Do México, com verdade
Naquele dia estava anunciado para as 14 horas, na RTP 2 (que estava nas suas derradeiras horas de emissão antes de ser metamorfoseada na «Dois»), o habitual programa de debate entre quatro eurodeputados portugueses e eu, naturalmente, não quis faltar ao encontro marcado. O caso é que, como se sabe, os programas de debate entre deputados se tronaram na quase exclusiva oportunidade de ouvir vozes comunistas na TV, pois está provado, até por via estatística, que os responsáveis por agendas e alinhamentos noticiosos nas diversas estações têm um incorrigível pendor para se esquecerem de que existem o PCP e os seus militantes quando se trata de recolher depoimentos e opiniões. De onde, já se vê, a vantagem de não perder nenhuma dessas raras ocasiões.
Foi, porém, cuidado perdido. Em vez do programa previsto na imprensa com base em informação prestada pela RTP, surgiu uma reportagem francesa, datada dos anos 80, sobre o México do século XX desde a revolta liderada por Pancho Villa até anos muito mais recentes. Perante a inesperada substituição, o meu movimento inicial, como decerto o de muita outra gente, foi de mau-humor: mais uma vez a RTP vinha demonstrar pela prática o seu entendimento de que não tem de ter um respeito mínimo pelo seu público. Como se os telespectadores, isto é, os cidadãos, fossem literalmente dela e não sucedesse na verdade exactamente o contrário, pois ela é que é dos cidadãos embora pareça não se lembrar disso. Porém, logo depois de ter encarado com os primeiros minutos do programa, comecei a desconfiar de que talvez não tivesse perdido nada com a troca, até pelo contrário, porque os eurodeputados hão-de voltar um dia destes, ao passo que para assistir àquela reportagem talvez fosse preciso ter sorte e muitos anos de vida. Simultaneamente, comecei a perceber que iria sair daquele visionamento reforçado naquilo a que os especialistas na peculiar disciplina que é a defesa dos Estados Unidos chamam «anti-americanismo primário». E que, se do visionamento devesse sair crónica ou registo público/publicado, ficaria exposto a mais uns gramas de desprezo activo por parte dos que de facto professam, embora não o assumam, que só os States são desde sempre perfeitos e George W. o seu actual profeta.
O crime e os seus mandantes
Como disse atrás, a reportagem falava do México do século XX. Mas não apenas falava dele, também o explicava. Descrevia a situação de opressão terrível em que no princípio daquele século, isto é, ontem, viviam os mexicanos em geral e em populações índias de radicação campesina em especial. De como a insurreição de Pancho Villa foi um violento sacudir de grilhetas que as múltiplas infâmias praticadas por conta e ordem das minorias possidentes haviam tornado legítima e inevitável. Como foi vencedora e como foi traída, e pela traição vencida, nisso até se assemelhando um pouco a outras revoluções ocorridas noutros lugares do mundo e que em consequência da retoma dos poderes pelos opressores de sempre entraram em fase de resistência não espectacular, de forçado recuo que não é derrota, como gostam de supor os opressores restabelecidos no mando, porque, como a História abundantemente ensina, não há derrota definitiva para os povos que lutam pela supressão de sociedades injustas, pela erradicação de tiranias «musculadas» ou «persuasivas», sendo bem menor do que pode parecer a distância entre umas e outras.
A reportagem francesa denunciava com clareza total o carácter criminoso de uma suposta elite mexicana que mantinha e mantém os seus faustos com as mãos encharcadas de sangue e pus. Mas iam mais longe os franceses: atravessavam a fronteira e desmascaravam a intervenção dos Estados Unidos para defesa dos seus interesses de facto colonialistas mediante o indisfarçado apoio aos mais odiosos «senhores» do México, afinal meros fantoches ao serviço dos norte-americanos, quando não se deram ao luxo de intervenção militar directa. E isto não apenas no tempo de Pancho Villa como também hoje mesmo. Por mim falo, e não apenas por mim, seguramente: a gente vê aquilo, confronta-se com aquelas imagens em que o horror surge de vários modos e assume expressões diversas, e é tomada por uma grande repugnância pelo mito ainda subsistente, ainda muito apregoado, de uns Estados Unidos democráticos e paladinos de direitos humanos. Não é ódio, que o caso talvez nem mereça tanto, é nojo. Não é (apenas) indignação: é náusea à beira do vómito. Valer-nos-á saber que, embora nem sempre o pareça porque escassamente referida, há uma outra face dos Estados Unidos, e não estou a falar da imagem maquilhada que é espalhada pelo mundo graças à colonização mediática. Estou a falar das sementes do que serão os Estados Unidos num mundo futuro. Se então ainda houver mundo. Quer dizer, se os actuais Estados Unidos não tiverem inviabilizado qualquer futuro.
Foi, porém, cuidado perdido. Em vez do programa previsto na imprensa com base em informação prestada pela RTP, surgiu uma reportagem francesa, datada dos anos 80, sobre o México do século XX desde a revolta liderada por Pancho Villa até anos muito mais recentes. Perante a inesperada substituição, o meu movimento inicial, como decerto o de muita outra gente, foi de mau-humor: mais uma vez a RTP vinha demonstrar pela prática o seu entendimento de que não tem de ter um respeito mínimo pelo seu público. Como se os telespectadores, isto é, os cidadãos, fossem literalmente dela e não sucedesse na verdade exactamente o contrário, pois ela é que é dos cidadãos embora pareça não se lembrar disso. Porém, logo depois de ter encarado com os primeiros minutos do programa, comecei a desconfiar de que talvez não tivesse perdido nada com a troca, até pelo contrário, porque os eurodeputados hão-de voltar um dia destes, ao passo que para assistir àquela reportagem talvez fosse preciso ter sorte e muitos anos de vida. Simultaneamente, comecei a perceber que iria sair daquele visionamento reforçado naquilo a que os especialistas na peculiar disciplina que é a defesa dos Estados Unidos chamam «anti-americanismo primário». E que, se do visionamento devesse sair crónica ou registo público/publicado, ficaria exposto a mais uns gramas de desprezo activo por parte dos que de facto professam, embora não o assumam, que só os States são desde sempre perfeitos e George W. o seu actual profeta.
O crime e os seus mandantes
Como disse atrás, a reportagem falava do México do século XX. Mas não apenas falava dele, também o explicava. Descrevia a situação de opressão terrível em que no princípio daquele século, isto é, ontem, viviam os mexicanos em geral e em populações índias de radicação campesina em especial. De como a insurreição de Pancho Villa foi um violento sacudir de grilhetas que as múltiplas infâmias praticadas por conta e ordem das minorias possidentes haviam tornado legítima e inevitável. Como foi vencedora e como foi traída, e pela traição vencida, nisso até se assemelhando um pouco a outras revoluções ocorridas noutros lugares do mundo e que em consequência da retoma dos poderes pelos opressores de sempre entraram em fase de resistência não espectacular, de forçado recuo que não é derrota, como gostam de supor os opressores restabelecidos no mando, porque, como a História abundantemente ensina, não há derrota definitiva para os povos que lutam pela supressão de sociedades injustas, pela erradicação de tiranias «musculadas» ou «persuasivas», sendo bem menor do que pode parecer a distância entre umas e outras.
A reportagem francesa denunciava com clareza total o carácter criminoso de uma suposta elite mexicana que mantinha e mantém os seus faustos com as mãos encharcadas de sangue e pus. Mas iam mais longe os franceses: atravessavam a fronteira e desmascaravam a intervenção dos Estados Unidos para defesa dos seus interesses de facto colonialistas mediante o indisfarçado apoio aos mais odiosos «senhores» do México, afinal meros fantoches ao serviço dos norte-americanos, quando não se deram ao luxo de intervenção militar directa. E isto não apenas no tempo de Pancho Villa como também hoje mesmo. Por mim falo, e não apenas por mim, seguramente: a gente vê aquilo, confronta-se com aquelas imagens em que o horror surge de vários modos e assume expressões diversas, e é tomada por uma grande repugnância pelo mito ainda subsistente, ainda muito apregoado, de uns Estados Unidos democráticos e paladinos de direitos humanos. Não é ódio, que o caso talvez nem mereça tanto, é nojo. Não é (apenas) indignação: é náusea à beira do vómito. Valer-nos-á saber que, embora nem sempre o pareça porque escassamente referida, há uma outra face dos Estados Unidos, e não estou a falar da imagem maquilhada que é espalhada pelo mundo graças à colonização mediática. Estou a falar das sementes do que serão os Estados Unidos num mundo futuro. Se então ainda houver mundo. Quer dizer, se os actuais Estados Unidos não tiverem inviabilizado qualquer futuro.