Os povos do Iraque, do Afeganistão
Nos EUA, a propaganda e a contra-informação estão funcionando mal. Por vezes, o esforço para enganar a opinião pública produz efeitos contraproducentes. A tentativa para transformar a soldada Jessica Lynch numa heroína nacional - é um exemplo - fracassou. No livro em que ela descreve a sua «odisseia» - escrito por um jornalista - afirma ter sido violada. Mas no lançamento, a jovem declarou não ter disparado um só tiro e não se lembrar de nada, porque estava desmaiada. Os médicos iraquianos que lhe salvaram a vida após o ataque que destruiu o veículo em que viajava definiram já o livro como um novela caluniosa.
A indigência mental de George Bush filho aparece mais nítida nestas semanas. O presidente sente-se no dever de intervir mais. Mas as suas falas, pouco inteligentes, comprometem em vez de ajudar.
Relatos sobre a conferência de imprensa do início de Novembro transmitem o panorama de um desastre mediático. Bush tentou persuadir os jornalistas de que as coisas vão cada vez melhor no Iraque, cujo povo, apesar de alguns contratempos, começaria a compreender os benefícios da solidariedade dos EUA, que o libertaram e se esforçam para lhe abrir as portas da democracia, do bem-estar e da felicidade.
Falou do avanço da reconstrução do país no momento em que bombas e mísseis americanos, em operações de vindicta, voltam a explodir em cidades iraquianas. Na sua fraseologia peculiar, qualificou de mensageiros da democracia e da liberdade os soldados dos EUA que disparam sobre as populações, e chamou patriotas aos traidores e mercenários que colaboram com o exército de ocupação. Simultaneamente definiu como perigosos terroristas, criminosos e bandoleiros os combatentes iraquianos que executam acções de Resistência. (1)
Insistiu enfaticamente que o seu objectivo prioritário é «democratizar todo o Médio Oriente».
Um jornalista sintetizou a impressão que lhe causou a entrevista presidencial numa frase breve: «foi uma arenga labiríntica, com montagem kafkiana, sem o talento do mestre checo».
Al Gore, que acompanhou aquilo pela televisão, emitiu um juízo mais severo. Na sua opinião, Bush está a conseguir o que parecia impossível: a política que desenvolve e defende - afirmou - tem um estilo fascista mais acentuado que a do Big Brother do romance 1984, de George Orwell.
Na sua enciclopédica ignorância, Bush filho desconhece que os resistentes iraquianos árabes que nas margens do Tigre e do Eufrates se opõem à cruzada de barbárie norte-americana têm como ancestrais povos criadores de grandes civilizações, que há mais de três mil anos se bateram junto às muralhas de Nimrod e Babilónia, de Susa e Elam, de Ctesifon e Seleucia. Descendem de muitos povos que resistiram a gregos, romanos, bizantinos, sassanidas, mongóis, turcos e ingleses. Pelos grandes rios da Mesopotâmia navegaram Hamurabi, Assurbanipal, Nabucodonosor, Dario, Alexandre, Crassus,Trajano, Cosroes, Hulagu Khan, sultões otomanos e califas abássidas. Procônsules britânicos precederam ali o procônsul de Bush filhote.
Os resistentes que não aceitam a ocupação norte-americana e contra ela se levantam representam o povo de cultura árabe que resultou da fusão de muitos povos que deixaram marcas profundas na terra milenária da Mesopotâmia. Quem encarna ali a barbárie - nunca é excessivo repetir essa evidência - são os generais e soldados da US Army e da US Air Force e os seus aliados britânicos.
O grande desafio
O exibicionismo de Bush e o seu discurso cavernícola chamam a atenção, mas não se deve esquecer que a capacidade de intervenção real do presidente é escassa, pois não passa de instrumento e símbolo do sistema de poder neofascista, responsável pela estratégia de dominação planetária dos EUA.
Como combater essa estratégia é hoje o grande desafio que a humanidade enfrenta.
Em diferentes Conferências e Seminários internacionais tenho reflectido sobre a questão. No âmbito deste artigo pretendo apenas alertar os leitores para alguns aspectos práticos e actuais dessa luta.
Em primeiro lugar parece-me negativa a conclusão de que, no terreno da praxis não se pode fazer quase nada enquanto as forças progressistas que repudiam a globalização neoliberal e as políticas imperiais que a sustentam não elaborarem uma alternativa credível, e tanto quanto possível consensual, ao sistema existente.
Tal atitude conduz ao imobilismo e concentra a luta em debates teóricos travados sobretudo no Fórum Social Mundial e em múltiplos Fóruns e Conferências, que, em escala continental e nacional, manifestam a esperança sintetizada no lema «outro mundo é possível».
É um facto que sem teoria não há mudança social, e que nos últimos anos a reflexão sobre a crise de civilização se aprofundou muito. Trabalhos muito criativos de intelectuais marxistas como o húngaro István Mészaros, o francês George Gastaud e o egípcio Samir Amin - apenas três exemplos - representam valiosas contribuições para a compreensão da crise estrutural do capitalismo, da extrema agressividade do imperialismo norte-americano e de acontecimentos contemporâneos que são consequência de ambas.
Trabalhos como esses não devem ser confundidos com o discurso de destacadas personalidades segundo as quais, por si só, a dinâmica dos movimentos sociais poderá, gradualmente, conduzir à superação do monstruoso sistema de exploração dominante.
Os movimentos sociais desempenharam um papel de extraordinária importância no despertar das consciências. E é indispensável que continuem a cumprir essa tarefa. O significado da sua intervenção, a importância da sua capacidade mobilizadora são tão decisivos, que forças que afirmam estar empenhadas em travar a revolta dos povos contra o sistema de dominação imperial se esforçam por conter o ímpeto da avalancha desencadeada e desviá-la para novos e inofensivos rumos. A tentativa de instrumentalização dos movimentos - cada vez mais ostensiva no discurso humanista e cativante de muitas ONG de tendência social-democrata e de um amplo leque de forças ideologicamente díspares - arranca do pressuposto de que o capitalismo, sendo invencível pelo seu poder, não pode ser derrotado e que não se autodestruirá. A única opção lúcida seria portanto lutar pela sua reforma. Paralelamente, a teorização desenvolvida por intelectuais com máscara marxista, mas de pendor neoanarquista, como Toni Negri e John Holloway, funciona na prática como complemento da anterior, favorecendo-a e gerando grande confusão entre a juventude e nos meios académicos.
É, entretanto, falso o pressuposto dessas campanhas, que dividem os movimentos e têm muitas vezes por tempero uma propaganda anticomunista que apresenta o socialismo como utopia. O capitalismo não é, pelos objectivos e essência, humanizável.
Diferem muito as tácticas utilizadas no esforço para neutralizar e instrumentalizar os movimentos sociais. Uma delas é a que subalterniza a luta contra o imperialismo e recorre a processos não éticos para desacreditar a solidariedade a Cuba, aos Sem Terra brasileiros, às organizações guerrilheiras colombianas, à Intifada palestiniana. Apresentar a situação criada no Iraque e no Afeganistão como um tema não prioritário nos grandes debates sobre o futuro é, com raras excepções, um denominador comum no discurso dos reformadores do capitalismo.
Simulam esquecer que o futuro se constrói no presente e mergulha as raízes no passado.
Ora o Iraque e o Afeganistão são precisamente neste final do ano 2003 os dois cenários onde a resistência à escalada de militarização do planeta está a exigir uma mobilização permanente das solidariedade dos povos em escala mundial.
O desespero e a desorientação em Washington são inocultáveis. As forças de ocupação norte-americanas e britânicas estão atoladas numa guerra não prevista. Ao responder à revolta das populações com a violência irracional, o comando militar agrava a situação de caos criada no país. Bush, primário como sempre, defende agora «a iraquização do conflito», mediante a transferência da responsabilidade pela «segurança» para um exército nativo de colaboracionistas. Esqueceu já o que aconteceu no Vietname.
Crise económica e financeira nos EUA
É também evidente que a crise económica e financeira nos EUA se aprofunda. As falências de gigantes transnacionais como a Enro, a Anderson, a World Com e tantas outras, o aumento do desemprego, o alastramento da pobreza, a desvalorização do dólar, os gigantescos défices fiscal e comercial reflectem uma crise estrutural de extrema complexidade. Durante anos esses défices eram financiados pelo afluxo de capitais estrangeiros. Mas esse dinheiro não chega mais.
O défice da balança de transações correntes deverá este ano superar os 400 mil milhões de dólares. O volume do investimento estrangeiro directo caiu nos EUA de 300 mil milhões de dólares em 2000 para 124,4 mil milhões em 2001, e para apenas 30 mil milhões no ano passado, quantia muito inferior à que a China atraiu - a China que em 2002 apresentou um saldo positivo de 103 mil milhões de dólares no seu comércio bilateral com os EUA. Agora ninguém está interessado também em comprar os Títulos do Tesouro da pátria do dólar.
A maior dívida externa do mundo, quase 7 milhões de milhões de dólares (mais de 60% do PIB), começa a assustar o governo e o Federal Reserve. Até muito recentemente o afluxo torrencial do capital estrangeiro, europeu e japonês, era um factor de tranquilidade para as autoridades monetárias. Mas essa fonte secou.
O mito da Nova Economia, concebida para durar séculos, foi desacreditado pelos factos. A crise tornou-se estrutural, porque a lei da acumulação, base do sistema, não funciona como antes.
As guerras preventivas, o saque dos riquezas de países agredidos ou tratados como semi-colónias, e a dinamização do complexo industrial militar são respostas a uma crise estrutural que não pode ser superada mediante a aplicação dos remédios tradicionais em períodos de recessão.
Os acontecimentos da Ásia - Palestina incluída - confirmam que essa estratégia, que configura - como tenho repetido - um assalto à razão, está a arrastar os EUA para um desfecho de catástrofe. Nos terrenos político, militar e económico.
A maré está a subir
É neste contexto que a solidariedade à luta dos povos do Iraque, do Afeganistão (e da Palestina, onde o sionismo funciona como braço armado do imperialismo) se impõe como exigência à humanidade democrática, a mulheres e homens de correntes de pensamento muito diferenciadas, mas que identificam no sistema de poder que tem o seu pólo nos EUA uma ameaça global a própria continuidade da vida.
Tal solidariedade, entretanto, para ser funcional, terá de se expressar de maneira firme, numa disponibilidade permanente para a luta sem complexos, nem temores.
Essa atitude de serenidade e lucidez tem sido dificultada, por vezes com êxito, pela propaganda inimiga. O discurso montado em torno do terrorismo continua a confundir milhões de pessoas. A passagem da consciência dos crimes cometidos no Iraque e no Afeganistão a uma postura de protesto organizado contra a ocupação, de denúncia da farsa da «reconstrução» e da «democratização» tem sido neutralizada e mesmo travada em muitos países, a nível individual e colectivo, pelo temor de que tais gestos sejam interpretado como uma forma de cumplicidade indirecta com Saddam, Osama e os talibãs, como traduzindo indiferença perante os crimes dessa gente.
Tais complexos são paralisantes, funcionam em benefício dos responsáveis das chacinas em curso do Médio Oriente.
Como afirma Chomsky, com coragem, o chefe do terrorismo de Estado no mundo é hoje Bush.
Quem empunha as bandeiras da liberdade são os resistentes do Iraque, do Afeganistão, da Palestina. Como vanguarda dos seus povos lavam vergonhas da humanidade, emergem como heróis colectivos.
As notícias que chegam diariamente de Bagdad e Cabul dissipam dúvidas: a maré da luta está a subir.
Depende muito da solidariedade internacional que ela não baixe. O que foi possível em Fevereiro e Março, quando dezenas de milhões saíram às ruas condenando a guerra, está novamente ao nosso alcance. A intervenção dos povos, como sujeito da História, é a mais eficaz das armas no combate em desenvolvimento contra a barbárie imperialista.
(1) Os mesmos jornais que em Nova Iorque e Washington enalteciam, durante a II Guerra Mundial, como heróicas e patrióticas as acções da Resistência francesa e dos partisans italianos contra as forças de ocupação da Wehrmacht alemã, qualificam agora de terroristas e criminosas iniciativas similares que no Iraque e no Afeganistão visam o exército do EUA.
Havana, 16 de Novembro de 2003
Relatos sobre a conferência de imprensa do início de Novembro transmitem o panorama de um desastre mediático. Bush tentou persuadir os jornalistas de que as coisas vão cada vez melhor no Iraque, cujo povo, apesar de alguns contratempos, começaria a compreender os benefícios da solidariedade dos EUA, que o libertaram e se esforçam para lhe abrir as portas da democracia, do bem-estar e da felicidade.
Falou do avanço da reconstrução do país no momento em que bombas e mísseis americanos, em operações de vindicta, voltam a explodir em cidades iraquianas. Na sua fraseologia peculiar, qualificou de mensageiros da democracia e da liberdade os soldados dos EUA que disparam sobre as populações, e chamou patriotas aos traidores e mercenários que colaboram com o exército de ocupação. Simultaneamente definiu como perigosos terroristas, criminosos e bandoleiros os combatentes iraquianos que executam acções de Resistência. (1)
Insistiu enfaticamente que o seu objectivo prioritário é «democratizar todo o Médio Oriente».
Um jornalista sintetizou a impressão que lhe causou a entrevista presidencial numa frase breve: «foi uma arenga labiríntica, com montagem kafkiana, sem o talento do mestre checo».
Al Gore, que acompanhou aquilo pela televisão, emitiu um juízo mais severo. Na sua opinião, Bush está a conseguir o que parecia impossível: a política que desenvolve e defende - afirmou - tem um estilo fascista mais acentuado que a do Big Brother do romance 1984, de George Orwell.
Na sua enciclopédica ignorância, Bush filho desconhece que os resistentes iraquianos árabes que nas margens do Tigre e do Eufrates se opõem à cruzada de barbárie norte-americana têm como ancestrais povos criadores de grandes civilizações, que há mais de três mil anos se bateram junto às muralhas de Nimrod e Babilónia, de Susa e Elam, de Ctesifon e Seleucia. Descendem de muitos povos que resistiram a gregos, romanos, bizantinos, sassanidas, mongóis, turcos e ingleses. Pelos grandes rios da Mesopotâmia navegaram Hamurabi, Assurbanipal, Nabucodonosor, Dario, Alexandre, Crassus,Trajano, Cosroes, Hulagu Khan, sultões otomanos e califas abássidas. Procônsules britânicos precederam ali o procônsul de Bush filhote.
Os resistentes que não aceitam a ocupação norte-americana e contra ela se levantam representam o povo de cultura árabe que resultou da fusão de muitos povos que deixaram marcas profundas na terra milenária da Mesopotâmia. Quem encarna ali a barbárie - nunca é excessivo repetir essa evidência - são os generais e soldados da US Army e da US Air Force e os seus aliados britânicos.
O grande desafio
O exibicionismo de Bush e o seu discurso cavernícola chamam a atenção, mas não se deve esquecer que a capacidade de intervenção real do presidente é escassa, pois não passa de instrumento e símbolo do sistema de poder neofascista, responsável pela estratégia de dominação planetária dos EUA.
Como combater essa estratégia é hoje o grande desafio que a humanidade enfrenta.
Em diferentes Conferências e Seminários internacionais tenho reflectido sobre a questão. No âmbito deste artigo pretendo apenas alertar os leitores para alguns aspectos práticos e actuais dessa luta.
Em primeiro lugar parece-me negativa a conclusão de que, no terreno da praxis não se pode fazer quase nada enquanto as forças progressistas que repudiam a globalização neoliberal e as políticas imperiais que a sustentam não elaborarem uma alternativa credível, e tanto quanto possível consensual, ao sistema existente.
Tal atitude conduz ao imobilismo e concentra a luta em debates teóricos travados sobretudo no Fórum Social Mundial e em múltiplos Fóruns e Conferências, que, em escala continental e nacional, manifestam a esperança sintetizada no lema «outro mundo é possível».
É um facto que sem teoria não há mudança social, e que nos últimos anos a reflexão sobre a crise de civilização se aprofundou muito. Trabalhos muito criativos de intelectuais marxistas como o húngaro István Mészaros, o francês George Gastaud e o egípcio Samir Amin - apenas três exemplos - representam valiosas contribuições para a compreensão da crise estrutural do capitalismo, da extrema agressividade do imperialismo norte-americano e de acontecimentos contemporâneos que são consequência de ambas.
Trabalhos como esses não devem ser confundidos com o discurso de destacadas personalidades segundo as quais, por si só, a dinâmica dos movimentos sociais poderá, gradualmente, conduzir à superação do monstruoso sistema de exploração dominante.
Os movimentos sociais desempenharam um papel de extraordinária importância no despertar das consciências. E é indispensável que continuem a cumprir essa tarefa. O significado da sua intervenção, a importância da sua capacidade mobilizadora são tão decisivos, que forças que afirmam estar empenhadas em travar a revolta dos povos contra o sistema de dominação imperial se esforçam por conter o ímpeto da avalancha desencadeada e desviá-la para novos e inofensivos rumos. A tentativa de instrumentalização dos movimentos - cada vez mais ostensiva no discurso humanista e cativante de muitas ONG de tendência social-democrata e de um amplo leque de forças ideologicamente díspares - arranca do pressuposto de que o capitalismo, sendo invencível pelo seu poder, não pode ser derrotado e que não se autodestruirá. A única opção lúcida seria portanto lutar pela sua reforma. Paralelamente, a teorização desenvolvida por intelectuais com máscara marxista, mas de pendor neoanarquista, como Toni Negri e John Holloway, funciona na prática como complemento da anterior, favorecendo-a e gerando grande confusão entre a juventude e nos meios académicos.
É, entretanto, falso o pressuposto dessas campanhas, que dividem os movimentos e têm muitas vezes por tempero uma propaganda anticomunista que apresenta o socialismo como utopia. O capitalismo não é, pelos objectivos e essência, humanizável.
Diferem muito as tácticas utilizadas no esforço para neutralizar e instrumentalizar os movimentos sociais. Uma delas é a que subalterniza a luta contra o imperialismo e recorre a processos não éticos para desacreditar a solidariedade a Cuba, aos Sem Terra brasileiros, às organizações guerrilheiras colombianas, à Intifada palestiniana. Apresentar a situação criada no Iraque e no Afeganistão como um tema não prioritário nos grandes debates sobre o futuro é, com raras excepções, um denominador comum no discurso dos reformadores do capitalismo.
Simulam esquecer que o futuro se constrói no presente e mergulha as raízes no passado.
Ora o Iraque e o Afeganistão são precisamente neste final do ano 2003 os dois cenários onde a resistência à escalada de militarização do planeta está a exigir uma mobilização permanente das solidariedade dos povos em escala mundial.
O desespero e a desorientação em Washington são inocultáveis. As forças de ocupação norte-americanas e britânicas estão atoladas numa guerra não prevista. Ao responder à revolta das populações com a violência irracional, o comando militar agrava a situação de caos criada no país. Bush, primário como sempre, defende agora «a iraquização do conflito», mediante a transferência da responsabilidade pela «segurança» para um exército nativo de colaboracionistas. Esqueceu já o que aconteceu no Vietname.
Crise económica e financeira nos EUA
É também evidente que a crise económica e financeira nos EUA se aprofunda. As falências de gigantes transnacionais como a Enro, a Anderson, a World Com e tantas outras, o aumento do desemprego, o alastramento da pobreza, a desvalorização do dólar, os gigantescos défices fiscal e comercial reflectem uma crise estrutural de extrema complexidade. Durante anos esses défices eram financiados pelo afluxo de capitais estrangeiros. Mas esse dinheiro não chega mais.
O défice da balança de transações correntes deverá este ano superar os 400 mil milhões de dólares. O volume do investimento estrangeiro directo caiu nos EUA de 300 mil milhões de dólares em 2000 para 124,4 mil milhões em 2001, e para apenas 30 mil milhões no ano passado, quantia muito inferior à que a China atraiu - a China que em 2002 apresentou um saldo positivo de 103 mil milhões de dólares no seu comércio bilateral com os EUA. Agora ninguém está interessado também em comprar os Títulos do Tesouro da pátria do dólar.
A maior dívida externa do mundo, quase 7 milhões de milhões de dólares (mais de 60% do PIB), começa a assustar o governo e o Federal Reserve. Até muito recentemente o afluxo torrencial do capital estrangeiro, europeu e japonês, era um factor de tranquilidade para as autoridades monetárias. Mas essa fonte secou.
O mito da Nova Economia, concebida para durar séculos, foi desacreditado pelos factos. A crise tornou-se estrutural, porque a lei da acumulação, base do sistema, não funciona como antes.
As guerras preventivas, o saque dos riquezas de países agredidos ou tratados como semi-colónias, e a dinamização do complexo industrial militar são respostas a uma crise estrutural que não pode ser superada mediante a aplicação dos remédios tradicionais em períodos de recessão.
Os acontecimentos da Ásia - Palestina incluída - confirmam que essa estratégia, que configura - como tenho repetido - um assalto à razão, está a arrastar os EUA para um desfecho de catástrofe. Nos terrenos político, militar e económico.
A maré está a subir
É neste contexto que a solidariedade à luta dos povos do Iraque, do Afeganistão (e da Palestina, onde o sionismo funciona como braço armado do imperialismo) se impõe como exigência à humanidade democrática, a mulheres e homens de correntes de pensamento muito diferenciadas, mas que identificam no sistema de poder que tem o seu pólo nos EUA uma ameaça global a própria continuidade da vida.
Tal solidariedade, entretanto, para ser funcional, terá de se expressar de maneira firme, numa disponibilidade permanente para a luta sem complexos, nem temores.
Essa atitude de serenidade e lucidez tem sido dificultada, por vezes com êxito, pela propaganda inimiga. O discurso montado em torno do terrorismo continua a confundir milhões de pessoas. A passagem da consciência dos crimes cometidos no Iraque e no Afeganistão a uma postura de protesto organizado contra a ocupação, de denúncia da farsa da «reconstrução» e da «democratização» tem sido neutralizada e mesmo travada em muitos países, a nível individual e colectivo, pelo temor de que tais gestos sejam interpretado como uma forma de cumplicidade indirecta com Saddam, Osama e os talibãs, como traduzindo indiferença perante os crimes dessa gente.
Tais complexos são paralisantes, funcionam em benefício dos responsáveis das chacinas em curso do Médio Oriente.
Como afirma Chomsky, com coragem, o chefe do terrorismo de Estado no mundo é hoje Bush.
Quem empunha as bandeiras da liberdade são os resistentes do Iraque, do Afeganistão, da Palestina. Como vanguarda dos seus povos lavam vergonhas da humanidade, emergem como heróis colectivos.
As notícias que chegam diariamente de Bagdad e Cabul dissipam dúvidas: a maré da luta está a subir.
Depende muito da solidariedade internacional que ela não baixe. O que foi possível em Fevereiro e Março, quando dezenas de milhões saíram às ruas condenando a guerra, está novamente ao nosso alcance. A intervenção dos povos, como sujeito da História, é a mais eficaz das armas no combate em desenvolvimento contra a barbárie imperialista.
(1) Os mesmos jornais que em Nova Iorque e Washington enalteciam, durante a II Guerra Mundial, como heróicas e patrióticas as acções da Resistência francesa e dos partisans italianos contra as forças de ocupação da Wehrmacht alemã, qualificam agora de terroristas e criminosas iniciativas similares que no Iraque e no Afeganistão visam o exército do EUA.
Havana, 16 de Novembro de 2003