Interesses secretos em linguagem cifrada
Um dos grandes êxitos alcançados pelo neocapitalismo foi o de conseguir produzir um discurso abundante mas onde quase nada se diz. As siglas, os símbolos e as imagens ocultam sistematicamente os seus verdadeiros significados. Como sabemos, só a noção do lucro orienta o mundo financeiro. Por isso, os banqueiros encobrem-se com o discurso moral. Tal como as altas hierarquias das religiões organizadas se escondem por detrás da Ética. Os grandes interesses falam, portanto, uma linguagem cifrada.
Na sociedade portuguesa, a corrupção alastrou já a grande parte das instituições. Actos como privatizar, excluir ou rejeitar compromissos, mentir conscientemente ou faltar a obrigações, são práticas normais dos homens públicos. A desonestidade sistemática é admitida como estratégia global pelos estadistas, pelos clérigos, pelos financeiros e pelos políticos, fazendo depois escola nos restantes níveis da sociedade.
A hierarquia católica utiliza a arma estratégica como reconhecido atalho para a evangelização. Por exemplo, impávido e sereno, D. José Policarpo afirma que nada sabe sobre o negócio da Concordata ou sobre as contas de Fátima. Sem que lhe trema um músculo da face, o padre Melícias apela à caridade contra a miséria enquanto gere com êxito os milhões do Montepio Geral e da União das Misericórdias. A Igreja declara-se pobre mas planifica, promove e dirige negócios milionários. Um exemplo actual e disponível é o da anunciada compra do Banco Atlântico de Espanha pela Caixa Geral dos Depósitos, transacção ainda em curso mas que entrou já na sua fase final. As nossas fontes situam-se, como sempre, nos mananciais ocultos nos noticiários normais.
O negócio - A Caixa Geral dos Depósitos (instituto do Estado português) candidatou-se à compra do Banco Atlântico de Espanha. Calcula-se que o valor nominal da transacção oscile entre os 1500 milhões e os 2000 milhões de euros. Trata-se da aquisição das posições (68,5%) que um banco líbio - o Arab Banking Corporation (ABC) - detém no capital social do Atlântico espanhol. Os restantes 32,5% do actual capital deste banco pertencem ao Banco Bilbao y Vizcaia (24,4%) e à poderosa seguradora alemã Allianz (5,6%). Há, ainda, 2,5% do capital distribuído por centenas de pequenos accionistas.
Os candidatos - A CGD disputa a aquisição com cinco outros licitantes: o Barclays Bank inglês, o Unicrédito italiano, o grupo belga Fortis e os bancos espanhóis Sabadell e Caixa de Poupanças do Mediterrâneo. Todos estes grupos demonstram grande interesse na adjudicação. E há um factor que poderá concorrer para fazer baixar o montante exigido pelos vendedores. Em 1999, a Reserva Federal norte-americana repreendeu o Atlântico pelo seu envolvimento num caso de lavagem de dinheiro do «Cartel de Cli», uma das mafias bolivianas da droga. A repreensão não teve consequências penais mas pode, agora, contribuir para valorizar este negócio.
Os intermediários - O intermediário oficial de todos estes operadores é o Deutsche Bank alemão, entidade que centraliza as propostas de compra e as entrega, depois, aos critérios da administração do Arab Banking, a entidade vendedora. Os observadores financeiros fazem notar ser curioso que neste caso o intermediário tenha uma força económica muito superior à que - pelo menos aparentemente - possui o promotor do negócio. Por outro lado, não deixa de ser bizarro que as diferentes propostas ofereçam como ponto de referência principal uma instituição isolada do seu grupo financeiro: o Banco Siméon, no caso da CGD; nas outras propostas, o Banco Zaragoçano, a Beta Capital, a Generalitá de Catalunha, etc. O negócio é arriscado. A tal ponto, que a CGD só avançou com a proposta de compra quando o governo de Ferreira Leite, contra todo o sentido da sua política financeira de contenção garantiu à Caixa uma almofada de 400 milhões de euros. Dizem outros, à margem de tudo isto, lavrar uma guerra surda entre estratégias financeiras diferentes: uma autêntica guerra entre gerações.
Que tem tudo isto a ver com a igreja católica?
Talvez que seja possível encontrar-se uma pista. Ainda que o caminho a percorrer se torne difícil e exija paciência por parte do leitor. Merece a pena tentar-se a aventura.
Na sociedade portuguesa, a corrupção alastrou já a grande parte das instituições. Actos como privatizar, excluir ou rejeitar compromissos, mentir conscientemente ou faltar a obrigações, são práticas normais dos homens públicos. A desonestidade sistemática é admitida como estratégia global pelos estadistas, pelos clérigos, pelos financeiros e pelos políticos, fazendo depois escola nos restantes níveis da sociedade.
A hierarquia católica utiliza a arma estratégica como reconhecido atalho para a evangelização. Por exemplo, impávido e sereno, D. José Policarpo afirma que nada sabe sobre o negócio da Concordata ou sobre as contas de Fátima. Sem que lhe trema um músculo da face, o padre Melícias apela à caridade contra a miséria enquanto gere com êxito os milhões do Montepio Geral e da União das Misericórdias. A Igreja declara-se pobre mas planifica, promove e dirige negócios milionários. Um exemplo actual e disponível é o da anunciada compra do Banco Atlântico de Espanha pela Caixa Geral dos Depósitos, transacção ainda em curso mas que entrou já na sua fase final. As nossas fontes situam-se, como sempre, nos mananciais ocultos nos noticiários normais.
O negócio - A Caixa Geral dos Depósitos (instituto do Estado português) candidatou-se à compra do Banco Atlântico de Espanha. Calcula-se que o valor nominal da transacção oscile entre os 1500 milhões e os 2000 milhões de euros. Trata-se da aquisição das posições (68,5%) que um banco líbio - o Arab Banking Corporation (ABC) - detém no capital social do Atlântico espanhol. Os restantes 32,5% do actual capital deste banco pertencem ao Banco Bilbao y Vizcaia (24,4%) e à poderosa seguradora alemã Allianz (5,6%). Há, ainda, 2,5% do capital distribuído por centenas de pequenos accionistas.
Os candidatos - A CGD disputa a aquisição com cinco outros licitantes: o Barclays Bank inglês, o Unicrédito italiano, o grupo belga Fortis e os bancos espanhóis Sabadell e Caixa de Poupanças do Mediterrâneo. Todos estes grupos demonstram grande interesse na adjudicação. E há um factor que poderá concorrer para fazer baixar o montante exigido pelos vendedores. Em 1999, a Reserva Federal norte-americana repreendeu o Atlântico pelo seu envolvimento num caso de lavagem de dinheiro do «Cartel de Cli», uma das mafias bolivianas da droga. A repreensão não teve consequências penais mas pode, agora, contribuir para valorizar este negócio.
Os intermediários - O intermediário oficial de todos estes operadores é o Deutsche Bank alemão, entidade que centraliza as propostas de compra e as entrega, depois, aos critérios da administração do Arab Banking, a entidade vendedora. Os observadores financeiros fazem notar ser curioso que neste caso o intermediário tenha uma força económica muito superior à que - pelo menos aparentemente - possui o promotor do negócio. Por outro lado, não deixa de ser bizarro que as diferentes propostas ofereçam como ponto de referência principal uma instituição isolada do seu grupo financeiro: o Banco Siméon, no caso da CGD; nas outras propostas, o Banco Zaragoçano, a Beta Capital, a Generalitá de Catalunha, etc. O negócio é arriscado. A tal ponto, que a CGD só avançou com a proposta de compra quando o governo de Ferreira Leite, contra todo o sentido da sua política financeira de contenção garantiu à Caixa uma almofada de 400 milhões de euros. Dizem outros, à margem de tudo isto, lavrar uma guerra surda entre estratégias financeiras diferentes: uma autêntica guerra entre gerações.
Que tem tudo isto a ver com a igreja católica?
Talvez que seja possível encontrar-se uma pista. Ainda que o caminho a percorrer se torne difícil e exija paciência por parte do leitor. Merece a pena tentar-se a aventura.