Enquanto o Iraque agoniza, os senhores da guerra preparam-se para dividir o bolo

A partilha do espólio

A guerra ainda não acabou, mas na arena política internacional já se disputa o saque do que todos dizem pertencer aos iraquianos: a independência e o petróleo.
Uns falam de ajuda humanitária e outros da necessidade de recolocar a «questão do Iraque» no âmbito das Nações Unidas, mas o que na prática está em debate é a partilha do espólio iraquiano no futuro próximo, sobretudo desde que se soube que os EUA acordaram com empresas norte-americanas a chamada «reconstrução» do Iraque.
O encontro que no fim-de-semana reuniu em Paris os ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, França e Rússia - Joschka Fischer, Dominique de Villepin, e Igor Ivanov, respectivamente -, é sintomático dos receios que estes parceiros europeus dos EUA têm de ficar de fora.
Deter a guerra e resolver os problemas humanitários são, segundo disse Igor Ivanov na conferência de imprensa conjunta, as prioridades de momento, sendo «prematuro» falar das «modalidades do pós-guerra». Villepin e Fischer, no entanto, puseram a tónica na questão humanitária e, apesar de o ministro alemão se ter referido à «enorme identidade de pontos de vista entre os europeus sobre o papel essencial da ONU», a verdade é que do encontro não saiu nenhuma posição comum sobre o assunto. E isto apesar de Joshka Fischer ter afirmado que «a urgência humanitária, a garantia da integridade territorial do Iraque, a luta contra o terrorismo, a estabilidade regional», só poderão ter sucesso com «uma iniciativa legitimada pelas Nações Unidas». Por outro lado, se é certo que Villepin rejeitou a ideia de que «o Iraque possa ser uma espécie de Eldorado, um bolo que os Estados partilhem», não é menos certo que na Europa está a aumentar o nervosismo com as notícias que chegam de Washington.

Quem paga, manda

A mensagem que Colin Powell levou a Bruxelas, a semana passada, quanto ao pós-guerra, é de resto bastante clara.
«Haverá certamente um papel para as Nações Unidas, mas a natureza exacta desse papel ainda está por definir», disse Powell, acrescentando ser de opinião «que a coligação (EUA e Grã-Bretanha) deve manter o papel principal para determinar o caminho a seguir».
O secretário de Estado norte-americano foi ainda mais explícito quando afirmou que, no entender dos EUA, «quem empreendeu esta difícil missão e paga por ela o preço político, o preço financeiro e o preço em vidas» deve desempenhar o «papel determinante» na definição do futuro do Iraque. Eventuais objecções dos parceiros europeus não preocupam os EUA, pois como disse Powell, «no final será a realidade (300 mil soldados norte-americanos e ingleses no terreno) que há-de levar a melhor».
Bush e Blair, na sua cimeira de anteontem na Irlanda, confirmaram as palavras de Powell. Questionado sobre qual seria o papel da ONU, Bush respondeu que seria «um papel vital». Pressionado a esclarecer o que entendia por vital, o presidente norte-americano limitou-se a dizer que «um papel vital era... um papel vital». Blair confirmou.

Mais 80 mil milhões
para a guerra

Inequívoco é o apoio da Câmara dos Representantes e do Senado dos EUA ao «esforço de guerra», expresso na aprovação do orçamento suplementar de 77,9 mil milhões de dólares para a «reconstrução» do Iraque.
Do total aprovado, cerca de 60 mil milhões são destinado à guerra, e os restantes a «apoiar» os aliados, os «esforços antiterroristas» e o sector das indústrias aéreas, prejudicado por toda esta situação.
De registar que a Câmara dos Representantes aprovou ainda uma emenda que proíbe a participação de empresas da França, Alemanha, Rússia e Síria nos contratos financiados por fundos dos EUA. O Senado votou o orçamento por unanimidade, mas sem a emenda.
Os dois órgãos deverão chegar agora a um texto comum para ser de novo submetido a votação.


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