Cumplicidades

Luís Carapinha
No momento em que estas linhas são escritas, a besta de guerra norte-americana e inglesa prossegue a devastação do Iraque. De norte a sul do país as forças invasoras semeiam a morte e destruição, visando a eliminação total da resistência iraquiana. Contra o Iraque são utilizadas bombas de fragmentação proibidas pelas convenções internacionais e testadas novas armas letais. A agressão criminosa já causou milhares de vítimas entre a população iraquiana. Na outra frente da guerra - a batalha da "opinião pública" -, os media dominantes, actuando em parelha com as tropas invasoras, intensificam a barragem contra-informativa: uma guerra profundamente ilegítima e criminosa é transfigurada em acto de libertação e o massacre do seu povo é colorado de tons rosa. Os prodígios da técnica assassina são exaltados. Projectam-se cenários para o futuro do país na era “pós-Saddam”, eufemismo utilizado para ocultar a transformação em curso do Iraque em protectorado dos EUA e a brutal subjugação do seu povo. Os media do sistema reproduzem um consenso amplo e macabro, mas não inesperado, face à consumação da agressão imperialista e destruição paulatina do direito internacional pelos EUA. As bolsas e os mercados financeiros animam-se com os avanços da guerra. Aliados desavindos relegam, momentaneamente, contradições e disputas sérias para um plano inferior, e unem-se em torno de interesses comuns mais profundos, silenciando o carácter criminoso e predatório desta guerra. Assim, o MNE francês, anuncia o relançamento das relações transatlânticas, enquanto Blair, depois de pontapear a ONU, volta agora a invocá-la, procurando legitimar a ocupação e partilha de interesses do Iraque. A Rússia, apesar das declarações de condenação firme da agressão, diz-se empenhada, acima de tudo, na preservação da "parceria estratégica" com os EUA.

A escalada tortuosa de instrumentalização e humilhação das Nações Unidas sob a batuta dos EUA, não isenta, contudo, as responsabilidades da própria ONU e do Secretário-Geral da organização no processo. No dia em que Bush anunciou o ultimato ao Iraque, a ONU, por ordem de Kofi Annan, retirou os inspectores da UNMOVIC e da AIEA do Iraque e suspendeu o programa "petróleo por alimentos". As forças da ONU que "velavam" pelas zonas desmilitarizadas na fronteira entre o Iraque e o Koweit também se retiraram, deixando as portas escancaradas à invasão americano-inglesa. Iniciada a guerra, apesar do descontentamento dominante no seio da organização, da posição (de condenação) dos países árabes e do Movimento dos Não-Alinhados, não foi, sequer, convocada uma sessão especial da Assembleia Geral, possibilidade que, à partida, Annan descartou. O futuro papel da ONU no Iraque, ao sabor dos interesses e necessidades dos EUA e seus vassalos, servirá para tentar apagar as sequelas do golpe profundo desferido contra o precário edifício da legalidade internacional. A reabilitação "humanitária" da ONU no Iraque, sem uma demarcação inequívoca da agressão militar e da doutrina norte-americana de “guerra preventiva”, é uma armadilha de consequências imprevisíveis para a estabilidade mundial e o futuro dos povos.
Na União Europeia (e NATO), as graves divergências que marcaram o período pré-guerra recuaram, dando lugar ao actual "consenso pragmático". Mas as interrogações quanto ao futuro e o cenário de crise política permanecem, tendo como pano de fundo a crise económica global e os ímpetos federalistas e de alargamento. Outro dos baluartes da economia capitalista mundial, o Japão, apoia declaradamente a guerra.

A escalada feroz do imperialismo, configura, neste início de século, uma ameaça real à humanidade que, como a agressão ao Iraque testemunha, não pode ser subestimada. Por isso, a ampliação da luta pela paz, contra a guerra e o imperialismo é um imperativo pelo qual nos continuaremos a bater!



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