O Império ataca
«Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência para encher a América de miséria em nome da Liberdade», escrevia o venezuelano Simão Bolívar, em 1826. Uma espreitadela aos jornais venezuelanos presentes na Internet diz-nos quanto de espantosa clarividência houve – e há – nesta frase do ilustre filho de Caracas.
Na continuação dos seus planos criminosos para derrubar o governo de Hugo Chávez e impor um regime dócil aos interesses do império e da oligarquia nacional, que sempre se beneficiou com as migalhas que sobranceiramente lhe atirou o primeiro, a imprensa venezuelana trata, cada vez mais intensamente, de criar um clima propício a uma intervenção militar norte-americana.
A partir das experiências adquiridas com algumas acções imperialistas da segunda metade do século XX – Guatemala, Cuba, Chile, Nicarágua e Panamá – os cipayos (1) locais esperam conseguir por esta via o que lhes tem sido impedido pela mobilização popular bolivariana. O cavalo de batalha destes dias é uma alegada conivência do governo bolivariano com a guerrilha da Colômbia, e tudo indica que esta estratégia forma parte de um terceiro golpe – agora descaradamente internacional – contra Hugo Chávez.
Uma caterva de delinquentes, conformada pelos figurões da patronal, sindicalistas traidores e militares golpistas em liberdade, denuncia orquestradamente essa falácia, ao mesmo tempo que autoridades militares e civis do regime bushista e do governo colombiano, batem desbragadamente a mesma tecla usando, uns e outros, todos os recursos ao seu dispor.
O governo de Álvaro Uribe, a braços com uma luta antiguerrilheira que já se atreve a agir nos centros urbanos, desguarnece a fronteira, mas acusa as autoridades bolivarianas de dar guarida aos revoltosos, enquanto esconde o facto de que o único lado da fronteira vigiado é o venezuelano, onde estão estacionadas «2 divisões, 6 brigadas, 4 comandos regionais da Guarda Nacional, 2 teatros de operação, 84 postos, 3 bases aéreas e 4 comandos fluviais (2)», para um total de 16 mil homens.
Pretendendo impor o Plano Colômbia aos seus vizinhos, o mesmo Uribe quer obrigar o Brasil, Peru e Venezuela a que classifiquem as FARC como terroristas e os três negam-se a tal, não por solidariedade automática com esse ou outro movimento rebelde, mas porque fazendo-o se estariam a excluir de qualquer papel de facilitadores no futuro. Como há ainda uma certa lua-de-mel com Lula da Silva e Lúcio Gutiérrez – circunstancial, obviamente, que o primeiro objectivo agora é a Venezuela, e já lá iremos aos outros dois – crescem as insinuações de vínculos entre Hugo Chávez e movimento guerrilheiro, e de nada serve que, em discurso recente, aquele tenha dito textualmente o seguinte: «Já exigimos à guerrilha que não entre no nosso território e muito menos que se meta com as nossas tropas, porque estamos dispostos a defender a soberania venezuelana. Chame-se como se chame: contraguerrilha, terrorismo, narcotráfico, militares ou paramilitares, na Venezuela ninguém profanará o território sagrado da Pátria (3)». Palavras? Não só. Ainda há bem pouco, uma acção concreta contra um caminhão guerrilheiro na fronteira que, por ir carregado de explosivos, foi entregue às autoridades colombianas.
Mentira e desinformação
Lendo outro jornal (4), ficamos a saber que corre o rumor – outro – de que o lendário Marulanda, também conhecido como Tirofijo, andaria escondido por terras venezuelanas, o que estaria a provocar estragos emocionais em muita gente disposta a acreditar nestes e outros boatos. O cronista que refere esta situação – ainda que alinhando na oposição – tem honestidade suficiente para esclarecer o assunto desta maneira: «As guerrilhas colombianas controlam perto de 60% do território do país, incluindo as remotas, selváticas e quase inacessíveis regiões de Caquetá e Putumayo. Em que cabeça pode caber que vão pôr o seu líder e figura mais emblemática num lugar diferente daquele onde se move totalmente à vontade?»
Outro articulista (5), também muito claramente da oposição, ao mesmo tempo que acusa o discurso presidencial de ter «ambiguidades perigosas», vê-se na necessidade de referir que «durante os governos de AD e Copei (6), a guerrilha utilizou os caminhos de Apure e Táchira, e é conhecido que funcionários civis e militares do Estado venezuelano fizeram trocas ilegais com gregos e troianos». Mais: «Amigos jornalistas já entrevistaram, num passado não muito distante, nos cafés de Caracas, comandantes guerrilheiros, cuja presença era conhecida pela Disip (polícia política, NR)». Ao que se pode entender, isto estava bem; não era ter convergências com a guerrilha… porque não era Chávez quem estava no poder!
A aposta da reacção apátrida é mentir e desinformar, desinformar e mentir. Há cimeira em Bogotá para estudar os problemas da violência na região? Espera-se nela a presença dos países do Pacto Andino e outros vizinhos da Colômbia, assim como delegações dos Estados Unidos e da União Europeia como observadores? Então, os golpistas mediáticos esganiçam-se para «denunciar» que a Venezuela não assistirá. No dia seguinte à reunião, em nota pequena para ver se passa por debaixo da mesa, que, sim senhor, esteve lá o ministro da defesa. Fica o veneno...
Sem apoio suficiente no interior do país para dar a volta às sucessivas situações de derrota, as esperanças da oposição descansam nos Estados Unidos. Os apelos para uma intervenção são cada dia mais despudorados. Mas agora a prioridade do império é o Iraque, assunto sobre o qual nenhum antibolivariano se manifesta. Entretanto, declarações como a do general James T. Hill, chefe do Comando Sul, que, entre outras provocações, afirma que há terroristas de Hamas, Hizbullah e Al Qaeda instalados na Ilha de Margarita, provocam o delírio histérico entre os golpistas, que espreitam uma terceira oportunidade.
Esta é uma guerra onde vale tudo. Chávez está com a guerrilha. Se não estiver com a guerrilha, está com os terroristas árabes. Se não estiver com Bin Laden, está com o narcotráfico. Se não for assim, está com seja-o-que-for. E a vantagem é que ninguém tem de apresentar provas. Bastam as denúncias. Império dixit.
Coleccionáveis
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(…) «… se Bush agir unilateralmente, receio muito que a América perca não só uma oportunidade de construir um Iraque decente mas, o que é mais importante, a eficiência da América como um líder estratégico e moral do mundo livre». Thomas L. Friedman, editorialista «Ainda é confuso para muitos americanos que, num mundo de indivíduos nojentos, estejamos a ponto de bombardear alguém que não nos atacou no 11 de Setembro, que não intercepta os nossos aviões, que não financia a Al Qaeda, que não é o refúgio de Ossama e da sua gente, que não é casa-abrigo de terroristas». Maureen Dowd, articulista. «Agora, sem que a nossa segurança nacional esteja directamente ameaçada, e contrariamente à esmagadora oposição das maioria dos povos e governos do mundo, os Estados Unidos parecem determinados em lançar uma acção militar e diplomática que quase não tem precedente na história das nações civilizadas». (…) «A estatura dos Estados Unidos vai certamente diminuir se nos lançarmos a uma guerra num claro desafio às Nações Unidas». Jimmy Carter, ex presidente dos Estados Unidos «Bush é um presidente muito perigoso…» (…) «Penso que a liberdade está em grave perigo e não é um bom momento para viver nos Estados Unidos». John Moore, realizador de cinema «A Guerra contra o Terrorismo oferece soluções tão pouco complicadas, tão direitinhas e tão gloriosamente simplistas, que me confunde horrivelmente que tenha sido necessário um homem com os miolos de George W. Bush para pensar nelas». Terry Jones, comentarista «Não é verosímil que detrás desta guerra esteja a louvável intenção de ajudar o povo iraquiano a emancipar-se de uma ditadura e forjar uma democracia». (…) «As razoes esgrimidas por Washington para justificar uma acção armada contra o Iraque são débeis e insuficientes». Mario Vargas Llosa, escritor peruano «Actualmente o anti-americanismo na Europa é uma combinação do que a América está a fazer – preparar-se para uma guerra no Iraque – e o que a América é: o país da pena de morte, o país – aos olhos europeus – da arrogância». Dominique Moisi, Instituto Francês de Relações Internacionais. «Creio que esta administração está a dar uma classe magistral de como transformar a ira em ódio». (…) «Sinto que nos meios de comunicação maciça não há espaços de reflexão e debate sobre a guerra na qual estamos a ponto de entrar». (…) «Quais são os Estados Unidos que estamos a proteger?» Sean Penn, actor e realizador de cinema «Agora o objectivo é Saddam, e é verdade que tem sido brutal e uma ameaça durante 25 anos – especialmente nos 80 quando Don Rumsfeld estava de amores com ele em Bagdade e os EUA lhe estavam a fornecer antraz». Nicholas D. Kristoff, analista político «Se há um país que já cometeu atrocidades inenarráveis no mundo, esse é Estados Unidos». Nelson Mandela, ex presidente da África do Sul «Poremos a OPEP de joelhos». Ronald Reagan, ex actor de cinema |
(1) Vocábulo criado a partir do persa sipahi que, na Índia colonial, se referia aos nacionais que estavam ao serviço dos amos ingleses.
(2) Declarações do deputado Fernando Ameliach, militar reformado, a El Nacional, 10 de Março de 2003.
(3) Panorama, mesma data.
(4) Tal Cual, mesma data.
(5) El Nacional, mesma data.
(6) AD, partido social-democrata; Copei, democrata-cristão, ambos já várias vezes no governo.