Uma espécie de emigrante
Os portugueses que não encontram em Portugal condições para trabalhar emigram, se tanto puderem, quase sempre com a morte na alma. Descobri um dia destes que o mesmo acontece comigo, embora de outra e ténue maneira: como os canais portugueses de televisão dificilmente me fornecem temas que mereçam reflexão e comentário (salvo na área informativa, onde a reflexão é imperativa e o comentário indignado salta expontâneo e com tal força que o difícil é contê-lo), vejo-me obrigado a emigrar para os canais estrangeiros que o cabo me fornece. Aí, como decerto se compreende, não me sinto especialmente atraído pelo Disney Canal ou pela FashionTV, e refugio-me com alguma frequência no visionamento do «60 Minutos», o programa da CBS que a Sic-Notícias retransmite pela mão de Mário Crespo. Fico com o sentimento quase reconfortante de que não pratico a emigração integral, pois aquilo ainda é a Sic, e contudo escapo às telemalhas da intrigalhada política a que os canais portugueses se prestam mais que de bom grado, empenhadamente. Por outro lado, o «60 Minutos» tem a vantagem de, sendo made in USA, surgir menos suspeito de anti-americanismo primário. Menos suspeito, mas não inteiramente a salvo da acusação, pois bem se sabe que os devotos de Bush desembestam de olhos fechados e de probidade encerrada para obras de Santa Engrácia.
Foi, pois, neste quadro que encontrei no «60 Minutos» transmitido no passado fim-de-semana duas reportagens da CBS de algum modo complementares. A primeira delas contava-nos como prossegue no Iraque e seus arredores a caça a Saddam Hussein. A segunda falava-nos dos prisioneiros de Guatanamo. Qualquer delas era impressionante, ainda que por razões diversas e de modo diferente. A caça a Saddam, confirmada pela reportagem poucos minutos depois de ter sido noticiado que haviam sido abatidos mais dois militares norte-americanos da força de ocupação, vem juntar-se, no entendimento que qualquer um de nós pode ter acerca do que se passa no mundo, à pelos vistos interminável caça a Ben Laden. Vai-se percebendo que o pior para os norte-americanos não é que um e outro estejam vivos: o pior é que de criaturas vivas se estão a transformar em mitos, em bandeiras de luta. E todos os dias a TV vem dizendo que essa luta está a dar os frutos macabros que são a morte de soldados de Bush que para ali foram ao serviço das petrolíferas e das empresas a quem foi entregue o sinistro negócio da reconstrução. Tudo indica que, se um dia os norte-americanos conseguirem liquidar Saddam, o que parece duvidoso, será tarde demais: gota a gota, sangue a sangue, um dia após outro, a resistência iraquiana irá vencendo a força do Pentágono. E quem o demonstra é a CBS, a terceira maior cadeia norte-americana de TV.
Guatanamo: o crime pintado de fresco
Depois, foi a reportagem acerca de Guatanamo, a primeira consentida após o ataque ao Afeganistão e a consequente captura dos prisioneiros ali colocados, em solo cubano para que o campo seja uma constante provocação para Cuba. Era uma reportagem estranha: sendo feita a um espaço prisional, era uma visita ao vazio: não se viu nem um só dos detidos, as celas onde o jornalista pôde entrar estavam arrumadinhas, lavadas, pintadas de fresco; mas pareciam grandes gaiolas de pássaros que algum gigantesco gato devorara sem deixar vestígios. Para a jornalista, esse especialíssimo deserto não era uma novidade: fora avisada de que não poderia contactar com nenhum dos prisioneiros de quarenta e duas nacionalidades que para ali tinham sido conduzidos, cegos por capuzes enfiados nas cabeças e manietados de modo a terem de caminhar curvados, como vimos em breves imagens que correram mundo. Mas teve o privilégio de poder falar com o comandante do campo, sujeito com um ar não excessivamente inteligente, que se recusou a dizer quais os métodos utilizados nos interrogatórios para que os presos «falem». E mais disse o sujeito: que todos os prisioneiros são presumíveis culpados, que só poderão ser libertados quando acabar a guerra americana contra o «terrorismo».
A jornalista, norte-americana também, compreendeu: é a prisão perpétua sem julgamento. É que o «terrorismo» é apenas uma palavra, e a História já por diversas vezes demonstrou ser uma palavra que os infames usam para designar os que resistem à sua violência ou contrariam os seus interesses. É que o grande aliado do terrorismo é a opressão, e do exercício da opressão não estão os States decididos a desistir. E porque tudo isto se sentiu claramente na reportagem da CBS, foi mais uma vez útil e gratificante a semi-emigração que me levou ao seu encontro.
Foi, pois, neste quadro que encontrei no «60 Minutos» transmitido no passado fim-de-semana duas reportagens da CBS de algum modo complementares. A primeira delas contava-nos como prossegue no Iraque e seus arredores a caça a Saddam Hussein. A segunda falava-nos dos prisioneiros de Guatanamo. Qualquer delas era impressionante, ainda que por razões diversas e de modo diferente. A caça a Saddam, confirmada pela reportagem poucos minutos depois de ter sido noticiado que haviam sido abatidos mais dois militares norte-americanos da força de ocupação, vem juntar-se, no entendimento que qualquer um de nós pode ter acerca do que se passa no mundo, à pelos vistos interminável caça a Ben Laden. Vai-se percebendo que o pior para os norte-americanos não é que um e outro estejam vivos: o pior é que de criaturas vivas se estão a transformar em mitos, em bandeiras de luta. E todos os dias a TV vem dizendo que essa luta está a dar os frutos macabros que são a morte de soldados de Bush que para ali foram ao serviço das petrolíferas e das empresas a quem foi entregue o sinistro negócio da reconstrução. Tudo indica que, se um dia os norte-americanos conseguirem liquidar Saddam, o que parece duvidoso, será tarde demais: gota a gota, sangue a sangue, um dia após outro, a resistência iraquiana irá vencendo a força do Pentágono. E quem o demonstra é a CBS, a terceira maior cadeia norte-americana de TV.
Guatanamo: o crime pintado de fresco
Depois, foi a reportagem acerca de Guatanamo, a primeira consentida após o ataque ao Afeganistão e a consequente captura dos prisioneiros ali colocados, em solo cubano para que o campo seja uma constante provocação para Cuba. Era uma reportagem estranha: sendo feita a um espaço prisional, era uma visita ao vazio: não se viu nem um só dos detidos, as celas onde o jornalista pôde entrar estavam arrumadinhas, lavadas, pintadas de fresco; mas pareciam grandes gaiolas de pássaros que algum gigantesco gato devorara sem deixar vestígios. Para a jornalista, esse especialíssimo deserto não era uma novidade: fora avisada de que não poderia contactar com nenhum dos prisioneiros de quarenta e duas nacionalidades que para ali tinham sido conduzidos, cegos por capuzes enfiados nas cabeças e manietados de modo a terem de caminhar curvados, como vimos em breves imagens que correram mundo. Mas teve o privilégio de poder falar com o comandante do campo, sujeito com um ar não excessivamente inteligente, que se recusou a dizer quais os métodos utilizados nos interrogatórios para que os presos «falem». E mais disse o sujeito: que todos os prisioneiros são presumíveis culpados, que só poderão ser libertados quando acabar a guerra americana contra o «terrorismo».
A jornalista, norte-americana também, compreendeu: é a prisão perpétua sem julgamento. É que o «terrorismo» é apenas uma palavra, e a História já por diversas vezes demonstrou ser uma palavra que os infames usam para designar os que resistem à sua violência ou contrariam os seus interesses. É que o grande aliado do terrorismo é a opressão, e do exercício da opressão não estão os States decididos a desistir. E porque tudo isto se sentiu claramente na reportagem da CBS, foi mais uma vez útil e gratificante a semi-emigração que me levou ao seu encontro.