Indignações
Subitamente, quando tudo parecia correr normalmente dentro da anormalidade esbanjadora de dinheiros públicos (já repararam quanto representa o custo previsto da construção da Casa da Música em comparação com a fatia do orçamento de Estado 2003 atribuida ao Ministério da Cultura) e da não menor anormalidade programática da Casa da Música, surge um edifício a poente da Casa da Música que muito irrita Rem Koolhaas que afirma que o edifício que aí irá ser construído «ignora completa e dramaticamente as intenções da Casa da Música» acrescentando enfaticamente “que acredita sinceramente que irá expor ao ridículo a própria cidade do Porto.»
Estranha-se o destempero de Koolhaas certamente esquecido de todas as teorias insertas num calhamaço intitulado S,M,L,XL que «ilumina a condição actual da arquitectura—os seus esplendores e as suas misérias—explorando e revelando o corrosivo impacto das políticas, dos contextos, da economia, da globalização—o mundo» onde se reúne tudo, de notas para um diário a contos de fadas, de ensaios e meditações a projectos produzidos pelo escritório de Koolhaas,a OMA.
Quando se confronta a indignação de Koolhaas projectista da moradia Y2K, que por um mecanismo pedantemente apelidado de «transformações» ou «mutações» (a tradução para português é pouco precisa) a fez Casa da Música(1) com o que escreveu em «The Generic City»(2) a perplexidade é enorme.
Depois de ter ganho o concurso, quando o projecto inicial é apresentado, Koolhaas tem o cuidado de criar uma retaguarda à Casa da Música, com a sugestão de uma espécie de edifício tampão entre a Casa da Música e a tralha urbanística que é o arranque da Avenida da Boavista(3). Cuidado estranho por não ser consentâneo com as suas já referidas teorias e que permitiriam que qualquer coisa surgisse naquele terreno devoluto, por exemplo «um hotel que serão as acomodações genéricas da Cidade Genérica» ou um «edifício cuja complexa forma dependerá das paredes-cortina industriais» ou «um campo de arroz» etc.,etc..
Ora a quem tudo isto e muito mais escreveu não se pode conceder o direito à indignação perante um facto que coloca no terreno as suas teorias. Esse acontecer é que está ideologicamente de acordo com as teorias de Koolhaas que encontram vários paralelos neste nosso mundo tão deliciosamente pós-moderno. Por exemplo, na canção Lady Di de Elton John, em que o cantor vasa versos novos na mesma música com que tinha celebrado Marilyn, a diferença é que nem precisou de mudar de escala, (aqui está uma ideia para Koolhaas propor para o concerto inaugural: encomendar ao Elton John uma versão sinfónica dessas suas duas canções. Era um equivalente à transformação que ele operou na Y2K) ,e o universo ideológico subjacente ao modus faciendi. Essa maneira de fazer e o surgir uma coisa qualquer no terreno devoluto é que são coerentes com o uso ultra-liberal do território que se define na Cidade Genérica. O contrário seria ter-se criado uma zona de protecção, como Helena Roseta preconiza, defendendo uma gestão urbanística que imponha a lógica da cidade como espaço coerente de vivências à lógica dos loteadores que vão destruindo um bem, o solo urbano, que é de todos os cidadãos. A vergonha para a cidade do Porto e para todas as cidades do país é a da desordem urbanística, é o solo urbano ter-se transformado em moeda de troca e de sobrevivência para as autarquias que possibilita o que aconteceu nos arredores da Casa da Música - curiosamente, vai ter uma vitima musical anunciada, o Conservatório de Música do Porto - e é uma ocorrência que sucede todos os dias nos arredores de edifícios não excepcionais, o que não incomodava e até era considerado desejável por Koolhaas.
Indignação devemos sentir todos os que suspeitam que as intenções da Casa da Música ignoram dramaticamente a necessidade de aí terem lugar todas, mas todas as expressões musicais, talvez porque algumas, a ópera e o bailado de grande repertório, obrigassem o projectista para as integrar, a alterar a forma pré-desenhada do projecto outro.
Dos muitos depoimentos que surgiram por causa deste acontecimento registe-se um: «A Casa da Música marca um ponto, as pessoas vão deixar de se perder na rotunda onde não há edifícios excepcionais».Graça Dias dixit. Finalmente alguém descobre uma função que a Casa da Música cumpre integralmente. Custou dinheiro mas vai valer a pena. O mesmo não poderão dizer os utentes do Laboratório de Ópera que integra a CM e que só pode acolher o repertório barroco e contemporâneo, ficando ostracizados Verdi, Puccini, Rossini, Bizet, Wagner etc., até mesmo Berg, Isso é que deveria provocar uma enorme indignação.
Em relação à qualidade do projecto uma questão pertinente: será legítimo formular juízos de valor sobre o projecto de arquitectura da Casa da Música, sem referência ao programa do edifício e à génese do próprio projecto? Será legítimo olhar para a Casa da Música metafisicamente, como um objecto sem objectivo nem finalidade? Claro que é possível, até é possível uma adesão filistina como a do director do Público ao subscrever emocionado a indignação de Koolhaas, mas não é legítimo olhar para qualquer obra de arquitectura sem a relacionar com o seu programa e com o processo conceptual que o resolve. A qualidade de um projecto de arquitectura não é um valor abstracto.
(1) revista A+U,Maio de 2000
(2) S,M,L,XL(evergren))-págs 1248 a 1994—em particular os itens 1.6, 6, 11 e 16. Todo o texto deve ser lido ,bem como um glossário que percorre todo o livro.
(3) Jornal dos Arquitectos,nº 246,ano 2000—a volumetria do edíficio aprovado para o lote contíguo à Casa da Música é equivalente ao alçado traçado por Koolhaas.
Estranha-se o destempero de Koolhaas certamente esquecido de todas as teorias insertas num calhamaço intitulado S,M,L,XL que «ilumina a condição actual da arquitectura—os seus esplendores e as suas misérias—explorando e revelando o corrosivo impacto das políticas, dos contextos, da economia, da globalização—o mundo» onde se reúne tudo, de notas para um diário a contos de fadas, de ensaios e meditações a projectos produzidos pelo escritório de Koolhaas,a OMA.
Quando se confronta a indignação de Koolhaas projectista da moradia Y2K, que por um mecanismo pedantemente apelidado de «transformações» ou «mutações» (a tradução para português é pouco precisa) a fez Casa da Música(1) com o que escreveu em «The Generic City»(2) a perplexidade é enorme.
Depois de ter ganho o concurso, quando o projecto inicial é apresentado, Koolhaas tem o cuidado de criar uma retaguarda à Casa da Música, com a sugestão de uma espécie de edifício tampão entre a Casa da Música e a tralha urbanística que é o arranque da Avenida da Boavista(3). Cuidado estranho por não ser consentâneo com as suas já referidas teorias e que permitiriam que qualquer coisa surgisse naquele terreno devoluto, por exemplo «um hotel que serão as acomodações genéricas da Cidade Genérica» ou um «edifício cuja complexa forma dependerá das paredes-cortina industriais» ou «um campo de arroz» etc.,etc..
Ora a quem tudo isto e muito mais escreveu não se pode conceder o direito à indignação perante um facto que coloca no terreno as suas teorias. Esse acontecer é que está ideologicamente de acordo com as teorias de Koolhaas que encontram vários paralelos neste nosso mundo tão deliciosamente pós-moderno. Por exemplo, na canção Lady Di de Elton John, em que o cantor vasa versos novos na mesma música com que tinha celebrado Marilyn, a diferença é que nem precisou de mudar de escala, (aqui está uma ideia para Koolhaas propor para o concerto inaugural: encomendar ao Elton John uma versão sinfónica dessas suas duas canções. Era um equivalente à transformação que ele operou na Y2K) ,e o universo ideológico subjacente ao modus faciendi. Essa maneira de fazer e o surgir uma coisa qualquer no terreno devoluto é que são coerentes com o uso ultra-liberal do território que se define na Cidade Genérica. O contrário seria ter-se criado uma zona de protecção, como Helena Roseta preconiza, defendendo uma gestão urbanística que imponha a lógica da cidade como espaço coerente de vivências à lógica dos loteadores que vão destruindo um bem, o solo urbano, que é de todos os cidadãos. A vergonha para a cidade do Porto e para todas as cidades do país é a da desordem urbanística, é o solo urbano ter-se transformado em moeda de troca e de sobrevivência para as autarquias que possibilita o que aconteceu nos arredores da Casa da Música - curiosamente, vai ter uma vitima musical anunciada, o Conservatório de Música do Porto - e é uma ocorrência que sucede todos os dias nos arredores de edifícios não excepcionais, o que não incomodava e até era considerado desejável por Koolhaas.
Indignação devemos sentir todos os que suspeitam que as intenções da Casa da Música ignoram dramaticamente a necessidade de aí terem lugar todas, mas todas as expressões musicais, talvez porque algumas, a ópera e o bailado de grande repertório, obrigassem o projectista para as integrar, a alterar a forma pré-desenhada do projecto outro.
Dos muitos depoimentos que surgiram por causa deste acontecimento registe-se um: «A Casa da Música marca um ponto, as pessoas vão deixar de se perder na rotunda onde não há edifícios excepcionais».Graça Dias dixit. Finalmente alguém descobre uma função que a Casa da Música cumpre integralmente. Custou dinheiro mas vai valer a pena. O mesmo não poderão dizer os utentes do Laboratório de Ópera que integra a CM e que só pode acolher o repertório barroco e contemporâneo, ficando ostracizados Verdi, Puccini, Rossini, Bizet, Wagner etc., até mesmo Berg, Isso é que deveria provocar uma enorme indignação.
Em relação à qualidade do projecto uma questão pertinente: será legítimo formular juízos de valor sobre o projecto de arquitectura da Casa da Música, sem referência ao programa do edifício e à génese do próprio projecto? Será legítimo olhar para a Casa da Música metafisicamente, como um objecto sem objectivo nem finalidade? Claro que é possível, até é possível uma adesão filistina como a do director do Público ao subscrever emocionado a indignação de Koolhaas, mas não é legítimo olhar para qualquer obra de arquitectura sem a relacionar com o seu programa e com o processo conceptual que o resolve. A qualidade de um projecto de arquitectura não é um valor abstracto.
(1) revista A+U,Maio de 2000
(2) S,M,L,XL(evergren))-págs 1248 a 1994—em particular os itens 1.6, 6, 11 e 16. Todo o texto deve ser lido ,bem como um glossário que percorre todo o livro.
(3) Jornal dos Arquitectos,nº 246,ano 2000—a volumetria do edíficio aprovado para o lote contíguo à Casa da Música é equivalente ao alçado traçado por Koolhaas.