Redescobrir a fotografia redescobrindo Carlos Relvas (1)

Manuel Augusto Araújo
Organizada por temas, a exposição «Carlos Relvas e a Casa da Fotografia» dá uma visão nova deste fotógrafo que foi um dos mais importantes da sua época. Pela primeira vez são expostas quase quatrocentas provas fotográficas, mais de uma centena de provas de autor e mais de duas centenas de impressões actuais, o que só é possível por se enquadrar no trabalho sistemático de investigação, tratamento e classificação do espólio de Carlos Relvas - que está a ser realizado por Vitória Mesquita e José Pessoa, do Departamento de Documentação Fotográfica do IPM - existente no estúdio do fotógrafo no Ribatejo e que reúne cerca de dez mil negativos em vidro e duas mil provas de autor, o que é uma grande colecção a nível mundial e que tem uma enorme importância para a história da fotografia por Carlos Relvas ser um dos mais conceituados fotógrafos europeus da sua época não só do ponto vista artístico mas também do ponto de vista técnico-científico, tendo dado importantes contributos para a evolução dessa, na altura, emergente arte.
A visão de conjunto da obra fotográfica de Carlos Relvas que esta exposição oferece é um acontecimento extraordinário para a história da fotografia nacional e europeia. Relvas estava esquecido mas não é de modo nenhum um desconhecido, várias exposições e referências em histórias da fotografia já tinham chamado a atenção para este «photographe amatheur», mas só agora se começa a obter uma perspectiva global da sua obra e os comissários desta exposição chamam a atenção para o muito trabalho ainda a fazer com o espólio que têm entre mãos e que retornará ao estúdio fotográfico de Carlos Relvas na Golegã, que está a ser restaurado sob direcção do IPPAR pelos arquitectos Vítor Mestre e Sofia Aleixo. Esse trabalho e a catalogação de outros elementos dispersos irão finalmente colocar Carlos Relvas no lugar que deve ocupar por mérito próprio entre os mais destacados praticantes da arte fotográfica seus contemporâneos.
A exposição foi organizada temáticamente, o que permite uma visão mais precisa da arte de Carlos Relvas. Um dos núcleos é o seu estúdio fotográfico. É outra raridade legada por esta personagem incontornável na história da fotografia. Raridade por ser na Europa, agora depois de recuperado e logo quando se devolverem aos seus lugares todo o equipamento original, o mais bem conservado e apetrechado estúdio fotográfico do século XIX, o único construído de raiz e o único em que é possível seguir as fases da sua construção que foram fotografadas pelo seu proprietário o que é elucidativo dos objectivos deste amador e amante da fotografia que investiu parte da sua fortuna na edificação de um palácio à fotografia onde a poderia praticar usando meios a que muito poucos, na época, poderiam aceder.

Auto-retratos

Surpreendente e merecedor de uma análise detalhada são a série de auto-retratos. Relvas variando muito os trajes e o ambiente que envolve o auto-retratado, desde o aparentemente mais simples ao mais elaborado cenário, desde o apresentar-se seminu às várias vestes que enverga com garbo, tem sempre um olhar e uma pose, com uma única excepção que talvez não seja tão exterior aos propósitos das outras fotos quanto se possa pensar a uma primeira vista, que revelam uma grande determinação em alcançar os objectivos que decidia perseguir e um não menor narcisismo, narcisismo de quem era e sabia ser o centro do seu mundo rural e que o retrata com uma profundidade que os torna em documentos imprescindíveis para o estudo da sua época. Essa uma das contradições deste homem por um lado moderno e mundano, percorrendo, expondo e sendo premiado em salões fotográficos na Europa, participando em júris e comissões organizadoras de salões fotográficos internacionais e por outro bem agarrado à sua terra, a Golegã, e às tradições.
Mas todos os outros núcleos em que os comissários organizaram a exposição, monumentos e património, paisagem, animais, retratos e género são notáveis. As fotografias são de uma extrema precisão e de uma modernidade verdadeiramente extraordinária expondo com clareza nos enquadramentos, nas profundidades de campo, nas variações tonais, as intenções e os gostos do fotógrafo.
Com esta exposição regressamos a Carlos Relvas através da sua obra esperando o muito por descobrir deste amador fotográfico que, na época, foi um dos mais importantes e considerados fotógrafos da Europa para cair no injusto esquecimento a que esta exposição o arrancou e que irá certamente dar continuidade sustentada a um trabalho de redescoberta.
Uma última nota para o magnífico e bem documentado catálogo, peça indispensável para conhecer e apreciar Carlos Relvas.
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Carlos Relvas e a Casa da Fotografia
- comissários Vitória Mesquita e José Pessoa
Museu Nacional de Arte Antiga
até 26 de Outubro



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