Cuidado com a língua
Dizia o outro que a língua portuguesa é muito traiçoeira. Não creio que o seja especialmente, porque isto de traições tem mais a ver com quem trai do que com os instrumentos de que para tal se serve. Claro que há frases «sintomáticas», em português, que nos levam a ter cuidados a ouvir. Como aquela que diz «com a verdade me enganas», por exemplo. E, no jogo de enganos em que a política tem vindo a atolar-se, mercê dos partidos que fazem das promessas - e das mentiras - os principais argumentos da batalha pelo poder, muitos concluem que é a língua e não quem a fala que os induziram em erro no momento de meterem votos na urna. Se não, como poderá interpretar-se o «perdão» que costumadamente concedem a quem já lhes mentiu, votando ora num ora noutro, no balançar das desilusões?
Ainda agora, ao fim de um ano de governação, confrontado com as previsões da União Europeia, que aponta para Portugal um défice muito maior do que aquele que Ferreira Leite, a golpes baixos desferidos sobre os trabalhadores, prometeu, Durão Barroso vem insistir que cumprirá a contenção, anunciando desta vez a «surpresa» de outras «medidas». O cidadão comum deixar-se-á mais uma vez enganar?
Mas, ao começar esta crónica, pensava mais particularmente na língua inglesa, que se vem tornando no paradigma dos enganos. E uma expressão, sobre todas as outras, tem mostrado ao mundo o que pode fazer uma língua. Trata-se da expressão «fogo amigo», com que as tropas anglo-americanas brindam os espectadores da guerra. Brinde envenenado e que mata - civis iraquianos, mulheres e crianças, de quem Bush e Blair se têm mostrado tão afeiçoados; jornalistas, alguns deles mesmo serventuários das vitoriosas hostes do «bem»; «aliados» curdos; até as próprias tropas que têm recebido sobre as cabeças a sagração ardente dessa amizade.
No entanto, repetimos, não se trata da língua, mas de quem a fala. As mais altas vozes - aquelas que usam os altifalantes da comunicação serventuária do capital e do imperialismo - chamam amigos a quem no momento lhes serve. Nas bocas das administrações americanas, Suharto já foi amigo, até deixar de lhes servir. E Noriega, até se rebelar. E Savimbi, até se lhes tornar um estorvo. Saddam serviu-lhes bem.
Nesta língua particular, usada por Bush e Blair, há apenas duas palavra de confiança: petróleo e dinheiro.
Ainda agora, ao fim de um ano de governação, confrontado com as previsões da União Europeia, que aponta para Portugal um défice muito maior do que aquele que Ferreira Leite, a golpes baixos desferidos sobre os trabalhadores, prometeu, Durão Barroso vem insistir que cumprirá a contenção, anunciando desta vez a «surpresa» de outras «medidas». O cidadão comum deixar-se-á mais uma vez enganar?
Mas, ao começar esta crónica, pensava mais particularmente na língua inglesa, que se vem tornando no paradigma dos enganos. E uma expressão, sobre todas as outras, tem mostrado ao mundo o que pode fazer uma língua. Trata-se da expressão «fogo amigo», com que as tropas anglo-americanas brindam os espectadores da guerra. Brinde envenenado e que mata - civis iraquianos, mulheres e crianças, de quem Bush e Blair se têm mostrado tão afeiçoados; jornalistas, alguns deles mesmo serventuários das vitoriosas hostes do «bem»; «aliados» curdos; até as próprias tropas que têm recebido sobre as cabeças a sagração ardente dessa amizade.
No entanto, repetimos, não se trata da língua, mas de quem a fala. As mais altas vozes - aquelas que usam os altifalantes da comunicação serventuária do capital e do imperialismo - chamam amigos a quem no momento lhes serve. Nas bocas das administrações americanas, Suharto já foi amigo, até deixar de lhes servir. E Noriega, até se rebelar. E Savimbi, até se lhes tornar um estorvo. Saddam serviu-lhes bem.
Nesta língua particular, usada por Bush e Blair, há apenas duas palavra de confiança: petróleo e dinheiro.