Ano Novo em Paris
Julieta e Zé Fernandes
Charneca-Cascais
Queridos amigos:
Hoje, na estrada, lembrei-me de vocês. Carros com matrículas de França, Luxemburgo, Suiça com dezenas de embrulhos a ocuparem qualquer espaço livre. Caras cansadas de tantos quilómetros de viagem, só para cumprir aquela do «Sou capaz de ir aí pelo Natal...»
Há muitos anos vocês os dois, com passaporte de turista, foram a Santa Apolónia, meteram-se no Sud-Expresso e saíram em Paris - Austerlitz. Não iam como turistas, iam à procura de uma vida melhor, sabendo que o fascismo não vos deixaria voltar. Não porque fossem perigosos comunistas ou estivessem a fugir da guerra colonial, mas porque emigrar legalmente era quase impossível e por isso centenas de milhares de portugueses saíram a salto. O fascismo não era só criminoso, era também estúpido.
Em 1975, no fim do ano, já com a liberdade estreada, decidimos (a Luz, a Lui, o Lula e eu) que vos íamos visitar a Paris. Lá nos metemos num Fiat 127, depois do Natal, por estradas estreitas e esperanças largas. Chegámos. A vossa casa realmente era um cochicho por cima da garagem do palacete da ricalhaça para quem vocês trabalhavam. Mas estava no bairro mais fino de Paris, o 16, e a dona tinha o óptimo hábito de se meter nos copos, coisa muito interessante para nós, já que nos permitia ir provando vinhos de diversas regiões a um preço bastante conveniente: zero francos.
Ali dormíamos, ali comíamos e, principalmente, ali cozinhava a Julieta. E que bem cozinhava. Através dela descobrimos sabores que hoje, quando vejo aqueles pratos em pretenciosos restaurantes de Lisboa, sei claramente o que é fazer as coisas com saber e amor e o que é querer ganhar dinheiro à custa da ignorância e do bacoquismo nacional.
A Julieta tinha aprendido naqueles anos de exílio, os pratos mais conhecidos da cozinha clássica e tradicional francesa. Comíamos quase sempre em casa. Dividíamos as funções: a Julieta fazia tudo e nós comíamos. Não será muito correcto, mas não quero estar aqui a dizer mentiras ou meias verdades.
Tudo o que é bom...
Numa mesa minúscula à volta da qual não cabiam seis cadeiras (entre outras razões porque a casa não tinha seis cadeiras) lá nos arranjávamos para comer os «civet de lièvre», lebre guisada com o próprio sangue e vinho tinto, os «canard aux navets», pato inteiro, primeiro passado por cognac com o lume muito alto e depois estufado lentamente com muitos nabos. Este prato conjuga a gordura excessiva do pato como o amargo dos nabos. Quando a Julieta o faz, desaparece qualquer sinal de amargura que possa existir na pessoa e aparece uma estranha e bela sensação de bem-estar.
Também nos ocupávamos de análises em profundidade no caso das «pintades aux raisins», ou seja, pintadas (também conhecidas por fracas ou galinhas da Guiné) estufadas com toucinho, passas de uva, chalotas, ervas frescas e um bom copo de vinho da patroa, perdão, de Borgonha. Normalmente a pintada faz-se com castanhas, mas decidimos aprovar as liberdades criativas da nossa amiga.
Certo dia aparece na mesa uma espécie de tarte, alta, dourada e quente. Na nossa ignorância pensamos que só ia haver doces para comer. Nada disso, tratava-se de uma bela «quiche lorraine», receita originaria da cozinha pobre da Lorena, região fronteiriça com a Alemanha e portanto bastante calórica. Leva farinha, ovos, toucinho entremeado salgado, manteiga, natas e tudo o necessário para combater o frio e aumentar o colesterol e os triglicéridos, a quem não for trabalhar a seguir para consumir tanta caloria. A verdadeira quiche não tem nada que ver com as que as tias da Lapa e do Estoril fazem e vendem porque é «imensamente prático e óptimo, pronto, sei lá!»
Tudo isto tinha todo o ar de estar muito perto do pecado porque, como se sabe, tudo o que é bom ou é pecado ou faz mal ao fígado. E os nossos fígados estavam bem, obrigado.
Depois atacávamos nos queijos: Pont l`Evèque, Tomme de Savoie, Camembert, Blue d`Auvergne, Livarot, Crotin de Chavignol, Brie de Meaux, Brie de Melun e uns quantos mais que não quero citar para não provocar invejas e criar inimigos. Eu sou duma família que sempre fez e comeu queijo mas foi em vossa casa que aprendi quanta alegria pode dar a transformação biológica duma coisa tão comum: o leite.
Conta-se que um político francês (o De Gaulle, parece-me), quando atacado pelos cidadãos pelo seu mau governo, se defendeu dizendo «como é que é possível governar bem um país que tem mais de trezentas variedades de queijo?». Resposta típica do político burguês que, não tendo solucões, inventa frases que, depois, todos citam. Até eu.
Saudades da terra
Claro que estes festivais da vossa casa-garagem, embora bem regados com grande variedade de bons vinhos, não matavam as saudades da terra, apesar de nessa altura as fronteiras já estarem abertas. Por isso um dia o Lula não aguentou mais e disparou: «Mas então cá na França não há batatas?» Devidamente informado pediu, ou melhor dito exigiu, uma grande tachada de batatas cozidas, com bacalhau, a ser possível.
Quando se está longe da terra, a memória destes sabores como estes ganham uma enorme força na explosão dos sentimentos. Bacalhau cozido com batatas, temperado com azeite, tem mais força para unir um emigrante a Portugal que todos os heróis do mar, nobre povo, e etc. incluindo os egrégios avós. Se não fosse este problemazinho do défice orçamental, apresentava um pedido de subsídio ao «Ministério da Saudade, Fado e Emigração» para estudar o assunto.
E chegou o dia 31 e a passagem do ano. Vocês disseram que tínhamos que ir para os Campos Elíseos, para a rua, que era onde se ia em Paris. E lá fomos. Nestes casos nunca se sabe bem se vamos ver o espectáculo ou se nós somos o espectáculo. Realmente só havia muita gente de muitas cores, como olhos e caras muito diferentes, muitos com ar de serem portugueses e, nós também lá estávamos, garrafa de champanhe na mão à espera da meia-noite.
Foi nesse momento que umas centenas de pessoas começaram a descer a avenida, numa estranha manisfestação não sabemos a favor ou contra o quê. O mais extraordinário era que o faziam recuando e em silêncio. Sim, sim, a andar para trás. Não sabíamos o que era aquilo, o que não nos impediu de aplaudir com entusiasmo. Afinal Paris sempre era diferente. O nosso amigo Lula estava entusiasmado e, naquela liberdade linguística dos naturais de Chaves que se caracteriza pelo facto de, numa frase de dez palavras, nove serem asneiras, o Lula gritava o seu apoio à desconhecida causa da manifestação. Qual não foi o nosso espanto quando, cinco minutos depois, começou a aparecer a policia de choque lá do sitio, com escudos, máscaras e, claro, chanfalhos na mão, com evidentes intenções de desfazer à porrada a perigosa manif. Nós, que ainda nos lembrávamos do que era a polícia de choque, desatámos a assobiar, gritar e tudo o que nos pareceu. O Lula subiu para cima de um banco da avenida e desatou a referir-se às mães, às mulheres e à duvidosa masculinidade dos polícias, usando para o efeito as palavras mais fortes do dialecto insultativo flaviense. Fazia-o com convicção, propósito e manifesta satisfação e, ainda, com a certeza de que ninguém, além de nós, o podia entender. Uma senhora, que estava perto, não tirava os olhos do Lula. Olhava-o em silêncio mas com evidente satisfação. Ele não ligava. «Esta francesa está a gostar», comentou. A certa altura a senhora «francesa» não aguentou mais e, como os olhos brilhantes de alegria, disse-lhe «o senhor desculpe, mas também é de Chaves? Eu cá sou de Outeiro Seco». O mundo enorme do nosso amigo desfez-se. Afinal, os franceses que nunca o entenderiam eram de Outeiro Seco.
Acabámos todos abraçados, a beber pela garrafa. Era uma da manhã, do novo ano e aquilo era Paris, a maior cidade de Portugal.
Antes de vos mandar um abraço, quero perguntar, como se diria em Chaves: Ainda vos lembrais disto, amigos?
Charneca-Cascais
Queridos amigos:
Hoje, na estrada, lembrei-me de vocês. Carros com matrículas de França, Luxemburgo, Suiça com dezenas de embrulhos a ocuparem qualquer espaço livre. Caras cansadas de tantos quilómetros de viagem, só para cumprir aquela do «Sou capaz de ir aí pelo Natal...»
Há muitos anos vocês os dois, com passaporte de turista, foram a Santa Apolónia, meteram-se no Sud-Expresso e saíram em Paris - Austerlitz. Não iam como turistas, iam à procura de uma vida melhor, sabendo que o fascismo não vos deixaria voltar. Não porque fossem perigosos comunistas ou estivessem a fugir da guerra colonial, mas porque emigrar legalmente era quase impossível e por isso centenas de milhares de portugueses saíram a salto. O fascismo não era só criminoso, era também estúpido.
Em 1975, no fim do ano, já com a liberdade estreada, decidimos (a Luz, a Lui, o Lula e eu) que vos íamos visitar a Paris. Lá nos metemos num Fiat 127, depois do Natal, por estradas estreitas e esperanças largas. Chegámos. A vossa casa realmente era um cochicho por cima da garagem do palacete da ricalhaça para quem vocês trabalhavam. Mas estava no bairro mais fino de Paris, o 16, e a dona tinha o óptimo hábito de se meter nos copos, coisa muito interessante para nós, já que nos permitia ir provando vinhos de diversas regiões a um preço bastante conveniente: zero francos.
Ali dormíamos, ali comíamos e, principalmente, ali cozinhava a Julieta. E que bem cozinhava. Através dela descobrimos sabores que hoje, quando vejo aqueles pratos em pretenciosos restaurantes de Lisboa, sei claramente o que é fazer as coisas com saber e amor e o que é querer ganhar dinheiro à custa da ignorância e do bacoquismo nacional.
A Julieta tinha aprendido naqueles anos de exílio, os pratos mais conhecidos da cozinha clássica e tradicional francesa. Comíamos quase sempre em casa. Dividíamos as funções: a Julieta fazia tudo e nós comíamos. Não será muito correcto, mas não quero estar aqui a dizer mentiras ou meias verdades.
Tudo o que é bom...
Numa mesa minúscula à volta da qual não cabiam seis cadeiras (entre outras razões porque a casa não tinha seis cadeiras) lá nos arranjávamos para comer os «civet de lièvre», lebre guisada com o próprio sangue e vinho tinto, os «canard aux navets», pato inteiro, primeiro passado por cognac com o lume muito alto e depois estufado lentamente com muitos nabos. Este prato conjuga a gordura excessiva do pato como o amargo dos nabos. Quando a Julieta o faz, desaparece qualquer sinal de amargura que possa existir na pessoa e aparece uma estranha e bela sensação de bem-estar.
Também nos ocupávamos de análises em profundidade no caso das «pintades aux raisins», ou seja, pintadas (também conhecidas por fracas ou galinhas da Guiné) estufadas com toucinho, passas de uva, chalotas, ervas frescas e um bom copo de vinho da patroa, perdão, de Borgonha. Normalmente a pintada faz-se com castanhas, mas decidimos aprovar as liberdades criativas da nossa amiga.
Certo dia aparece na mesa uma espécie de tarte, alta, dourada e quente. Na nossa ignorância pensamos que só ia haver doces para comer. Nada disso, tratava-se de uma bela «quiche lorraine», receita originaria da cozinha pobre da Lorena, região fronteiriça com a Alemanha e portanto bastante calórica. Leva farinha, ovos, toucinho entremeado salgado, manteiga, natas e tudo o necessário para combater o frio e aumentar o colesterol e os triglicéridos, a quem não for trabalhar a seguir para consumir tanta caloria. A verdadeira quiche não tem nada que ver com as que as tias da Lapa e do Estoril fazem e vendem porque é «imensamente prático e óptimo, pronto, sei lá!»
Tudo isto tinha todo o ar de estar muito perto do pecado porque, como se sabe, tudo o que é bom ou é pecado ou faz mal ao fígado. E os nossos fígados estavam bem, obrigado.
Depois atacávamos nos queijos: Pont l`Evèque, Tomme de Savoie, Camembert, Blue d`Auvergne, Livarot, Crotin de Chavignol, Brie de Meaux, Brie de Melun e uns quantos mais que não quero citar para não provocar invejas e criar inimigos. Eu sou duma família que sempre fez e comeu queijo mas foi em vossa casa que aprendi quanta alegria pode dar a transformação biológica duma coisa tão comum: o leite.
Conta-se que um político francês (o De Gaulle, parece-me), quando atacado pelos cidadãos pelo seu mau governo, se defendeu dizendo «como é que é possível governar bem um país que tem mais de trezentas variedades de queijo?». Resposta típica do político burguês que, não tendo solucões, inventa frases que, depois, todos citam. Até eu.
Saudades da terra
Claro que estes festivais da vossa casa-garagem, embora bem regados com grande variedade de bons vinhos, não matavam as saudades da terra, apesar de nessa altura as fronteiras já estarem abertas. Por isso um dia o Lula não aguentou mais e disparou: «Mas então cá na França não há batatas?» Devidamente informado pediu, ou melhor dito exigiu, uma grande tachada de batatas cozidas, com bacalhau, a ser possível.
Quando se está longe da terra, a memória destes sabores como estes ganham uma enorme força na explosão dos sentimentos. Bacalhau cozido com batatas, temperado com azeite, tem mais força para unir um emigrante a Portugal que todos os heróis do mar, nobre povo, e etc. incluindo os egrégios avós. Se não fosse este problemazinho do défice orçamental, apresentava um pedido de subsídio ao «Ministério da Saudade, Fado e Emigração» para estudar o assunto.
E chegou o dia 31 e a passagem do ano. Vocês disseram que tínhamos que ir para os Campos Elíseos, para a rua, que era onde se ia em Paris. E lá fomos. Nestes casos nunca se sabe bem se vamos ver o espectáculo ou se nós somos o espectáculo. Realmente só havia muita gente de muitas cores, como olhos e caras muito diferentes, muitos com ar de serem portugueses e, nós também lá estávamos, garrafa de champanhe na mão à espera da meia-noite.
Foi nesse momento que umas centenas de pessoas começaram a descer a avenida, numa estranha manisfestação não sabemos a favor ou contra o quê. O mais extraordinário era que o faziam recuando e em silêncio. Sim, sim, a andar para trás. Não sabíamos o que era aquilo, o que não nos impediu de aplaudir com entusiasmo. Afinal Paris sempre era diferente. O nosso amigo Lula estava entusiasmado e, naquela liberdade linguística dos naturais de Chaves que se caracteriza pelo facto de, numa frase de dez palavras, nove serem asneiras, o Lula gritava o seu apoio à desconhecida causa da manifestação. Qual não foi o nosso espanto quando, cinco minutos depois, começou a aparecer a policia de choque lá do sitio, com escudos, máscaras e, claro, chanfalhos na mão, com evidentes intenções de desfazer à porrada a perigosa manif. Nós, que ainda nos lembrávamos do que era a polícia de choque, desatámos a assobiar, gritar e tudo o que nos pareceu. O Lula subiu para cima de um banco da avenida e desatou a referir-se às mães, às mulheres e à duvidosa masculinidade dos polícias, usando para o efeito as palavras mais fortes do dialecto insultativo flaviense. Fazia-o com convicção, propósito e manifesta satisfação e, ainda, com a certeza de que ninguém, além de nós, o podia entender. Uma senhora, que estava perto, não tirava os olhos do Lula. Olhava-o em silêncio mas com evidente satisfação. Ele não ligava. «Esta francesa está a gostar», comentou. A certa altura a senhora «francesa» não aguentou mais e, como os olhos brilhantes de alegria, disse-lhe «o senhor desculpe, mas também é de Chaves? Eu cá sou de Outeiro Seco». O mundo enorme do nosso amigo desfez-se. Afinal, os franceses que nunca o entenderiam eram de Outeiro Seco.
Acabámos todos abraçados, a beber pela garrafa. Era uma da manhã, do novo ano e aquilo era Paris, a maior cidade de Portugal.
Antes de vos mandar um abraço, quero perguntar, como se diria em Chaves: Ainda vos lembrais disto, amigos?