Pequenos nadas

José Casanova
Nada (ou quase nada) de novo em relação a 1991, em matéria de acção no terreno: a mesma brutalidade criminosa das forças norte-americanas e dos seus aliados, a mesma violência destruidora, a mesma hipocrisia na justificação da barbárie, as mesmas falsificações em relação à dimensão da tragédia humanitária, as mesmas tretas em relação à verdadeira razão do massacre.
Também o mesmo esquema no que toca aos negócios pós-guerra. Todos os dias nos chegam notícias de discussões acesas sobre quem é que vai ficar com as maiores fatias dos vários negócios: o do petróleo, o da ocupação de posições geo-estratégicas, o da reconstrução. Sendo óbvio que, hoje como ontem, o Império e os grupos económicos que nele mandam abicharão a quase totalidade dos negócios, vale a pena, no entanto, relembrar o que se passou há doze anos quanto ao negócio da reconstrução.
Relembremos, então: em 1991, o imperialismo norte-americano decidiu libertar o Koweit e, como é seu hábito, decidiu igualmente que essa libertação seria feita à bomba, ou seja, lançando uns milhares de toneladas de bombas sobre o país e o povo que os libertadores haviam decidido que queriam ser libertados. Assim, destruíram o país e mataram milhares de pessoas. (Escusado é dizer que tal destruição e tal assassinato em massa foram decididos pelo Presidente dos EUA - na altura Bush pai - cujo era, como todos os seus antecessores e sucessores, portador de um mandato divino que confere legitimidade democrática a todos os crimes que os presidentes dos EUA entendam cometer). No entanto, antes do crime, os EUA e os seus aliados – a França e a sempre presente Grã-Bretanha – sentaram-se à volta da mesa, discutiram a partilha do saque e decidiram que o negócio da reconstrução do Koweit seria dividido pelos três intervenientes na destruição do país e a divisão seria feita segundo o seguinte e democraticíssimo critério: a cada país caberia a percentagem do negócio correspondente ao que destruísse e matasse.
Destruído o país, assassinadas milhares de pessoas e feitas as contas – «eu destruí e matei x, tu destruíste e mataste y, ele destruiu e matou z» – coube ao Império, como era natural, a parte maior do negócio da reconstrução (mais de 80%) sendo o restante distribuído pelos dois ajudantes.
Tudo dentro dos conformes, como não poderia deixar tratando-se de gente de bem como esta é... e a mostrar-nos que destes pequenos nadas se faz a democracia.


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