Aconteceu em Manchester
Bem se sabe que Portugal não é a Grã-Bretanha, nem Coimbra ou o Porto são Manchester. Ainda assim, porém, fiz questão de não deixar de ver no SIC-Notícias o «Panorama BBC» que abordava não a questão do racismo no Reino Unido, mas sim a penetração das ideias e práticas racistas na quase mítica polícia inglesa, o que teria menor interesse que um tratamento mais amplo e global do problema mas, de qualquer modo, não seria decerto insignificante. Não, é claro, por uma atenção muito particular que eu queira dedicar à polícia de Sua Graciosa Majestade, mas porque também por cá há imigração, embora de outras origens, polícias embora diferentes, e um já indisfarçável sentimento de hostilidade que surge como de rejeição racial mas é bem capaz de ter outras raízes.
O programa narrava como um jornalista da BBC conseguiu alistar-se na polícia de Manchester, fazer nela a sua formação e, antes de ser descoberto e preso como «agente infiltrado», conhecer alguns agentes que não apenas eram assumidamente racistas como ajustavam algumas das suas práticas profissionais às suas convicções. Mas o jornalista apercebeu-se de qualquer coisa de pior: de que, apesar dos princípios teóricos de total recusa do racismo adoptados pela corporação, o racismo impregnava em maior ou menor grau todos os seus escalões. O que, como facilmente se adivinhará, significa que a peste racista decerto não atacou apenas os profissionais da polícia e contaminou largas camadas da população britânica, assustadas perante a dimensão da massa imigrante não-branca. Que surja entre os que, a qualquer nível, comandam as forças que também têm por missão assegurarem a democraticidade nas comuns relações sociais quotidianas é, sem dúvida, especialmente preocupante, mas não é mais que um aspecto sectorial de um problema de muito maior dimensão.
Não me passa pela cabeça, entenda-se, vir para aqui dizer que a polícia portuguesa é racista. Porém, já se tornou inegável, e julgo que até inegado, que o mito segundo o qual os portugueses nunca são racistas é uma estória optimista, o que seria bom, mas falsa, o que é péssimo, estreitamente ligada com outras estórias e estorietas, algumas de terror, que contribuíram para que se tentasse dar cobertura ideológica e «moral» ao colonialismo lusitano (palavra esta que, por sinal, também está relacionada com um outro mito, mas esse mais inocente). Sempre se compreenderia, de resto, que assim fosse: os imigrantes, sobretudo se de origem africana, são geralmente pobres, executam trabalhos mais duros quando estão empregados e por eles são frequentemente ainda mais mal pagos que outros trabalhadores, moram em casas piores, estão por vezes em situações de ilegalidade que não são sem consequências, as suas crianças têm dificuldades de escolarização e quando jovens sentem uma marginalização que os empurra para a marginalidade. Por tudo isto e muito mais, além da óbvia diferença física, são encarados como subgente por muitos portugueses que são portugueses e brancos. Podem ser estúpidos, mas são brancos. Podem ser ignorantes, mas são brancos. Podem ser impostores, vigaristas, traficantes disto e daquilo, mas são brancos. E da sua condição de brancos (às vezes escassamente), reconfortam-se olhando os outros, os pretos, do alto da sua talvez duvidosa brancura.
A mistura
Para além disto, porém, acontece que não passaram assim tantos anos desde que os portugueses andaram a caçar «turras», ou a serem caçados por eles, no chamado «Ultramar». Por isso se reveste de particular gravidade que um ministro, e para mais ministro de Estado, venha publicamente assumir pseudovalores do colonial-fascismo que, não o esqueçamos, foi factor de desonra nacional só anulada pela luta da Resistência que sempre se opôs ao crime colonial e, finalmente, por Abril. As ainda as recentes declarações sem princípios mas com fins que o Portas ministro produziu resultaram inevitavelmente em novo alento, no espírito estreitinho de muitos portugueses que são racistas. É claro que seria uma patetice desvairada admitir sequer que muitos destes integram a polícia portuguesa e daí partir para uma aproximação com o relatado pela reportagem da BBC. Porém, este programa veio lembrar que o problema, que existe e é grave no Reino Unido, surgindo na polícia apenas como consequência de existir na sociedade britânica, também ocorre na sociedade portuguesa e, nesta, não só é explorado politicamente por grupos de extrema-direita como recebe também o estímulo de um ministro de ambições comprovadíssimas e escrúpulos ainda não detectados. A miséria de milhares de imigrantes está aí, a acentuar-se a par da miséria crescente das mais exploradas camadas da população portuguesa. O preconceito racista e o seu «efeito boomerang», também. Pode tratar-se de uma mistura que, de um dia para o outro, se revele explosiva. Mas, porque se trata de uma mistura de ideologias e práticas de direita, tenha-se o elementar bom-senso de nunca se lhe chamar «cocktail Molotov».
O programa narrava como um jornalista da BBC conseguiu alistar-se na polícia de Manchester, fazer nela a sua formação e, antes de ser descoberto e preso como «agente infiltrado», conhecer alguns agentes que não apenas eram assumidamente racistas como ajustavam algumas das suas práticas profissionais às suas convicções. Mas o jornalista apercebeu-se de qualquer coisa de pior: de que, apesar dos princípios teóricos de total recusa do racismo adoptados pela corporação, o racismo impregnava em maior ou menor grau todos os seus escalões. O que, como facilmente se adivinhará, significa que a peste racista decerto não atacou apenas os profissionais da polícia e contaminou largas camadas da população britânica, assustadas perante a dimensão da massa imigrante não-branca. Que surja entre os que, a qualquer nível, comandam as forças que também têm por missão assegurarem a democraticidade nas comuns relações sociais quotidianas é, sem dúvida, especialmente preocupante, mas não é mais que um aspecto sectorial de um problema de muito maior dimensão.
Não me passa pela cabeça, entenda-se, vir para aqui dizer que a polícia portuguesa é racista. Porém, já se tornou inegável, e julgo que até inegado, que o mito segundo o qual os portugueses nunca são racistas é uma estória optimista, o que seria bom, mas falsa, o que é péssimo, estreitamente ligada com outras estórias e estorietas, algumas de terror, que contribuíram para que se tentasse dar cobertura ideológica e «moral» ao colonialismo lusitano (palavra esta que, por sinal, também está relacionada com um outro mito, mas esse mais inocente). Sempre se compreenderia, de resto, que assim fosse: os imigrantes, sobretudo se de origem africana, são geralmente pobres, executam trabalhos mais duros quando estão empregados e por eles são frequentemente ainda mais mal pagos que outros trabalhadores, moram em casas piores, estão por vezes em situações de ilegalidade que não são sem consequências, as suas crianças têm dificuldades de escolarização e quando jovens sentem uma marginalização que os empurra para a marginalidade. Por tudo isto e muito mais, além da óbvia diferença física, são encarados como subgente por muitos portugueses que são portugueses e brancos. Podem ser estúpidos, mas são brancos. Podem ser ignorantes, mas são brancos. Podem ser impostores, vigaristas, traficantes disto e daquilo, mas são brancos. E da sua condição de brancos (às vezes escassamente), reconfortam-se olhando os outros, os pretos, do alto da sua talvez duvidosa brancura.
A mistura
Para além disto, porém, acontece que não passaram assim tantos anos desde que os portugueses andaram a caçar «turras», ou a serem caçados por eles, no chamado «Ultramar». Por isso se reveste de particular gravidade que um ministro, e para mais ministro de Estado, venha publicamente assumir pseudovalores do colonial-fascismo que, não o esqueçamos, foi factor de desonra nacional só anulada pela luta da Resistência que sempre se opôs ao crime colonial e, finalmente, por Abril. As ainda as recentes declarações sem princípios mas com fins que o Portas ministro produziu resultaram inevitavelmente em novo alento, no espírito estreitinho de muitos portugueses que são racistas. É claro que seria uma patetice desvairada admitir sequer que muitos destes integram a polícia portuguesa e daí partir para uma aproximação com o relatado pela reportagem da BBC. Porém, este programa veio lembrar que o problema, que existe e é grave no Reino Unido, surgindo na polícia apenas como consequência de existir na sociedade britânica, também ocorre na sociedade portuguesa e, nesta, não só é explorado politicamente por grupos de extrema-direita como recebe também o estímulo de um ministro de ambições comprovadíssimas e escrúpulos ainda não detectados. A miséria de milhares de imigrantes está aí, a acentuar-se a par da miséria crescente das mais exploradas camadas da população portuguesa. O preconceito racista e o seu «efeito boomerang», também. Pode tratar-se de uma mistura que, de um dia para o outro, se revele explosiva. Mas, porque se trata de uma mistura de ideologias e práticas de direita, tenha-se o elementar bom-senso de nunca se lhe chamar «cocktail Molotov».