionam, para que da riqueza criada transbordem algumas migalhas a partilhar com os outros, os mais ou menos pobres, está a assumir uma impostura que desde sempre a prática desmascara. Está a dizer aos pobres que esperem sempre um pouco mais, isto é, indefinidamente. Está a manter a pobreza e a fome.