Os dois Brown escoceses e o juiz Hutton salvaram Blair

Dois dias que assombraram a Grã-Bretanha

Manoel de Lencastre
Os dias de terça-feira, 26, e quarta-feira, 27 de Janeiro, criaram um inabitual «suspense» em toda a Grã-Bretanha. No primeiro, o debate nos Comuns quanto à nova lei que permite o aumento das propinas dos estudantes universitários para 4500 euros anuais, anunciava-se como susceptível de produzir a derrota do governo Blair em consequência de uma enorme deserção de deputados trabalhistas adversários daquela medida. No segundo, a apresentação pública do relatório Hutton revelaria, assim se esperava, a descarada duplicidade do primeiro-ministro quando teve de defender-se de acusações graves relacionadas com a guerra do Iraque e com a morte do cientista Kelly.
A derrota parlamentar obrigaria Blair a apresentar a questão de confiança. A aguardada confirmação do juiz de que mentira levá-lo-ia a demitir-se. Mas Tony Blair conseguiu sobreviver. Com efeito, perante uma crise desta magnitude, o «comité central» do imperialismo não perdeu tempo. Blair, tinha de ser salvo. O sistema tinha de ser salvo. O imperialismo não estava preparado para aceitar que as nações britânicas se levantassem em peso contra um primeiro-ministro completamente desacreditado. A demissão de Blair, a escolha de um novo primeiro-ministro (possivelmente, Gordon Brown), a instabilidade que de aí resultaria, o acordar de adormecidas forças exigindo um sistema diferente, o fim do blairismo e do «New Labour», o velho trabalhismo recuperando terreno, os conservadores e os liberais com medo do desconhecido – tudo isso era essencial evitar-se.

Maioria absoluta de 161 reduzida para cinco!

Na votação da lei das propinas, Blair viu-se humilhado como nunca o fora antes. Na verdade, a maioria conseguida a seu favor foi de, apenas, cinco votos, quando a supremacia normal do seu partido é de 161. Nada menos de 72 deputados trabalhistas votaram contra o primeiro-ministro e a sua lei das propinas. Outros 18 abstiveram-se. A rebelião manifestou-se, poderosamente. Mas, secretamente, Blair tinha tomado medidas, na véspera, para não permitir que a rebelião no seu grupo parlamentar alastrasse ainda mais. Assim, o chanceler do Tesouro, Gordon Brown, foi instruído para chamar o líder dos rebeldes, Nick Brown, e oferecer-lhe tudo o que fosse necessário para que os deputados trabalhistas escoceses não aderissem à causa rebelde e votassem com o governo. Foi o que aconteceu.
No dia seguinte, com o país a digerir, ainda, os extraordinários acontecimentos relacionados com a dramática votação nos Comuns, o relatório Hutton ilibava Blair. Branqueava-o. Afirmava que o primeiro-ministro não tinha mentido. Muito menos o ministro da Defesa, Hoon. A culpa de toda a controvérsia cabia à BBC. O suicídio do cientista, Kelly, fora provocado pelas equívocas reportagens da estação oficial de rádio e TV. Blair, era, afinal, o belíssimo rapaz que sempre fora. Nada tinha a ver com toda aquela controvérsia.
O drama estabeleceu-se.
Estupefacto, o país reflectiu em tudo o que acontecera. E compreendeu que as chamadas instituições democráticas (do capitalismo) já não o servem. A crise da monarquia persiste. O primeiro-ministro mente, mas é salvo por um juiz proveniente dos mais elevados circuitos da magistratura. Blair envolve a Grã-Bretanha numa nunca razoavelmente explicada guerra no Iraque. Escapa a todas as acusações. Agora, foi instituída uma comissão de inquérito às circunstâncias em que o país se envolveu no conflito iraquiano. Mas os elementos dessa comissão são todos amigos do blairismo como, por exemplo, o respectivo presidente, lord Butler de Brockwell, um antigo secretário do gabinete que tem servido diversos primeiros-ministros.
A crise, afinal, não era no governo. É no sistema que ela reside. Mas o sistema é aquele que o capitalismo consente. Ensinou Lenine, de cuja morte se marcou o 80.º aniversário no passado dia 24, que é importante lutar contra os governos do sistema mas que a luta final será contra o «comité central» do imperialismo – essa figura sombria que influencia o nosso dia-a-dia mas contra a qual vale a pena lutar.

A voz da história

O aparecimento do juiz Hutton a salvar Blair, faz-nos recordar o caso do juiz Denning que salvou Harold Macmillan, em 1963. Nesse tempo, John Profumo, hoje perfeitamente branqueado pelo sistema, era o ministro da Defesa britânico no governo chefiado por Macmillan que sucedera ao de Anthony Eden. A posição de ministro da Defesa em plena guerra fria não podia ser ocupada por qualquer político que não agradasse às mais altas esferas do imperialismo. Profumo tinha a confiança do sistema. Porém, veio a saber-se que privava com prostitutas, escondia-se da própria esposa para surgir em «villas» com amplas piscinas, em Espanha. Mas sempre acompanhado por loiras amásias. Entre elas a famosa Christine Keller.
A Grã-Bretanha de 1963 era diferente daquela que conhecemos hoje. Mas o sistema não podia calar-se e toda a gente previa que o governo de Macmillan tinha os seus dias contados. Também foi chamado um juiz, o referido lord Denning, para se encarregar de realizar um inquérito sobre o caso, e o país ficou na expectativa de vir a saber tudo sobre o ministro e as suas prostitutas. Nesse tempo ainda não existiam os tablóides e as «interessantes» terceiras páginas... tão atraentes para os leitores mais desportivos.
O relatório Denning confirmou muito do que se dizia sobre John Profumo. Mas o governo e o primeiro-ministro, Harold Macmillan, tinham de ser vistos fora dos desgostantes acontecimentos investigados para que a temida desestabilização do sistema não se verificasse. Macmillan, portanto, ficou no poder. Mas só por mais um ano. O mesmo acontecerá com Blair. O sistema carece de um esquema de preparação para a mudança que não pode, evidentemente, ser divisado de improviso.

Blair contra um sindicato militante

O Sindicato dos ferroviários, pessoal portuário e da marinha mercante (RMT) foi expulso do Partido Trabalhista. Trata-se da primeira expulsão de uma organização sindical do movimento do «Labour Party» desde a respectiva fundação, há 104 anos. A expulsão foi tornada oficial no passado dia 7 dado que os dirigentes do sindicato recusaram atender apelos de última hora oriundos de sectores diversos do trabalhismo. Estes exigiam que o RTM retirasse apoio financeiro ao Partido Socialista Escocês cujo programa, declaradamente de esquerda, não agrada aos «blairistas». Note-se que o sindicato expulso é sucessor de um dos históricos que tinham ajudado os trabalhistas quando estes criaram o partido em 1900. Nessa altura, denominava-se «Amalgamated Society of Railway Servants» (Sociedade Amalgamada dos Servidores dos Caminhos de Ferro).
Num encontro realizado em Glasgow, os delegados sindicais recusaram por 42 votos contra 8 retirar apoio financeiro àquele pequeno e jovem partido escocês dirigido por um socialista de inatacáveis princípios, Tommy Sheridan. Bob Crow, secretário-geral do sindicato, que conta 67 000 membros, declarou: «O Partido Trabalhista não está em posição de ditar-nos o caminho a seguir. Só o nosso sindicato pode decidir quais os partidos políticos que deve apoiar e a verdade é que os candidatos eleitorais dos trabalhistas em todo o país têm subscrito nestes últimos anos propostas políticas directamente opostas às nossas».
Os ataques de Bob Crow foram os mais recentes num percurso já longo de hostilidade entre ambas as partes deste conflito. O sindicato já tinha despejado o primeiro-ministro adjunto, John Prescott, de um apartamento que ocupava em Clapham, sul de Londres, contra o pagamento de uma pequena renda que não sofrera qualquer alteração desde 1960. Mr. Prescott, com efeito, tem ganho a reputação de coleccionador de residências desde que entrou para o governo, tantos são os apartamentos e tantas as casas que possui mas não ocupa. Ao ver que a sua posição de membro do sindicato não se coadunava com a nova realidade, pediu a demissão. Outro deputado blairista, Ivan Henderson, disse: «Não estou disposto a aceitar ordens do secretário-geral do sindicato. Por isso, também me demito».
Mr. Crow fez saber que nem o primeiro nem o segundo fazem falta aos ferroviários ou aos trabalhadores portuários e da marinha mercante. «Nós conhecemos a nossa trajectória. Mas eles, não!». O RMT já tinha cortado o seu auxílio financeiro ao Partido Trabalhista em 255 mil euros anuais.
Um professor da Universidade de Stirling, Eric Shaw, afirmou: «Os blairistas não compreendem a grandeza do movimento sindical britânico. O seu projecto do «New Labour» não contempla os ideais dos sindicatos».


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