Retratos do trabalho - 8

Isabel Araújo Branco (texto)
Jorge Cabral (Fotos)

 

Su­sana Branco,
ac­triz


Viver mil vidas de uma vez

«O te­atro surgiu como um grande in­cen­tivo de vida, porque me re­di­men­siona para ou­tros lu­gares», afirma Su­sana Branco, ac­triz, de 24 anos. Na­tural de Elvas, está no úl­timo ano da li­cen­ci­a­tura de For­mação de Ac­tores no Con­ser­va­tório Na­ci­onal, mas já apre­senta um cur­rí­culo res­pei­tável.

Fez parte do Grupo de Te­atro da Fa­cul­dade de Le­tras de Lisboa e da Com­pa­nhia Te­a­tral do Chiado, par­ti­cipou nos filmes «Ras­ganço» e «Rádio Re­lâm­pago», tra­balha re­gu­lar­mente com «O Bando» e já ga­nhou dois pré­mios com a com­pa­nhia que in­tegra jun­ta­mente com Ma­falda Sa­loio, o «Lugar Vagon». Pri­meiro foi o Prémio de Re­po­sição do Clube Por­tu­guês de Artes e Ideias, em 2000, com a peça que deu origem ao nome da com­pa­nhia, e no ano pas­sado, uma Menção Hon­rosa no Con­curso de Te­atro da Dé­cada com «Vou Vai Ando».

«Já não se co­loca a dú­vida sobre se quero con­ti­nuar no te­atro, mas há vá­rias formas de estar. O que me in­te­ressa é viver pro­cessos in­te­res­santes, criar coisas que façam sen­tido na so­ci­e­dade», su­blinha Su­sana. Para ela, é im­por­tante in­te­grar um co­lec­tivo, pas­sando uma men­sagem ao pú­blico através do pro­cesso te­a­tral, sa­bendo o que quer trans­mitir e qual a uti­li­dade do que co­mu­nica. «Não me in­te­ressa fazer te­atro para mos­trar um vir­tu­o­sismo de ac­triz», de­clara.

No «Lugar Vagon», Su­sana Branco pro­cura a es­sência da lin­guagem, para que qual­quer pessoa, de qual­quer idade e es­trato so­cial, possa com­pre­ender o que o grupo tem para dizer. «A nossa lin­guagem chega a muita gente, porque passa pelas sen­sa­ções. Sem per­ceber, fui en­trando num jogo te­a­tral que é se­me­lhante ao usado para chegar às cri­anças. Temos de mos­trar can­dura, dar atenção, provar que es­cu­tamos, fazer coisas sur­pre­en­dentes, con­vencer en­can­tando e não di­tando.»

Com esta des­co­berta da lin­guagem, Su­sana faz uma de­núncia in­di­recta dos pro­blemas do mundo. «As coisas são me­lhor aceites se forem ditas de uma forma que en­cante e de ma­neira que o pú­blico viva o que está a ser dito. Acho que a po­esia é a grande re­vo­lução po­lí­tica, como diz Sophia de Mello Breyner An­derson. Cada um tem de viver com aquilo em que acre­dita. Isso é o prin­cipal», de­fende.

Su­sana con­si­dera que «a cul­tura não tem um papel muito im­por­tante em Por­tugal. Há poucos sí­tios onde tra­ba­lhar. Os ac­tores muitas vezes querem ir mais longe.» Além disso, os bi­lhetes são caros e as pes­soas têm pouca dis­po­ni­bi­li­dade para ir ao te­atro. «Com a vida que levam, é normal», adi­anta.

Su­sana re­fere ainda que muitas peças apre­sentam uma lin­guagem que o pú­blico não com­pre­ende por falta de edu­cação te­a­tral e por isso não o sa­tisfaz. Nesse sen­tido, faz a apo­logia de pro­jectos como o do «Te­atro de Mon­te­muro», que adapta as tra­di­ções ru­rais e cria pro­du­ções re­la­ci­o­nadas com os seus es­pec­ta­dores. «São pre­sentes que são dados às pes­soas e lhes animam os dias. O con­vívio e a con­versa foram subs­ti­tuídos pela te­le­visão e o te­atro pode de­volver um es­paço de lazer e di­ver­ti­mento. É um bem pes­soal e co­lec­tivo.»


Aprender com as per­so­na­gens


O actor aprende e ama­du­rece com as ex­pe­ri­ên­cias das per­so­na­gens que vai in­ter­pre­tando. Esta é uma das con­clu­sões a que Su­sana Branco chegou. «O te­atro é es­sen­ci­al­mente uma zona pe­da­gó­gica. De­sem­pe­nhar uma per­so­nagem im­plica me­termo-nos na pele de outra pessoa. Temos de en­tender o seu me­ca­nismo de fun­ci­o­na­mento, a sua forma de pensar, as suas re­ac­ções, mo­ti­va­ções e fra­gi­li­dades. Isso ajuda imenso a de­sen­vol­vermo-nos.»

Por exemplo, de­sem­pe­nhar o papel de uma per­so­nagem idosa é «uma ex­pe­ri­ência forte». «Ficam coisas dessa pas­sagem: a pa­ci­ência, a calma, o olhar mais com­pre­en­sivo, a re­cep­ti­vi­dade… São ho­ri­zontes que se abrem. Se tenho de fazer de as­sas­sino, tenho de gostar dele, tenho de o per­doar ou com­pre­endê-lo. Ainda por cima é o "meu" as­sas­sino, tenho de pegar em coisas mi­nhas para pa­recer ver­da­deiro e não ser "um bo­neco".»

O actor está con­ti­nu­a­mente à pro­cura do me­lhor mé­todo de tra­balho – de­clara Su­sana – e é ine­vi­tável fugir às vias já per­cor­ridas. «Des­bravei um ca­minho e ficam ví­cios ou re­cursos que sei que fun­ci­onam. O di­fícil é estar sempre a atingir ou­tros ho­ri­zontes.» As per­so­na­gens estão dentro do actor, por mais in­com­pa­tí­veis que pa­reçam. «Tem sempre a ver con­nosco. As pes­soas têm em si todas as ca­pa­ci­dades, as do as­sas­sino, as do tí­mido, as do ex­tro­ver­tido, as do en­can­tador... Pos­suímos tudo, mas a vida faz-nos re­alçar al­gumas ca­rac­te­rís­ticas.»

En­tre­tanto foi des­co­brindo em si fa­cetas de que não sus­pei­tava. «Temos de nos com­pre­ender a nós pró­prios en­quanto ac­tores e pes­soas para co­nhecer os nossos li­mites, o que fun­ciona e o que faz de nós es­pe­ciais a re­pre­sentar um de­ter­mi­nado papel. É como co­nhecer outra pessoa. Desse diá­logo ín­timo fica sempre qual­quer coisa.»

Su­sana não traça planos a longo prazo. «Vou fa­zendo o que na al­tura me agrada. Penso no que quero fazer e, a partir desse ponto, vejo que ca­minho faz sen­tido. Fiz uma opção de vida mais es­pi­ri­tual do que ma­te­rial, logo não me posso queixar se não tenho uma série de coisas. Ter um carro não é im­por­tante para mim, por exemplo. Não es­colhi uma pro­fissão a pensar no di­nheiro que ia ga­nhar. Tenho de pagar as contas e comer, mas não quero ser rica.»


A bruxa


Su­sana Branco vive um dia de cada vez, talvez para fugir à ins­ta­bi­li­dade do te­atro em Por­tugal. «O actor não é pro­fis­si­o­na­li­zado, não tem di­reito à re­forma...», co­menta. Nos úl­timos anos par­ti­cipou nas ani­ma­ções do Pa­lácio de Queluz como dama do sé­culo XVIII, fez ate­liers de ex­pressão dra­má­tica no Hos­pital de Júlio de Matos com os do­entes psí­quicos e co­meçou a dar aulas de te­atro a cri­anças num ex­ter­nato de Lisboa.

Ac­tu­al­mente, re­pre­senta também a bruxa Ba­baiaga, na peça «Vas­si­lisa», adap­tação de um conto tra­di­ci­onal russo en­ce­nada pela ita­liana Le­tízia Quin­ta­valla e pro­du­zido em Por­tugal pel’«O Bando» e pelo Centro Cul­tural de Belém. A sua per­so­nagem obriga uma cri­ança do pú­blico a tra­ba­lhar para ela e Su­sana tem de usar a in­tuição e a im­pro­vi­sação para a ir gui­ando. «Ins­tala-se um clima de medo. Aquilo é um mo­mento de vida, porque a cri­ança não é ac­triz. Pro­cu­ramos dar-lhe a be­leza e a força da re­a­li­dade, tor­nando-a mais se­gura. Quando tiver um de­safio, pensa que já en­frentou a bruxa Ba­baiaga e as coisas tornam-se mais fá­ceis.»

Su­sana olha des­con­trai­da­mente para o seu pas­sado, re­cor­dando as per­for­mances que de­sen­volvia em Elvas, nas­cidas da paixão pela es­crita e pela po­esia. Quando se apre­sentou ao pú­blico pela pri­meira vez, numa Se­mana da Ju­ven­tude da ci­dade, sentiu-se re­co­nhe­cida. «Eu tinha uma ati­tude um bo­ca­dinho di­fe­rente da mai­oria e fi­quei con­tente porque as pes­soas gos­taram dos es­pec­tá­culos. Senti-me bem em mos­trar aquilo em que acre­di­tava. O mais im­por­tante era eu re­a­lizar o que tinha na ca­beça. Aí é que es­tava o gozo da coisa.»

Outra vi­tória foi a en­trada no Con­ser­va­tório. «Es­tive uma se­mana a chorar antes da au­dição… Du­rante a prova per­cebi que im­pro­vi­sava muito bem. Quando soube que tinha sido ad­mi­tida, fi­quei or­gu­lhosa. Foi mais um marco. Quando que­remos fazer uma coisa e acre­di­tamos muito nisso, temos de a fazer senão vamos fi­cando com coisas por re­a­lizar.» E Su­sana não ten­ciona parar.



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