Elizardo, o líder dos «dissidentes» cubanos, trabalhava com Deus e o Diabo
Nunca o lançamento de um livro (1) em Havana produziu um efeito de choque comparável.
Quando foi revelado que Elizardo Sanchez Santa Cruz, o dirigente máximo dos «dissidentes» - a oposição interna, ilegal, mas tolerada pelo governo - trabalhou nos últimos seis anos com a Segurança Cubana, um sismo emocional abalou a assistência que enchia o anfiteatro do Centro de Imprensa Internacional.
A estória parece extraída de uma novela de Le Carré.
O titulo do livro, El Camaján, define a personagem. A palavra, na linguagem popular, designa os antigos camaleões da política, mercenários disponíveis para todas as metamorfoses.
Elizardo Sanchez, pela vida, pelo discurso e pelo comportamento social, foi, desde a juventude, um aventureiro pronto para mudar de ideias e de projecto. Vocacionalmente camaleão, a ética e as ideias nunca contaram para ele. Mudou sempre exclusivamente em função de interesses pessoais.
Em 1959, após a vitória da Revolução, inscreveu-se no Partido Socialista Popular. Falava como um comunista ortodoxo. Em 1962, era funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros quando descobriu em si a vocação da ideologia e conseguiu ser nomeado professor de Filosofia Marxista na Universidade de Havana. Não aqueceu o lugar. Dois anos depois os colegas pediram o seu afastamento. Era ultra esquerdista, dogmático, auto-suficiente, arrogante. Ligou-se à chamada «microfacção» que na época acusou os líderes da revolução de constituírem «uma elite pequeno burguesa que punha em perigo o rumo socialista do processo».
Documentação reunida mais tarde pela Contra Inteligência cubana comprova, entretanto, que os seus primeiros contactos com serviços de espionagem dos EUA datam, por iniciativa própria, dessa época. Denunciou então à CIA companheiros da «microfacção».
Mudou rapidamente de ideologia. Renunciou ao marxismo para adoptar os ideais da social democracia liberal. Sob a direcção do Escritório de Interesses dos EUA em Havana, transformou-se num apologista do capitalismo. Elizardo, aplaudido por Washington e pela mafia de Miami, iniciou a sua cruzada contra-revolucionária. Em 1987 fundou a chamada Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional. Autonomeando-se presidente dessa organização fantasma, envolveu-se em diferentes conspirações. Acabou na prisão em 90. Após cumprir uma pena leve, criou no ano seguinte, com financiamento da CIA e ajuda do seu amigo Carlos Montaner – a Concertacion Democrática Cubana.
Em 1993 foi recebido cordialmente na Europa por Felipe Gonzalez e Mário Soares. Em 1996 a mafia de Miami aclamou-o como um herói. Em Paris recebeu um prémio e, posteriormente em Madrid, Aznar saudou nele um campeão na luta pelos direitos humanos.
Em 1999, noutra tournée europeia encontrou-se com destacados dirigentes políticos da Grã Bretanha, da Alemanha, da Itália e, obviamente, da Espanha. Pronunciou numerosas conferências (bem pagas).
Ao findar o século Elizardo Sanchez projectava a nível internacional a imagem do líder incontestado dos «dissidentes» cubanos.
O agente secreto
A partir de meados da década de 90, Elizardo alterou o discurso, procurando transmitir a ideia de que é um conciliador. Em entrevistas passou a defender «a necessidade da participação de Fidel Castro numa fase de transição para a democracia, e inclusive que a dirija».
Em 1997 entrou em contacto com a Segurança do Estado em Havana. Em 13 de Dezembro desse ano realizou-se o primeiro de uma série de encontros secretos.
Elizardo, espontaneamente expressou o desejo de colaborar com o Governo da República e de cumprir tarefas atribuídas pela Segurança do Estado, em Cuba e no estrangeiro.
Nos cinco anos seguintes, o agente Juana - seu nome de código na Seguridad - proporcionou informações de grande valor sobre diplomatas e jornalistas estrangeiros (nomeadamente norte-americanos e espanhóis), sobre pessoas ligadas a serviços especiais anti-cubanos, cabecilhas de grupos contra-revolucionários, etc. Em encontros sempre secretos revelou conversas mantidas nos EUA com altas personalidades do establishment, incluindo Otto Reich e membros do Congresso, etc.
O governo cubano e a Segurança do Estado aperceberam-se desde o início de que Elizardo Sanchez desenvolvia um jogo duplo, próprio da sua mentalidade de camaleão.
Os responsáveis pela contra-espionagem acompanharam desde o início com a máxima cautela os contactos com Elizardo, sem ilusões quanto aos seus objectivos. Como sublinham os autores do livro, «a sua atitude parecia responder a uma velha táctica usada pelo seu amigo Vaclav Havel, o qual, como se soube depois, recorreu a um modus operandi similar perante os serviços especiais checoslovacos».
Mas para incutir confiança em Elizardo, a Seguridad deu seguimento a alguns dos seus pedidos. Voltou à Universidade, não como professor mas como bibliotecário; ofereceram-lhe (e à companheira) férias de luxo no México e noutros lugares; sugestões suas relacionadas com a situação de contra revolucionários presos foram total ou parcialmente atendidas.
Para se avaliar o nível da colaboração prestada pelo líder dos «dissidentes» vale a pena recordar que identificou na visita do Papa «um perigo devido à tendência anticomunista de João Paulo II».
Quando um coronel entregou a Elizardo Sanchez uma alta condecoração que lhe fora atribuída pelo Ministério do Interior, o veterano contra-revolucionário terá, quem sabe, admitido que havia, de uma vez por todas, enganado os responsáveis do Estado cubano.
Pura ilusão. Os encontros secretos do agente Juana - depois Eduardo e finalmente Pestana - eram fotografados. O livro ora editado inclui dezenas de fotografias e cartas e outros documentos altamente comprometedores para o farsante Elizardo.
No desempenho do seu papel autêntico, o líder da «dissidência» levava uma dolce vita num país de escassez, a Cuba bloqueada.
Somente dos EUA recebeu mais de 200 000 dólares. A Agência Espanhola de Cooperação Internacional deu-lhe 50 000 para fomentar a contra-revolução na Ilha. Uma quantia equivalente chegou-lhe através da Embaixada da Noruega. Existem provas documentais que não podem ser desmentidas.
No último ano, o agente Juana - Eduardo - Pestana distanciou-se. A apresentação nos julgamentos dos «dissidentes» como agentes da Segurança infiltrados nos grupelhos contra-revolucionários terá assustado Elizardo. Ele sentiu-se sempre um falso agente.
O livro El Camajuan mostrou agora Elizardo, tal como é, sem máscara.
Na própria noite do lançamento, os correspondentes estrangeiros - alguns por ele denunciados - invadiram-lhe a casa. O escândalo tornou-se assunto das grandes cadeias de televisão internacionais.
Elizardo tentou negar a evidência. Apresentou-se como vítima de uma campanha destinada a desacreditá-lo. Mas as fotos dialogando com oficiais da Seguridad e sobretudo aquela em que recebe de um coronel, por serviços prestados, a condecoração do Ministério do Interior secaram-lhe a garganta. Meteu os pés pelas mãos.
Elizardo Sanchez, o camaleão da «dissidência», recebido como grande senhor por Aznar e Mário Soares, é politicamente um homem destruído.
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(1) Arleen Rodriguez e Lazaro Barredo, El Camaján, 70 pgs, Ed.Politica, La Habana, 2003
Elizardo Sanchez, pela vida, pelo discurso e pelo comportamento social, foi, desde a juventude, um aventureiro pronto para mudar de ideias e de projecto. Vocacionalmente camaleão, a ética e as ideias nunca contaram para ele. Mudou sempre exclusivamente em função de interesses pessoais.
Em 1959, após a vitória da Revolução, inscreveu-se no Partido Socialista Popular. Falava como um comunista ortodoxo. Em 1962, era funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros quando descobriu em si a vocação da ideologia e conseguiu ser nomeado professor de Filosofia Marxista na Universidade de Havana. Não aqueceu o lugar. Dois anos depois os colegas pediram o seu afastamento. Era ultra esquerdista, dogmático, auto-suficiente, arrogante. Ligou-se à chamada «microfacção» que na época acusou os líderes da revolução de constituírem «uma elite pequeno burguesa que punha em perigo o rumo socialista do processo».
Documentação reunida mais tarde pela Contra Inteligência cubana comprova, entretanto, que os seus primeiros contactos com serviços de espionagem dos EUA datam, por iniciativa própria, dessa época. Denunciou então à CIA companheiros da «microfacção».
Mudou rapidamente de ideologia. Renunciou ao marxismo para adoptar os ideais da social democracia liberal. Sob a direcção do Escritório de Interesses dos EUA em Havana, transformou-se num apologista do capitalismo. Elizardo, aplaudido por Washington e pela mafia de Miami, iniciou a sua cruzada contra-revolucionária. Em 1987 fundou a chamada Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional. Autonomeando-se presidente dessa organização fantasma, envolveu-se em diferentes conspirações. Acabou na prisão em 90. Após cumprir uma pena leve, criou no ano seguinte, com financiamento da CIA e ajuda do seu amigo Carlos Montaner – a Concertacion Democrática Cubana.
Em 1993 foi recebido cordialmente na Europa por Felipe Gonzalez e Mário Soares. Em 1996 a mafia de Miami aclamou-o como um herói. Em Paris recebeu um prémio e, posteriormente em Madrid, Aznar saudou nele um campeão na luta pelos direitos humanos.
Em 1999, noutra tournée europeia encontrou-se com destacados dirigentes políticos da Grã Bretanha, da Alemanha, da Itália e, obviamente, da Espanha. Pronunciou numerosas conferências (bem pagas).
Ao findar o século Elizardo Sanchez projectava a nível internacional a imagem do líder incontestado dos «dissidentes» cubanos.
O agente secreto
A partir de meados da década de 90, Elizardo alterou o discurso, procurando transmitir a ideia de que é um conciliador. Em entrevistas passou a defender «a necessidade da participação de Fidel Castro numa fase de transição para a democracia, e inclusive que a dirija».
Em 1997 entrou em contacto com a Segurança do Estado em Havana. Em 13 de Dezembro desse ano realizou-se o primeiro de uma série de encontros secretos.
Elizardo, espontaneamente expressou o desejo de colaborar com o Governo da República e de cumprir tarefas atribuídas pela Segurança do Estado, em Cuba e no estrangeiro.
Nos cinco anos seguintes, o agente Juana - seu nome de código na Seguridad - proporcionou informações de grande valor sobre diplomatas e jornalistas estrangeiros (nomeadamente norte-americanos e espanhóis), sobre pessoas ligadas a serviços especiais anti-cubanos, cabecilhas de grupos contra-revolucionários, etc. Em encontros sempre secretos revelou conversas mantidas nos EUA com altas personalidades do establishment, incluindo Otto Reich e membros do Congresso, etc.
O governo cubano e a Segurança do Estado aperceberam-se desde o início de que Elizardo Sanchez desenvolvia um jogo duplo, próprio da sua mentalidade de camaleão.
Os responsáveis pela contra-espionagem acompanharam desde o início com a máxima cautela os contactos com Elizardo, sem ilusões quanto aos seus objectivos. Como sublinham os autores do livro, «a sua atitude parecia responder a uma velha táctica usada pelo seu amigo Vaclav Havel, o qual, como se soube depois, recorreu a um modus operandi similar perante os serviços especiais checoslovacos».
Mas para incutir confiança em Elizardo, a Seguridad deu seguimento a alguns dos seus pedidos. Voltou à Universidade, não como professor mas como bibliotecário; ofereceram-lhe (e à companheira) férias de luxo no México e noutros lugares; sugestões suas relacionadas com a situação de contra revolucionários presos foram total ou parcialmente atendidas.
Para se avaliar o nível da colaboração prestada pelo líder dos «dissidentes» vale a pena recordar que identificou na visita do Papa «um perigo devido à tendência anticomunista de João Paulo II».
Quando um coronel entregou a Elizardo Sanchez uma alta condecoração que lhe fora atribuída pelo Ministério do Interior, o veterano contra-revolucionário terá, quem sabe, admitido que havia, de uma vez por todas, enganado os responsáveis do Estado cubano.
Pura ilusão. Os encontros secretos do agente Juana - depois Eduardo e finalmente Pestana - eram fotografados. O livro ora editado inclui dezenas de fotografias e cartas e outros documentos altamente comprometedores para o farsante Elizardo.
No desempenho do seu papel autêntico, o líder da «dissidência» levava uma dolce vita num país de escassez, a Cuba bloqueada.
Somente dos EUA recebeu mais de 200 000 dólares. A Agência Espanhola de Cooperação Internacional deu-lhe 50 000 para fomentar a contra-revolução na Ilha. Uma quantia equivalente chegou-lhe através da Embaixada da Noruega. Existem provas documentais que não podem ser desmentidas.
No último ano, o agente Juana - Eduardo - Pestana distanciou-se. A apresentação nos julgamentos dos «dissidentes» como agentes da Segurança infiltrados nos grupelhos contra-revolucionários terá assustado Elizardo. Ele sentiu-se sempre um falso agente.
O livro El Camajuan mostrou agora Elizardo, tal como é, sem máscara.
Na própria noite do lançamento, os correspondentes estrangeiros - alguns por ele denunciados - invadiram-lhe a casa. O escândalo tornou-se assunto das grandes cadeias de televisão internacionais.
Elizardo tentou negar a evidência. Apresentou-se como vítima de uma campanha destinada a desacreditá-lo. Mas as fotos dialogando com oficiais da Seguridad e sobretudo aquela em que recebe de um coronel, por serviços prestados, a condecoração do Ministério do Interior secaram-lhe a garganta. Meteu os pés pelas mãos.
Elizardo Sanchez, o camaleão da «dissidência», recebido como grande senhor por Aznar e Mário Soares, é politicamente um homem destruído.
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(1) Arleen Rodriguez e Lazaro Barredo, El Camaján, 70 pgs, Ed.Politica, La Habana, 2003