«Incómodos»

Henrique Custódio
Há cerca de uma semana, o secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, respondeu assim à questão que lhe colocaram sobre a possibilidade de fuga de Fátima Felgueiras: «Incomoda-me mais que haja na Assembleia da República um deputado que a maioria impediu que fosse depor, porque, inclusivamente, desse processo poderia resultar uma prisão preventiva».
Obviamente, o secretário-geral do PS referia-se à situação do deputado do PSD Cruz Silva, a quem a maioria parlamentar PSD/CDS «salvou» (por enquanto…) de uma eventual detenção preventiva decretada pela juíza que preside à investigação de peculato e corrupção na câmara de Águeda.
Nesse âmbito, a magistrada havia solicitado recentemente o levantamento da imunidade parlamentar deste deputado «laranja» para que ele fosse ouvido e sujeito à aplicação de medidas de coacção, dado ser um suspeito de primeiro plano no escândalo, como ex-autarca acusado de envolvimento directo nos actos de peculato e corrupção em investigação naquela autarquia; a maioria PSD/CDS «salvou» Cruz Silva (por enquanto, repita-se), recusando o levantamento da sua imunidade parlamentar e apenas admitindo que ele deponha «por escrito».
Se é admissível que Ferro Rodrigues manifeste «incomodidade» por tão flagrante compadrio político patenteado pela maioria PSD/CDS, ao eximir tão descaradamente um seu correligionário da investigação judicial, já não se lhe admite que desvalorize ou, pior ainda, ignore a gravidade do caso Fátima Felgueiras.
A não ser que Ferro Rodrigues entenda – o que não nos parece provável – que os pecados do vizinho anulam os próprios, numa enviesada demonstração de que o secretário-geral do PS descortina o argueiro no olho do próximo e não dá pelo tronco que lhe atravanca a própria vista.
Na verdade, o «caso Fátima Felgueiras» é muito grave e profundamente lamentável não apenas para a democracia portuguesa mas, também, para o PS.
Não porque a senhora, agora fugitiva declarada, seja militante, dirigente e eleita do Partido Socialista. Essa múltipla qualidade, por si só, não responsabiliza o partido pelos actos praticados por Fátima Felgueiras.
A direcção do Partido Socialista é que se responsabilizou pelos actos autárquicos de Fátima Felgueiras, a partir do momento em que lhe passou a dar não apenas cobertura política, mas expresso apoio à sua actividade autárquica depois de esta, há mais de dois anos, ter sido apontada como suspeita e constituída arguida pela justiça, sob graves acusações de corrupção e nepotismo.
Só para ilustração, toda a gente se lembra dos inflamados discursos de Narciso Miranda, como responsável máximo do PS/Porto, a defender a recandidatura de Fátima Felgueiras pelo PS nas últimas eleições autárquicas, apesar desta se encontrar já indiciada pelos tribunais, com graves acusações impendendo sobre a sua gestão camarária.
Agora Fátima Felgueiras fugiu e Ferro Rodrigues não pode, simplesmente, apontar para a corrupção que desponta em Águeda e «incomodar-se», em exclusivo, com a protecção dada pela maioria governamental a um adversário, num caso semelhante ao de Felgueiras.
E não o incomoda a protecção dada pelo Partido Socialista a Fátima Felgueiras?
É que se Ferro Rodrigues se «incomoda» com a protecção dada a Cruz Silva porque se trata de um processo donde «poderia resultar uma prisão preventiva», muito mais se deveria incomodar com a fuga de Fátima Felgueiras, que concretiza uma evasão efectiva à mesma prisão preventiva…
É claro que o PSD não se encontra em melhor posição que o PS, neste assobiar para o ar perante escândalos autárquicos: a protecção parlamentar a Cruz Silva também configura uma inacreditável falta de escrúpulos e de vergonha.
Assim, não é por acaso que o PS e o PSD tanto se assemelham (também) nesta questão: politicamente, ambos praticam a mesma falta de escrúpulos, quer nas propostas quer nos funcionamentos autárquicos…


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