A questão quase omitida
Foi um luxo: o programa «Prós e Contras» a conversar acerca de cultura. Podemos até considerar que o painel de convidados em palco era ele próprio um luxo: só ministros da Cultura, ex ou não ex, eram dois em seus participantes, o que constitui sem dúvida um elevado ratio. É certo que a dada altura quase se suscitou a dúvida de qual dos dois era o ministro actual, mas isso será consequência de um aparente pendor, aliás muito curioso, do senhor ministro Roseta para a não existência. Isso mesmo já havia sido assinalado, de resto, durante uma intervenção preliminar do actor André Gago sob a máscara de Pantaleone, um personagem da Commedia del'Arte: André Gago utilizou então o privilégio tradicional das figuras mais ou menos truanescas de exercerem algum poder de crítica; fê-lo aliás com suficiente cortesia e o ministro não se mostrou incomodado. Quanto à pergunta que o «Prós e Contras» habitualmente lança para suposto plebiscito, foi só um pouco mais que chocha, dir-se-ia ter sido cozinhada para público desprestígio de Pedro Roseta. Na verdade, é difícil imaginar que alguém no seu juízo perfeito e em situação de alfabetização mínima possa considerar a política cultural do actual Governo, fenómeno de que não é fácil encontrar vestígios, acima de qualquer outra, por muito defeituosa que tenha sido. Mas isso são coisas lá entre eles, os do chamado bloco central, e é questão que dificilmente pode apaixonar esta coluna.
Mas interessa, isso sim, tentar avaliar como decorreu a emissão, que eventual proveito dela decorreu para o País, isto é, para o esclarecimento das gentes que o habitam e que tão pouco acostumadas estão a que essas coisas da cultura sejam assunto de conversa longa na TV. Assim, registe-se que, se bem percebi, duas questões dominaram o programa: uma polémica discreta e mansa entre os drs. Roseta e Carrilho acerca dos eventuais méritos da acção governativa anterior (já que, decerto, seria quase de todo impossível discutir méritos na acção governativa actual) e a pública chamada de atenção para o facto de a Colecção Berardo, considerada de um invulgar valor, mesmo à escala internacional, ainda não ter obtido do Governo a garantia de uma instalação condigna no nosso País, de tal modo que Joe Berardo, fartíssimo de um jogo de chove-não-molha pouco compatível com o seu feitio, parece inclinado a colocá-la num outro país onde o acolhimento seja mais fácil e a percepção dos valores culturais mais nítida.
Um medo secular
Porém, a minha grande mágoa perante este «Prós e Contras» onde, sendo um programa de televisão se falou de cultura, foi a quase total ausência de uma questão de primeiríssimo relevo nesta área: precisamente a decisiva importância da televisão para a existência, ou não, de uma autêntica vida cultural que não seja apenas uma espécie de extravagância, aliás pouco apreciada socialmente, na imaginária lapela de um punhado de cidadãos de certa idade. A primeira intervenção a lembrar este ponto foi de Maria João Seixas, depois reforçada nas palavras de Miguel Lobo Antunes, mas na verdade acabaram por ser pouco mais que tentativas caídas em «saco roto»: ninguém deu sinais de lhes dar grande importância. E, contudo, poucos outros factores, ou talvez nenhum, serão tão determinantes para o êxito ou inêxito de uma política cultural que queira ser mais alguma coisa que uma semeadora de oásis em deserto constantemente devastado por tempestades de areia. Está aí um permanente fluxo televisivo, de origem pública ou privada, que todos os dias é derramado em casa dos cidadãos e por mil e uma maneira lhes ensina que a cultura é obsolescência que não interessa a ninguém, que o que é rasteirinho é que é fixe, que nada é tão saboroso ou de fácil digestão quanto uma estorinha acidulada e melosa. Num quadro destes, é escusado sonhar improváveis sinais de sobrevivência de alguma curiosidade cultural e intelectual. Em situação inversa, alguns sinais de respeito pela cultura que as TV's acedam dar (o que exclui o exílio para desoras dos programas suspeitos de serem «culturais»), a transmissão em horários acessíveis de programas em que a componente de culturalização seja evidente, poderão abrir no espírito do público caminhos por onde passar o enriquecimento múltiplo que a fruição cultural permite. Para isso, porém, os que mandam no mundo em geral e nas TV's em especial teriam de perder o secular medo que os poderosos têm perante o risco de que as gentes, acedendo à cultura, aprendam a entender a vida, a desmantelar os logros, a identificar os crimes. A transformar o mundo.
Mas interessa, isso sim, tentar avaliar como decorreu a emissão, que eventual proveito dela decorreu para o País, isto é, para o esclarecimento das gentes que o habitam e que tão pouco acostumadas estão a que essas coisas da cultura sejam assunto de conversa longa na TV. Assim, registe-se que, se bem percebi, duas questões dominaram o programa: uma polémica discreta e mansa entre os drs. Roseta e Carrilho acerca dos eventuais méritos da acção governativa anterior (já que, decerto, seria quase de todo impossível discutir méritos na acção governativa actual) e a pública chamada de atenção para o facto de a Colecção Berardo, considerada de um invulgar valor, mesmo à escala internacional, ainda não ter obtido do Governo a garantia de uma instalação condigna no nosso País, de tal modo que Joe Berardo, fartíssimo de um jogo de chove-não-molha pouco compatível com o seu feitio, parece inclinado a colocá-la num outro país onde o acolhimento seja mais fácil e a percepção dos valores culturais mais nítida.
Um medo secular
Porém, a minha grande mágoa perante este «Prós e Contras» onde, sendo um programa de televisão se falou de cultura, foi a quase total ausência de uma questão de primeiríssimo relevo nesta área: precisamente a decisiva importância da televisão para a existência, ou não, de uma autêntica vida cultural que não seja apenas uma espécie de extravagância, aliás pouco apreciada socialmente, na imaginária lapela de um punhado de cidadãos de certa idade. A primeira intervenção a lembrar este ponto foi de Maria João Seixas, depois reforçada nas palavras de Miguel Lobo Antunes, mas na verdade acabaram por ser pouco mais que tentativas caídas em «saco roto»: ninguém deu sinais de lhes dar grande importância. E, contudo, poucos outros factores, ou talvez nenhum, serão tão determinantes para o êxito ou inêxito de uma política cultural que queira ser mais alguma coisa que uma semeadora de oásis em deserto constantemente devastado por tempestades de areia. Está aí um permanente fluxo televisivo, de origem pública ou privada, que todos os dias é derramado em casa dos cidadãos e por mil e uma maneira lhes ensina que a cultura é obsolescência que não interessa a ninguém, que o que é rasteirinho é que é fixe, que nada é tão saboroso ou de fácil digestão quanto uma estorinha acidulada e melosa. Num quadro destes, é escusado sonhar improváveis sinais de sobrevivência de alguma curiosidade cultural e intelectual. Em situação inversa, alguns sinais de respeito pela cultura que as TV's acedam dar (o que exclui o exílio para desoras dos programas suspeitos de serem «culturais»), a transmissão em horários acessíveis de programas em que a componente de culturalização seja evidente, poderão abrir no espírito do público caminhos por onde passar o enriquecimento múltiplo que a fruição cultural permite. Para isso, porém, os que mandam no mundo em geral e nas TV's em especial teriam de perder o secular medo que os poderosos têm perante o risco de que as gentes, acedendo à cultura, aprendam a entender a vida, a desmantelar os logros, a identificar os crimes. A transformar o mundo.