O Desenho como aparição - 1

Riscar a folha branca o trabalho de Sísifo

Manuel Augusto Araújo
No décimo ano de existência a Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea, encerra as comemorações com uma exposição de desenhos do inventor dessa aventura exemplar das artes visuais.
«Rogério Ribeiro- Primeiro Inventário/Desenhos Recentes» é organizada em dois núcleos distintos. Um que recolhe dos primeiros traços nos anos cinquenta até quase hoje que se faz representar por uma série realizada este ano.
De tudo o que se vê, vê-se que para Rogério Ribeiro o desenho é desejo, ele o disse um dia na Casa da Cerca mas poderia nunca o ter dito para assim ser encontrado no dia em que se vai e vem nesta exposição onde se confirmam as certezas que se traziam e se fazem extraordinárias descobertas.
Se não se conhecessem os outros, muitos e diversos campos de trabalho por onde Rogério Ribeiro distribui as suas artes, esta exposição marcá-lo-ia como desenhador maior que corre a ultrapassar o seu tempo.
Rogério Ribeiro desenha como quem respira e dota essa respiração de uma mão inteligente que reconhece o papel sopesando-o, percorrendo-lhe a superfície com a agilidade de um guia nativo que conhece todos, quase todos, os segredos da natureza e utiliza os instrumentos mais justos para cada situação, suas urgências ou lassidões.
O carvão de um negro intenso que se fixa ou desaparece numa poalha quase inverosímil, o pincel que transporta tintas da china e outras de transparências graduáveis, o lápis nas suas variegadas durezas e cores, a caneta que rabisca signos sejam letras ou outras marcas reconhecíveis pelo mundo afora, a borracha ou a faca que rasuram o traçado ilustrando outros modos de traçar, e ainda os mais inesperados que se usam por estarem ali quando são necessários ou os que se procuram para iniciar experimentações. Instrumentos que se misturam ou ficam sozinhos frente a folhas de múltiplos tamanhos, calandragens e texturas onde exploram o real para que este seja sempre mais real que a própria realidade que subitamente é surpreendida por desejo e vontade do desenhador que a suspende para riscar no olhar dos outros o espanto dessa pulsão.
Desenhos que antecipam a pintura, sem se prolongarem nas minúcias dos esboços, dos estudos como o fazia Ingres e como o faz Jorge Pinheiro, registando uma infinidade de variantes até seleccionarem a que será transportada para a tela, ou que já nascem desenhos, na afirmação de que o desenho é desenho e a pintura é pintura, o que pressupõe duas atitudes diferentes o que é denegado pelos velhos mestres chineses e japoneses que não apartam o desenho e a pintura da escrita de preciosas caligrafias.
Nesta exposição, a série «Desenhos Recentes» recupera essa prática riscando um círculo fechado de desenhos com cinzas de um negro que atinge as mais abismais profundidades sobre um branco onde se advinham cintilações de cal, que nascem do chão de terra de um poema «A morte não mata a dor» que se estivesse exposto, com a caligrafia e as raspaduras do pintor, cumpriria esse desígnio que nos vem do extremo- oriente.
Em Rogério Ribeiro, e independentemente do propósito que lhes deu origem, sejam únicos ou façam parte de uma narrativa, os desenhos adquirem autonomia, tem uma identidade própria, são uma aparição que convoca uma carga expressiva limpa de maneirismos nas múltiplas relações que se cruzam entre linhas e manchas, espaços vazios ou densamente povoados, riscos visíveis que ficam no primeiro plano do que é invisível.
Traçados com uma disciplina extrema, o que mais sublinha as evidências da qualidade das imagens e a sua autarcia, este acervo agora exposto pressupõe a existência de mais e mais folhas guardadas, perdidas ou esquecidas em gavetas reais e imaginárias e obriga-nos a perfilarmos justamente Rogério Ribeiro no balcão da galeria onde já estão outros arrebatados pela arte do desenho Leonardo da Vinci, Rembrandt, Hokusai, Picasso.


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