Bush mentiu para atacar o Iraque
Dos argumentos invocados por Washington e Londres para o ataque ao Iraque nada resta. Bush e Blair enjeitam culpas e arranjam um bode expiatório.
George Tenet veio a semana passada assumir a responsa-bilidade
A afirmação de Bush, inserida no discurso proferido em Janeiro sobre o estado da União, de que o Iraque estava a tentar obter urânio em África para a produção de armas nucleares, é falsa, como falsas foram as acusações sobre as alegadas armas de destruição maciça na posse do regime iraquiano, ou as pretensas ligações aos terroristas da Al’Qaeda.
À medida que a verdade começa a vir à tona, sucedem-se as cenas do «lavar de mãos» e «sacudir água do capote», as reafirmações de inocência e as garantias de tudo ter sido feito nas melhores das intenções.
Para salvar Bush, o director da CIA, George Tenet, veio a semana passada assumir a responsabilidade pela mentira no respeitante ao urânio. «O presidente tinha todas as razões para acreditar que o texto que lhe foi apresentado estava correcto. Aquelas 16 palavras nunca deveriam ter sido incluídas no discurso», afirmou Tenet, referindo-se à parte em que Bush diz que «o governo britânico descobriu que Saddam Hussein procurou recentemente obter quantidades significativas de urânio em África».
A desculpa não engana ninguém, tanto mais que, em Setembro do ano passado, a CIA tentou justamente convencer as autoridades britânicas a retirar tais acusações dos seus documentos, uma vez que as investigações efectuadas pela própria CIA haviam levado à conclusão de que se baseavam em documentos falsos. O caso chegou mesmo a vir a público, sendo denunciado nas Nações Unidas, mas isso não impediu Bush de incluir as referências ao urânio no seu discurso de Janeiro, embora remetendo a responsabilidade da informação para os seus aliados britânicos. Um subterfúgio pouco inteligente mas eficaz face aos objectivos a atingir: assustar a opinião pública com a possibilidade de Saddam ser uma ameaça nuclear para a humanidade.
É sintomático que tanto o Washington Post como as cadeias de televisão CNN e ABC tenham já lembrado que a CIA informou que a referida declaração era falsa antes do discurso de Bush.
Não menos significativo é o facto de a Casa Branca ter esperado tanto tempo - três meses passaram desde a tomada de Bagdad - para reconhecer o «erro», o que está a provocar «interrogações preocupantes» aos deputados norte-americanos.
Numa carta dirigida a Bush por congressistas democratas, pergunta-se: «Que garantia pode ter o Congresso e o povo norte-americano de que as outras afirmações que fez no seu discurso à nação sobre os programas de armas de destruição maciça iraquianos estão baseadas em informações e análises sólidas dos serviços de espionagem?» Bush não respondeu.
Também o antigo assessor de Segurança Nacional, Brzezinski, veio lembrar que as acusações de enganar o povo são «extremamente sérias». Em entrevista à CBS, Brzezinski deixou no ar outra questão: «da próxima vez que dissermos que um país tem armas de destruição maciça, quem nos vai acreditar?».
A polémica está instalada nos EUA, como seria de esperar em vésperas de ano de eleições. Para o Iraque, entretanto, a situação mantém-se inalterável: destruído, ocupado e administrado por forças estrangeiras, que acabam de declarar feriado nacional o dia em que os EUA hastearam a bandeira americana em Bagdad.
11 de Setembro
Relatório «explosivo»
A administração Bush foi alertada em devido tempo para um «ataque espectacular» da Al’Qaeda, e a organização terrorista de Osama ben Laden foi financiada pela Arábia Saudita. Estas duas das conclusões do relatório de 800 páginas sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001 contra Nova Iorque e Washington, cuja divulgação tem estado a ser negociada entre a Casa Branca e o Congresso.
A informação, veiculada pelas agências internacionais, foi avançada a semana passada por uma fonte não identificada ligada à investigação, que aponta duas «áreas sensíveis» no documento, incluindo algo comum à família real saudita, membros do governo norte-americano e os terroristas.
Segundo o democrata Tim Roemer, representante de Indiana, o documento é «altamente explosivo». Trata-se de um relatório «convincente e explosivo que atrairá novamente a atenção pública sobre o 11 de Setembro», disse Roemer, manifestando a sua convicção de que «certos erros e falhas no sistema serão esclarecidos». Uma parte do documento é justamente dedicada às advertências dos serviços de espionagem, que terão sido ignoradas ou não partilhadas com outros serviços, o que demonstrará que altos responsáveis da administração Bush foram alertados sobre os planos da Al’Qaeda de levar a cabo um «ataque espectacular».
No respeitante aos financiamentos da organização terrorista, atribuídos pela Casa Branca ao Iraque, Síria e Irão, entre outros, não parece haver margem para equívocos. Segundo John Lehman, membro da Comissão Nacional Independente sobre os Ataques Terroristas, «há poucas dúvidas de que parte dos fundos dos grupos terroristas - de forma intencional ou não - veio de fontes sauditas».
As autoridades norte-americanas estão empenhadas em fazer esbater o previsível impacto do relatório. A própria directora da comissão de investigação criada pelo Congresso, Eleanor Hill, reconheceu a semana passada ter sido feito um acordo com a Casa Branca sobre a quantidade de material secreto posto à disposição para a elaboração do documento.
Documento embargado
Entretanto, um relatório da comissão nomeada pelo Senado e pela Câmara dos Representantes sobre a Al’Qaeda concluiu que a organização treinou pelo menos 70 mil terroristas que estão agora espalhados por vários países, incluindo os EUA.
A informação foi dada pelo senador Bob Graham, o membro democrata da comissão dos serviços secretos que elaborou o relatório. O documento está pronto há sete meses, mas a sua divulgação foi embargada pela administração Bush, a pretexto de que a CIA e o FBI têm de o rever para garantir que não será publicada informação susceptível de pôr em causa a segurança nacional.
A argumentação não convence Graham, candidato às presidenciais de 2004, nem os seus correligionários, que consideram já ter havido tempo bastante para rever o relatório, e acusam a Casa Branca de estar a tentar evitar as consequências que o mesmo terá junto da opinião pública. Graham acusa ainda a administração Bush de ter privilegiado o ataque ao Iraque e descurado o combate ao terrorismo. «Permitimos que a Al’Qaeda se reorganizasse e voltasse a atacar interesses americanos no estrangeiros», disse o senador.
Recorda-se que os atentados de 11 de Setembro serviram de pretexto aos EUA para a invasão do Afeganistão, para a aprovação de uma série de leis altamente restritivas dos direitos fundamentais dos cidadãos, tanto nos EUA como na Europa, e para a cruzada da administração Bush «contra o terrorismo», que serviu também para justificar a invasão do Iraque.
A guerra está a ficar cara
A guerra e a ocupação do Iraque já custaram aos EUA cerca de 50 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 14 por cento das despesas com a Defesa previstas para este ano, revelou a edição de domingo do Washington Post.
Segundo o jornal, o preço da ocupação poderá duplicar até finais de 2004, ao contrário do inicialmente previsto pela administração Bush. O orçamento da Defesa dos Estados Unidos para 2004 é de 400,5 mil milhões de dólares, o que representa 20 por cento do total do orçamento federal.
Bem mais difícil de contornar do que os gastos com a ocupação está a ser o preço em vidas humanas que os EUA estão a pagar pela aventura no Iraque. Desde que Bush declarou o fim das hostilidades, em Maio, já morreram mais de oito dezenas de norte-americanos e um número indeterminado ficou ferido, e todos os dias se registam novos atentados contra os ocupantes.
Uma sondagem divulgada no domingo pelo Washington Post e pela rede de televisão ABC revela que a popularidade de Bush está em queda (menos 9 pontos nas últimas duas semanas, situando-se em 59 por cento), o mesmo sucedendo no respeitante ao apoio à política sobre o Iraque (58 por cento).
A maioria dos norte-americanos - 52 por cento - considera que há «um nível inaceitável» de baixas no Iraque (um aumento de 8 pontos percentuais em três semanas), e cerca de 40 por cento afirma agora não ter valido a pena a invasão do Iraque. Em finais de Abril, apenas 27 por cento tinha essa opinião. Igualmente significativo é o facto de 41 por cento dos norte-americanos ter actualmente uma opinião negativa sobre a forma como a Casa Branca está a gerir a situação no Iraque, quando em Abril os que pensavam assim representavam apenas 22 por cento.
Continua a não haver dados disponíveis sobre as vítimas iraquianas causadas pela pax americana.
À medida que a verdade começa a vir à tona, sucedem-se as cenas do «lavar de mãos» e «sacudir água do capote», as reafirmações de inocência e as garantias de tudo ter sido feito nas melhores das intenções.
Para salvar Bush, o director da CIA, George Tenet, veio a semana passada assumir a responsabilidade pela mentira no respeitante ao urânio. «O presidente tinha todas as razões para acreditar que o texto que lhe foi apresentado estava correcto. Aquelas 16 palavras nunca deveriam ter sido incluídas no discurso», afirmou Tenet, referindo-se à parte em que Bush diz que «o governo britânico descobriu que Saddam Hussein procurou recentemente obter quantidades significativas de urânio em África».
A desculpa não engana ninguém, tanto mais que, em Setembro do ano passado, a CIA tentou justamente convencer as autoridades britânicas a retirar tais acusações dos seus documentos, uma vez que as investigações efectuadas pela própria CIA haviam levado à conclusão de que se baseavam em documentos falsos. O caso chegou mesmo a vir a público, sendo denunciado nas Nações Unidas, mas isso não impediu Bush de incluir as referências ao urânio no seu discurso de Janeiro, embora remetendo a responsabilidade da informação para os seus aliados britânicos. Um subterfúgio pouco inteligente mas eficaz face aos objectivos a atingir: assustar a opinião pública com a possibilidade de Saddam ser uma ameaça nuclear para a humanidade.
É sintomático que tanto o Washington Post como as cadeias de televisão CNN e ABC tenham já lembrado que a CIA informou que a referida declaração era falsa antes do discurso de Bush.
Não menos significativo é o facto de a Casa Branca ter esperado tanto tempo - três meses passaram desde a tomada de Bagdad - para reconhecer o «erro», o que está a provocar «interrogações preocupantes» aos deputados norte-americanos.
Numa carta dirigida a Bush por congressistas democratas, pergunta-se: «Que garantia pode ter o Congresso e o povo norte-americano de que as outras afirmações que fez no seu discurso à nação sobre os programas de armas de destruição maciça iraquianos estão baseadas em informações e análises sólidas dos serviços de espionagem?» Bush não respondeu.
Também o antigo assessor de Segurança Nacional, Brzezinski, veio lembrar que as acusações de enganar o povo são «extremamente sérias». Em entrevista à CBS, Brzezinski deixou no ar outra questão: «da próxima vez que dissermos que um país tem armas de destruição maciça, quem nos vai acreditar?».
A polémica está instalada nos EUA, como seria de esperar em vésperas de ano de eleições. Para o Iraque, entretanto, a situação mantém-se inalterável: destruído, ocupado e administrado por forças estrangeiras, que acabam de declarar feriado nacional o dia em que os EUA hastearam a bandeira americana em Bagdad.
11 de Setembro
Relatório «explosivo»
A administração Bush foi alertada em devido tempo para um «ataque espectacular» da Al’Qaeda, e a organização terrorista de Osama ben Laden foi financiada pela Arábia Saudita. Estas duas das conclusões do relatório de 800 páginas sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001 contra Nova Iorque e Washington, cuja divulgação tem estado a ser negociada entre a Casa Branca e o Congresso.
A informação, veiculada pelas agências internacionais, foi avançada a semana passada por uma fonte não identificada ligada à investigação, que aponta duas «áreas sensíveis» no documento, incluindo algo comum à família real saudita, membros do governo norte-americano e os terroristas.
Segundo o democrata Tim Roemer, representante de Indiana, o documento é «altamente explosivo». Trata-se de um relatório «convincente e explosivo que atrairá novamente a atenção pública sobre o 11 de Setembro», disse Roemer, manifestando a sua convicção de que «certos erros e falhas no sistema serão esclarecidos». Uma parte do documento é justamente dedicada às advertências dos serviços de espionagem, que terão sido ignoradas ou não partilhadas com outros serviços, o que demonstrará que altos responsáveis da administração Bush foram alertados sobre os planos da Al’Qaeda de levar a cabo um «ataque espectacular».
No respeitante aos financiamentos da organização terrorista, atribuídos pela Casa Branca ao Iraque, Síria e Irão, entre outros, não parece haver margem para equívocos. Segundo John Lehman, membro da Comissão Nacional Independente sobre os Ataques Terroristas, «há poucas dúvidas de que parte dos fundos dos grupos terroristas - de forma intencional ou não - veio de fontes sauditas».
As autoridades norte-americanas estão empenhadas em fazer esbater o previsível impacto do relatório. A própria directora da comissão de investigação criada pelo Congresso, Eleanor Hill, reconheceu a semana passada ter sido feito um acordo com a Casa Branca sobre a quantidade de material secreto posto à disposição para a elaboração do documento.
Documento embargado
Entretanto, um relatório da comissão nomeada pelo Senado e pela Câmara dos Representantes sobre a Al’Qaeda concluiu que a organização treinou pelo menos 70 mil terroristas que estão agora espalhados por vários países, incluindo os EUA.
A informação foi dada pelo senador Bob Graham, o membro democrata da comissão dos serviços secretos que elaborou o relatório. O documento está pronto há sete meses, mas a sua divulgação foi embargada pela administração Bush, a pretexto de que a CIA e o FBI têm de o rever para garantir que não será publicada informação susceptível de pôr em causa a segurança nacional.
A argumentação não convence Graham, candidato às presidenciais de 2004, nem os seus correligionários, que consideram já ter havido tempo bastante para rever o relatório, e acusam a Casa Branca de estar a tentar evitar as consequências que o mesmo terá junto da opinião pública. Graham acusa ainda a administração Bush de ter privilegiado o ataque ao Iraque e descurado o combate ao terrorismo. «Permitimos que a Al’Qaeda se reorganizasse e voltasse a atacar interesses americanos no estrangeiros», disse o senador.
Recorda-se que os atentados de 11 de Setembro serviram de pretexto aos EUA para a invasão do Afeganistão, para a aprovação de uma série de leis altamente restritivas dos direitos fundamentais dos cidadãos, tanto nos EUA como na Europa, e para a cruzada da administração Bush «contra o terrorismo», que serviu também para justificar a invasão do Iraque.
A guerra está a ficar cara
A guerra e a ocupação do Iraque já custaram aos EUA cerca de 50 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 14 por cento das despesas com a Defesa previstas para este ano, revelou a edição de domingo do Washington Post.
Segundo o jornal, o preço da ocupação poderá duplicar até finais de 2004, ao contrário do inicialmente previsto pela administração Bush. O orçamento da Defesa dos Estados Unidos para 2004 é de 400,5 mil milhões de dólares, o que representa 20 por cento do total do orçamento federal.
Bem mais difícil de contornar do que os gastos com a ocupação está a ser o preço em vidas humanas que os EUA estão a pagar pela aventura no Iraque. Desde que Bush declarou o fim das hostilidades, em Maio, já morreram mais de oito dezenas de norte-americanos e um número indeterminado ficou ferido, e todos os dias se registam novos atentados contra os ocupantes.
Uma sondagem divulgada no domingo pelo Washington Post e pela rede de televisão ABC revela que a popularidade de Bush está em queda (menos 9 pontos nas últimas duas semanas, situando-se em 59 por cento), o mesmo sucedendo no respeitante ao apoio à política sobre o Iraque (58 por cento).
A maioria dos norte-americanos - 52 por cento - considera que há «um nível inaceitável» de baixas no Iraque (um aumento de 8 pontos percentuais em três semanas), e cerca de 40 por cento afirma agora não ter valido a pena a invasão do Iraque. Em finais de Abril, apenas 27 por cento tinha essa opinião. Igualmente significativo é o facto de 41 por cento dos norte-americanos ter actualmente uma opinião negativa sobre a forma como a Casa Branca está a gerir a situação no Iraque, quando em Abril os que pensavam assim representavam apenas 22 por cento.
Continua a não haver dados disponíveis sobre as vítimas iraquianas causadas pela pax americana.