Para um balanço da obra de Manuel Tiago-Álvaro Cunhal

Romancista da Resistência e da Revolução

Urbano Tavares Rodrigues
O escritor Manuel Tiago, inicialmente o misterioso autor de um grande romance realista e épico, Até Amanhã, Camaradas, e posteriormente de uma série de narrativas e contos que, com raras excepções, reflectem as lutas da resistência ao fascismo e a organização e vida interna do Partido Comunista Português, não pode, até pela abrangência dessa temática, dissociar-se da forte personalidade multifacetada de Álvaro Cunhal.
Efectivamente, o antigo secretário-geral do Partido Comunista revelou desde muito cedo e afirmou ao longo da sua vida vários talentos, que melhor se evidenciaram depois da Revolução do 25 de Abril: o de desenhador e mais tarde pintor, o de crítico de arte, o de ficcionista, vendo o seu valor reconhecido pela crítica e muito expressivamente por vários públicos, chegando mesmo dois dos seus livros a serem transpostos para filmes. Esta actividade artística de Álvaro Cunhal processou-se, no entanto, sempre de um modo complementar, à margem da sua vasta obra teórica e de análise política, polémica ou directamente de combate.
Pode dizer-se, sem exagero, que a sua irradiante inteligência, as suas profundas convicções comunistas e a sua apetência artística confluíram num momento singular, o dessa múltipla criação.
A vida, o pensamento e a obra de Álvaro Cunhal-Manuel Tiago são quase indissociáveis, a tal ponto se interpenetram, se misturam, se alimentam reciprocamente.
A obra literária, se é por um lado a expressão de um escritor que, como tal, anseia representar o mundo, sentimentos, ideias e sensações, formas, cores, actos e sonhos, torna-se por outro lado, como encenação e transformação do vivido (dos passos do autor pela existência), instrumento de luta pela liberdade e pela revolução, pela construção do socialismo. A existência de Álvaro Cunhal foi, desde o fim da adolescência, vivida dentro do Partido Comunista. Após o triunfo da democracia sobre o fascismo em 1974, teve ele ocasiões múltiplas de conhecer melhor o mundo exterior, não só o da sua maior afeição, o povo trabalhador, mas até inúmeras figuras proeminentes de outros partidos e forças sociais e personalidades estrangeiras de diversos quadrantes, o que sem dúvida enriquece a sua cosmovisão, mas pouco se reflecte na série de novelas ou pequenos romances que publica após «Até Amanhã, Camaradas».
E, todavia, cingindo-se em geral a um universo relativamente reduzido, a grande família dos comunistas, confrontada, na sua acção, com o mundo dos interesses, da exploração e da repressão ou com gente simples, por vezes alienada política e socialmente, mas susceptível de grandes rasgos generosos, como em «Cindo Dias, Cinco Noites», ele retira da sua paleta efeitos tão belos e universais como os que fazem dessa novela uma pequena obra-prima, em que o passador da fronteira e o jovem revolucionário se medem e quase se confrontam na sua diferença para se irmanaram no minuto final. E, em «A Casa de Eulália», consegue Manuel Tiago-Álvaro Cunhal, a partir do mesmo ângulo de visão partidária, objectivado, é certo, numa narrativa heterodiegética, alguns quadros inesquecíveis da guerra civil de Espanha, do heroísmo das milícias republicanas, da crueza da batalha do Guadarrama, dos desolados campos de Castela, cenário de combates desesperados e de sofrimento infinito em que ele próprio (autor) esteve, de olhos bem abertos para a tragédia e para o poder da vontade humana de conseguir a mudança.

A literatura é também a história de uma época

Se a literatura, entre muitas outras coisas, é também história de uma época, do pequeno acontecer que molda criaturas e vidas singulares integradas no sonho colectivo, será literatura da melhor a que Manuel Tiago nos dá em «A Casa de Eulália», desde o assalto dos republicanos ao quartel da Montanha ao princípio da derrocada em Madrid. As sua personagens experimentam pulsões avassaladoras, conhecem a fraternidade e o ódio, a clemência, o ciúme, o desejo e o amor.
No entanto, é na sua obra mais trabalhada e mais rica de cambiantes, mais densa e mais extensa, «Até Amanhã, Camaradas», que Manuel Tiago-Álvaro Cunhal atinge o seu melhor. Por vezes, pelos rápidos descritivos da natureza e dos espaços socializados, pela incisiva caracterização física e moral das personagens, por meio de pormenores muito marcantes, lembra-nos o André Malraux de «A Esperança», livro que toda a sua geração leu e discutiu. Mas só nisso. Não encontramos as discussões teóricas, que abundam no romance referido, mas assistimos à reorganização, crescimento e luta do Partido Comunista nos anos difíceis da guerra de 1939-45, do racionamento e da feroz perseguição aos adversários do regime e em especial aos comunistas.
«Até Amanhã, Camaradas» é um cosmorama da vida portuguesa desse período em pequenas cidades, vilas, campos e aldeias, não só um documento sobre os hábitos de alimentação, convívio, diversões e condições de trabalho como até sobre as reacções das populações ao pulsar do país, aos acontecimentos lá de fora, filtrados pelas várias censuras. Autêntico filme literário da construção de um exército de sombras, que são seres humanos, com suas fragilidades, peculiaridades de feitio, quebras de energia e teimosas reviravoltas, confrontos de visões sobre a acção adequada, a melhor táctica para cada momento. Uma crença quase absoluta no Partido, para lá das divergências, das disputas eventuais. O Partido é a personagem central desta epopeia de pequenos heróis, que nem se dão conta da grandeza dos seus gestos, da sua pertinência, nem desanimam com as dores, os cansaços de cada dia, a mulher que se separa do companheiro, porque esgotou a sua capacidade de resistência, o amigo que adoeceu ou foi preso, um calvário assumido com sorrisos e com uma força desmedida.
Os contactos entre os clandestinos e os militantes da legalidade, camponeses, operários ou pequenos comerciantes com quem os funcionários discutem de reuniões, imprensa, perspectivas de desenvolvimento, têm sempre naturalidade e imprevisto, um poder de observação que torna tudo vivo e interessante.
Aprende-se neste livro uma infinidade de coisas sobre o trabalho nas estradas e nas leiras mais pobres, nas obras, na minas e nas oficinas, nas fábricas. Um mapa de Portugal dos pobres surge assim aos nossos olhos, através do discurso do narrador omnisciente, mas também do ponto de vista do Ramos, do Vaz, do Manuel Rato, do Sagarra, da Joana, da Isabel, do Afonso, da Lisete, do Cesário, da Rosa, da Maria.
Tal como a firmeza, a coragem, a prudência, também aqui se nos deparam, neste microcosmo de falíveis seres humanos, a imprevidência, o desleixo e até a traição. É um círculo multifacetado de gente movida por um ideal comum, mas cumprindo por vezes diversamente idênticos percursos, uns sacrificando tudo, outros, mais raros, fazendo perigar a organização.
A bicicleta é não só um símbolo, mas o veículo discreto dos menos ricos, que passa despercebido e cumpre bem duras tarefas.

Um esplendor de coragem

Como exemplo dos contrastes, da rica diversidade de situações, destes obscuros heróis, que são homens e mulheres como os outros, que sacrificam todas as doçuras da existência, eis esta longa sequência de «Até Amanhã, Camaradas», que é um esplendor de coragem quotidiana:

Sentada na borda da cama, Rosa olha-o, séria e preocupada. Apesar do dia estar quente, Vaz queixa-se de frio e, incomodado pela luz e pelo ruído, fora deitar-se no quarto em penumbra. Por mais de uma vez o viu fechar os olhos e, quando julgava que ele ia finalmente adormecer, via-o abrir de novo num repente os olhos espantados, com uma expressão convulsionada e dolorosa, por vezes com um estremeção violento de todo o corpo, e perguntar: «Hã?» ou «O quê?», como se algum facto espantoso ou algum ruído infernal se tivesse passado ou ouvido naquele quarto silencioso. Rosa pousava-lhe então os dedos no rosto ou na testa húmida e fria.
- Que tens? Que sentes?
Vaz perdia logo aquela expressão de espanto e sofrimento e, fitando Rosa com o seu ar sereno habitual, respondia:
- É estranho. No próprio momento em que adormeço, parece-me ouvir um grande estrondo e cair desamparado.
- Vê se dormes, amigo. Estás esgotado, é o que é.
Antes que porém Vaz conseguisse adormecer, a cena repetiu-se várias vezes. Agora, quando retomava consciência depois de num sobressalto abrir os olhos espantados, fitava a companheira e sorria num sorriso meigo e melancólico, que era novo nele. «Vê este disparate» - parecia dizer esse sorriso, a pedir desculpa. O certo é que sofria.
Acordou ao entardecer, duma palidez de cera e encharcado em suor. Durante o jantar voltaram a falar do seu estado de saúde e Rosa insistiu em que devia repousar alguns dias ou pelo menos reduzir a actividade durante uns tempos até se restabelecer.
- É má altura para isso - replicou Vaz. - A greve abriu novas possibilidades ao nosso trabalho e temos que aproveitá-las.
- E se cais à cama? - perguntou Rosa. - Depois não fazes muito nem pouco e o Partido tem de passar sem ti.
Os olhos fixos e serenos de Vaz fitavam impassíveis a companheira, não se percebendo se agradecendo os cuidados, se censurando a incompreensão.
- Sei haver quem pense - disse numa voz calma e grave - que a saúde dos militantes se deve poupar com vistas ao futuro, com vistas aos grandes combates que nos esperam. Mas, se hoje todos assim pensassem, nunca chegaríamos a esses desejados grandes combates, porque, para chegar a eles, é condição indispensável a vitória nos combates mais pequenos que hoje se travam.
- Nem tanto ao mar nem tanto à terra - disse Rosa. - Que hoje é preciso um grande esforço ninguém contesta. Que se façam sacrifícios. Há porém lutas que exigem mais do que outras. O sacrifício completo da vida é o máximo sacrifício. A insurreição, e não os dias de hoje, é o grande momento para ele.
- Estás enganada - disse Vaz. - Esse não é o sacrifício máximo. Dar a vida numa só vez na insurreição exige menos espírito de sacrifício do que a luta apagada, demorada e paciente dos dias de hoje.
Ficaram uns momentos silenciosos.
- Dar a vida de uma só vez - acrescentou Vaz - é extremamente mais fácil do que dá-la aos poucos.
Embora insistisse junto do companheiro para que reduzisse a actividade ou descansasse uns tempos, Rosa estava no fundo de acordo com ele e era sempre com íntima alegria e orgulho que o via lançar-se ao trabalho em condições em que muitos outros recolheriam à cama.
«Sim, ele está a dar a vida aos poucos - pensava Rosa - e é necessário que ele e muitos outros tenham a coragem de assim a dar.»
Depois de conversarem, Vaz trabalhou à mesa algumas horas e, já na cama, como não tivessem sono, ficaram muito tempo acordados, de luz apagada e aberta a janela, por onde entrava uma lufada fresca e uma frouxa claridade. Lembrando-se da furgoneta escura, Vaz pensa que pode ser preso, estar em consequência muitos anos sem ver Rosa, possivelmente mesmo não a voltar a ver, e separarem-se assim, sem que tenha sido vencida no seu convívio aquela barreira levantada pelo acordo de não falarem no passado. Agora Rosa está a seu lado, calada e pensativa e (quem sabe?) talvez arrastada naqueles pensamentos e recordações que a afastem dele, talvez presa à presença misteriosa que Vaz desconhece.
- Rosa... - murmura Vaz.
Pensa acrescentar: «Porque não havemos de destruir aquele pouco que ainda nos separa? Porque havemos de permitir, não que o passado, mas que o desconhecimento dele se interponha entre nós e mantenha uma constante distância nas nossas vidas?» Qualquer coisa o impede porém de colocar assim as coisas e, se lhe perguntassem, não saberia dizer se essa qualquer coisa é o receio de que Rosa tenha dificuldades em falar do seu passado, ou o receio de que este passado venha interpor-se entre eles, ainda com mais força que o seu desconhecimento.
As palavras trocadas rodam noutras direcções na atmosfera tranquila e fresca do quarto em penumbra.
- Tem graça - disse Rosa em voz baixa, depois de estar alguns minutos prendendo o pulso de Vaz entre os dedos. - Bate devagar, devagar... e de vez em quando deixa de bater uma vez
.
A irradiação dos ideais

A alusão à insurreição popular neste segmento textual parece datar a escrita do romance no período de elaboração do importante livro de Álvaro Cunhal «Rumo à Vitória», que assinala um redobro de combatividade do Partido Comunista que vai chamar a si muitos jovens oposicionistas após os tumultos revolucionários que se seguem à Campanha do general Humberto Delgado.
Outro aspecto fascinante deste texto é a sombra, o segredo que paira sobre o casal, a alusão à parte da sua vida anterior que Rosa nunca confessou a Vaz, obstáculo, de certo modo, a uma total entrega e harmonia entre ambos. São um homem e uma mulher como tantos outros, mas vivendo uma situação excepcional e situando-se à altura dela. Com problemas comuns a muitas outras pessoas. O realismo sensível de Manuel Tiago-Álvaro Cunhal atinge neste texto uma perfeição comovedora.
Em «Até Amanhã, Camaradas» a babugem do quotidiano rima de repente com o perigo, a tranquilidade com a apreensão, o susto com a vitória. Uma vitória que tarda a nascer no rosado horizonte de manhãs ásperas que nunca são iguais. Mas que triunfa no coração dos militantes em continuada esperança, à flor das dificuldades que, como ondas, se sucedem e podem chamar-se denúncia, cadeia, tortura, morte violenta. É um breviário maravilhoso de modestos sucessos, de persistentes combates de David contra Golias e dos homens consigo mesmos. Uma educação militante de passageiros heróis com pseudónimo, montados nas suas bicicletas, percorrendo a estrada da libertação.
Bem diferente é o curto romance «A Estrela de Seis Pontas», com uma estrutura quase documental, de retratos em série, que nos transporta a uma cadeia (a Penitenciária) de reclusos de direito comum, onde um prisioneiro político vai descobrir em cada um deles, que parecem, ao primeiro contacto autênticos monstros, seres de carne e osso, com emoções e afectos semelhantes aos de qualquer homem.
Estes assassinos, carteiristas, burlões, criminosos de toda a espécie, que vão pouco a pouco aprendendo a estimar aquele indivíduo diferente que com eles convive, aparecem-nos, em colorido mosaico, como vítimas que também são, pelo menos muitos deles, das condições de vida e das profundas desigualdades de uma sociedade injusta e cruel. Esse é um dos méritos deste livro original e inesquecível.
Um «Risco na Areia» assinala um momento particular de grande sensibilidade do autor aos problemas da juventude, que aliás tem sempre lugar cativo e de eleição nas criações de Manuel Tiago-Álvaro Cunhal.
A transposição para o cinema de «Cinco Dias, Cinco Noites», no intenso e plástico filme de José Fonseca e Costa, pôs em evidência para um público muito vasto o poder de síntese, o pudor da emoção, a força dos sentimentos contidos, a irradiação dos ideais na obra de Manuel Tiago-Álvaro Cunhal.
Não posso terminar este avaliação e análise dos romances deste importante escritor, que o é, na extrema sobriedade da sua linguagem, no centramento da sua temática à volta da vivência militante, na gesta épica e na pequena história do seu, nosso Partido sem aqui dizermos a Álvaro Cunhal, num grande abraço colectivo, o nosso profundo afecto e a nossa gratidão por uma obra e uma vida inteira dedicadas tão naturalmente à causa da Revolução e ao povo português, especialmente àqueles a quem a sociedade privou de bens, de direitos e até de sonhos, do seu quinhão de felicidade.
Obrigado, Álvaro Cunhal.


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