Em Seia, pão para todos os gostos

Viagem ao Museu do Pão

Mariana Morais
A vegetação frondosa da encosta sudoeste da Serra da Estrela serve de moldura a um edifício em granito, com três pisos, onde se exibem as mais antigas e artísticas tradições do pão português. Desde a Sala do Ciclo do Pão, ao Centro de Investigação Gastronómica, passando pelo pão político, social e religioso, tudo no Museu do Pão foi pensado para dar protagonismo à história do principal alimento dos povos.
O cheiro a pão quente, acabado de sair do forno, sente-se no ar e atrai-nos para dentro da sala. As luzes acendem-se e, como por magia, os moinhos começam a moer o milho, o trigo e o centeio. Lavrar, semear, ceifar, moer, amassar, cozer, enfim, todo o ciclo do pão acontece diante dos olhos surpreendidos do visitante. A arca do milho, garantia do sustento para toda a família e a bicicleta com os cestos, para a venda de porta em porta, também lá estão.
Assim começa a viagem ao Museu do Pão, em Seia. Aberto ao público desde Setembro de 2002, este museu é o mais visitado dos museus portugueses. Desde a sua inauguração já recebeu mais de cento e quarenta mil visitantes. Num edifício de três pisos, projectado e construído propositadamente como um centro de cultura e lazer, preservam-se e exibem-se as mais antigas e artísticas tradições do pão português.

Pão po­lí­tico, so­cial e re­li­gioso

Depois do ciclo do pão passamos à Sala do Pão Político, Social e Religioso. Na parede ao fundo destaca-se uma enorme vitrina onde podemos ver o pão judaico, o famoso pão ázimo da Páscoa Judaica. Mesmo ao lado está o pão cristão representado em hóstias para a comunhão e nas espigas de trigo bordadas em estolas e casulas do século XIX. Nos expositores do lado esquerdo, a presença do pão social é assinalada pelo alvará sobre o abastecimento de cereais ao exército na época das Invasões Francesas. Ao lado, está um documento sobre o pão na guerra civíl, a «Tabella Curiosa dos preços a que chegaram alguns géneros no auge da sua carestia durante o memorável assédio à heróica cidade do Porto – 1832-1834».
Um exemplar da Gazeta Portuguesa de l911 dá-nos conta das greves dos vendedores de pão, que tiveram lugar, nesse ano, em Lisboa e no Porto. O pão político está representado, nesta sala, através do primeiro documento legal de um partido político, o Partido Comunista Português. Datado de 25 de Abril de 1974, um manifesto da Direcção da Organização Regional do Alentejo e Algarve do PCP apela à luta pelo pão, logo no primeiro parágrafo.
Subimos depois as escadas para a Sala da Arte do Pão, não sem antes passarmos pelo bar e pela biblioteca. As traves escuras do tecto contrastam com os painéis de vidro azul, transparente, da parede que dá acesso a uma enorme varanda. A vista que se estende diante dos nossos olhos, na manhã fria e luminosa, é deslumbrante. Ao fundo, a cidade de Seia brilha ao sol e algumas casas em granito destacam-se entre os pinheiros.

A arte do pão

Entramos agora no espaço onde se exibem obras criadas por inúmeros artistas. Desde a cerâmica aos metais, passando pela azulejaria e pela arte sacra, todas têm o pão como elemento principal de representação. Desde logo, chama a atenção de quem entra nesta sala a existência, numa das paredes, de um ecrã onde são projectadas cenas de filmes em que o pão tem papel principal. Nele podemos ver excertos do filme «Tess» de Roman Polanski e também a famosa «Dança dos Pães» do filme «A Quimera do Ouro» de Charlie Chaplin.
É a altura de conhecer o «Mundo Fantástico do Ciclo do Pão», onde, a brincar, se conta a história do pão às crianças. Num mundo de «faz de conta», através de um espectáculo de luz, cor e animação ensina-se aos mais pequenos todo o processo que decorre desde as sementeiras até ao momento em que o pão fica pronto para ser consumido.
Cecília, a jovem recepcionista, diz que «toda a gente gosta da visita, mas são as crianças as mais entusiasmadas. Estou cá desde o princípio e nunca me aborreço porque este é um museu vivo». Cecília gosta de ver a surpresa e a satisfação no rosto dos visitantes: «É bom ouvir as pessoas dizerem que vão aconselhar os amigos para também cá virem».
Depois de visitar a mercearia tradicional para comprar a broa que é feita na padaria do museu, que também abastece o restaurante onde todos os pratos são confeccionados à base de pão, é hora de terminar a viagem.


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