A viabilização só depende do Governo

Vigília pela Sorefame

Luís Gomes
Na passada quinta-feira, os trabalhadores realizaram uma vigília para exigir que o Governo tome medidas que garantam a continuidade da Bombardier (ex-Sorefame) e a manutenção dos postos de trabalho.

Dia 27, novo pro­testo junto ao Mi­nis­tério da Eco­nomia

António Tremoço, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica do Distrito de Lisboa e eleito na Assembleia Municipal da Amadora pela CDU, contou ao Avante! que a vigília se deveu à necessidade de o Governo desbloquear verbas para que a CP e o Metro possam enviar à Sorefame as encomendas de carruagens para servir o Porto e Lisboa.
«Até Abril temos trabalho. A partir daí poderemos ficar numa situação grave, e proporcionar à multinacional argumentos que levem ao fecho e deslocalização da unidade para fora de Portugal», afirmou.
Os dados da ex-Sorefame comprovam que, havendo trabalho, a empresa sempre deu lucro. «Teve este ano resultados tão positivos que distribuiu lucros aos trabalhadores, provando ter todas as condições para continuar a laborar», revelou António Tremoço que na última reunião da Assembleia Municipal apresentou uma moção em defesa da Sorefame.
É a única empresa em Portugal que projecta e fabrica material circulante de transporte de passageiros. Tem mão-de-obra altamente qualificada mas, mesmo assim, o desprezo a que o Governo a tem remetido, pode levar ao seu encerramento.
Amadeu Moreira, da Comissão Intersindical dos Trabalhadores, tem 31 anos de trabalho na Sorefame. Tem assistido ao progresso da empresa, «devido essencialmente à luta dos trabalhadores pela sua manutenção mas agora chegámos a uma fase mais perigosa», considera.
A CIT acusa a Bombardier de não ter aceite muitos projectos que estavam em carteira mas que a multinacional acabou por, até ao momento, não assumir.
Amadeu Moreira recordou ainda como foi desmantelada a vertente de aço-carbono, com o fim da Hidrosorefame, através da qual a Sorefame chegou a ser a maior produtora e fornecedora de materiais para barragens em todo o mundo.
O dirigente da CIT recordou o estado de degradação em que se encontram carruagens e linhas de comboio nacionais, situação que torna ainda mais importante a existência desta capacidade. «Caso acabe a Sorefame, teremos de importar todo o material de Espanha, a preços exorbitantes», desabafou, recordando o contrato firmado, um dia antes, entre Portugal e Espanha, para a instalação e construção do TGV.
Todos os partidos políticos e centrais sindicais foram convidados a prestar solidariedade, na vigília, à luta dos trabalhadores da Sorefame.

So­li­da­ri­e­dade

A vigília efectuou-se frente às instalações onde estava instalada a produção para centrais hídricas, barragens, agora totalmente abandonadas e em alto estado de degradação.
O PS primou pela ausência e não se fez representar.
Com Carlos Carvalhas, estiveram presentes eleitos da CDU/Amadora - entre eles o vereador da CDU, João Bernardino - e responsáveis locais do Partido.
«Se o povo de Lisboa visse ser desmontado o forno que está a ser deslocado para a Alemanha, viam o que era um crime, o atraso e o retrocesso que estão a transformar Portugal numa “Portugalicia”», disse o secretário-geral do PCP, acrescentando que a luta é dura mas que sem lutar, nada se consegue.
Manuel Carvalho da Silva compareceu em nome da CGTP-IN, prestou a solidariedade aos trabalhadores e recordou-lhes a importância de participar nas manifestações nacionais de protesto da Central, marcadas para dia 29.
A vigília contou ainda com a presença solidária de uma delegação da CIT do Metropolitano de Lisboa.
«O PCP tem manifestado o seu apoio aos trabalhadores, através de comunicados à imprensa onde se tem alertado para as consequências que o encerramento terá para o Concelho da Amadora», salientou Manuel Gouveia, membro do Secretariado da Comissão Concelhia da Amadora do PCP.
Já em Setembro, o Partido avançou com o problema na Assembleia Municipal da Amadora e na Assembleia da República.
O Grupo Parlamentar comunista propôs, na semana passada, alterações ao OE/2004, para que sejam contempladas verbas que garantam a viabilidade da Sorefame.
Para 12 de Dezembro próximo, o PCP está a preparar um grande comício de solidariedade com a Sorefame, na Falagueira.

Pri­va­ti­zação e des­man­te­la­mento

Criada em 1943, a Sorefame, situada na Venda Nova, Amadora, foi acompanhando o avanço tecnológico, formando quadros e pessoal especializado.
Durante sessenta anos, desenvolveu as suas capacidades nas áreas da metalomecânica ligeira e pesada, de fabrico, projecto e montagens de material circulante.
Na década de 90, os governos da direita e do PS avançaram decisivamente para a destruição do Sector Empresarial do Estado com a fúria privatizadora que não poupou a empresa. É nesta altura que a multinacional ABB adquire a Sorefame e a divide em duas empresas distintas: a Hidrosorefame que se dedicaria à produção de centrais hídricas e a Sorefame que se ocuparia, exclusivamente, de equipamentos de material ferroviário.
Sindicatos e ORT’s denunciaram a intenção da ABB de destruir o potencial da unidade portuguesa, uma vez que a Sorefame estava a ganhar vantagens concorrenciais no mercado mundial.
A ABB avançou então com uma reestruturação que espartilhou as capacidades produtivas da Sorefame, reduziu os postos de trabalho - nos anos oitenta eram mais de 3 mil -, na esmagadora maioria, trabalhadores altamente qualificados, alienando património e reduzindo a capacidade produtiva.
No princípio deste ano, a já Bombardier, conseguiu destruir a capacidade de Portugal para projectar e produzir qualquer tipo de material hidro-eléctrico, ao deslocar para o estrangeiro a tecnologia do sector estratégico de energia da Sorefame, que era a produtora nacional exclusiva destes componentes.
O sector de fornecimento de materiais para barragens tem um passado invejável e uma capacidade de «know how» das melhores do mundo, com obras realizadas em quatro continentes, desde a barragem da Cabora Bassa, em Moçambique, até ao Paquistão, África do Sul, Camarões, ou Guatemala, e as estruturas sindicais sublinham que o encerramento desta vertente não se deve a prejuízos ou à falta de trabalho, mas a interesses alheios à empresa.
O mesmo aconteceu com o sector da metalomecânica pesada e o despedimento de centenas de trabalhadores altamente qualificados.
Em 1997, é criado o grupo Adtranz/ABB Benz-Transportation que ficou detentor da unidade portuguesa. A ABB vendeu todas as acções que detinha ao Grupo Adtranz que passou a ter nas mãos o destino da Sorefame.
Pouco depois, é extinto o sector nacional de fabrico de peças e subconjuntos, enquanto o sector de caixas, um dos principais da empresa e que maior prestigio granjeou à Sorefame devido à sua capacidade, fica posto em causa.
Em Maio de 2001, a Adtranz vendeu a Sorefame à multinacional Bombardier, canadiana, que passou a ser detentora de todo o património.
A Sorefame/Bombardier é o fornecedor exclusivo do mercado nacional de carruagens para a CP e o Metro.
Actualmente com cerca de 600 trabalhadores, subcontrata ainda outras empresas que garantem mais mil postos de trabalho.
Sintomático é o facto de, um dia antes da vigília, o Governo ter anunciado o acordo Ibérico para a construção da linha TGV, para comboios de alta velocidade, sem que, para o projecto tenha sido sequer contactada a Sorefame.


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