Retratos do trabalho - 8
Susana Branco,
actriz
Viver mil vidas de uma vez
«O teatro surgiu como um grande incentivo de vida, porque me redimensiona para outros lugares», afirma Susana Branco, actriz, de 24 anos. Natural de Elvas, está no último ano da licenciatura de Formação de Actores no Conservatório Nacional, mas já apresenta um currículo respeitável.
Fez parte do Grupo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa e da Companhia Teatral do Chiado, participou nos filmes «Rasganço» e «Rádio Relâmpago», trabalha regularmente com «O Bando» e já ganhou dois prémios com a companhia que integra juntamente com Mafalda Saloio, o «Lugar Vagon». Primeiro foi o Prémio de Reposição do Clube Português de Artes e Ideias, em 2000, com a peça que deu origem ao nome da companhia, e no ano passado, uma Menção Honrosa no Concurso de Teatro da Década com «Vou Vai Ando».
«Já não se coloca a dúvida sobre se quero continuar no teatro, mas há várias formas de estar. O que me interessa é viver processos interessantes, criar coisas que façam sentido na sociedade», sublinha Susana. Para ela, é importante integrar um colectivo, passando uma mensagem ao público através do processo teatral, sabendo o que quer transmitir e qual a utilidade do que comunica. «Não me interessa fazer teatro para mostrar um virtuosismo de actriz», declara.
No «Lugar Vagon», Susana Branco procura a essência da linguagem, para que qualquer pessoa, de qualquer idade e estrato social, possa compreender o que o grupo tem para dizer. «A nossa linguagem chega a muita gente, porque passa pelas sensações. Sem perceber, fui entrando num jogo teatral que é semelhante ao usado para chegar às crianças. Temos de mostrar candura, dar atenção, provar que escutamos, fazer coisas surpreendentes, convencer encantando e não ditando.»
Com esta descoberta da linguagem, Susana faz uma denúncia indirecta dos problemas do mundo. «As coisas são melhor aceites se forem ditas de uma forma que encante e de maneira que o público viva o que está a ser dito. Acho que a poesia é a grande revolução política, como diz Sophia de Mello Breyner Anderson. Cada um tem de viver com aquilo em que acredita. Isso é o principal», defende.
Susana considera que «a cultura não tem um papel muito importante em Portugal. Há poucos sítios onde trabalhar. Os actores muitas vezes querem ir mais longe.» Além disso, os bilhetes são caros e as pessoas têm pouca disponibilidade para ir ao teatro. «Com a vida que levam, é normal», adianta.
Susana refere ainda que muitas peças apresentam uma linguagem que o público não compreende por falta de educação teatral e por isso não o satisfaz. Nesse sentido, faz a apologia de projectos como o do «Teatro de Montemuro», que adapta as tradições rurais e cria produções relacionadas com os seus espectadores. «São presentes que são dados às pessoas e lhes animam os dias. O convívio e a conversa foram substituídos pela televisão e o teatro pode devolver um espaço de lazer e divertimento. É um bem pessoal e colectivo.»
Aprender com as personagens
O actor aprende e amadurece com as experiências das personagens que vai interpretando. Esta é uma das conclusões a que Susana Branco chegou. «O teatro é essencialmente uma zona pedagógica. Desempenhar uma personagem implica metermo-nos na pele de outra pessoa. Temos de entender o seu mecanismo de funcionamento, a sua forma de pensar, as suas reacções, motivações e fragilidades. Isso ajuda imenso a desenvolvermo-nos.»
Por exemplo, desempenhar o papel de uma personagem idosa é «uma experiência forte». «Ficam coisas dessa passagem: a paciência, a calma, o olhar mais compreensivo, a receptividade… São horizontes que se abrem. Se tenho de fazer de assassino, tenho de gostar dele, tenho de o perdoar ou compreendê-lo. Ainda por cima é o "meu" assassino, tenho de pegar em coisas minhas para parecer verdadeiro e não ser "um boneco".»
O actor está continuamente à procura do melhor método de trabalho – declara Susana – e é inevitável fugir às vias já percorridas. «Desbravei um caminho e ficam vícios ou recursos que sei que funcionam. O difícil é estar sempre a atingir outros horizontes.» As personagens estão dentro do actor, por mais incompatíveis que pareçam. «Tem sempre a ver connosco. As pessoas têm em si todas as capacidades, as do assassino, as do tímido, as do extrovertido, as do encantador... Possuímos tudo, mas a vida faz-nos realçar algumas características.»
Entretanto foi descobrindo em si facetas de que não suspeitava. «Temos de nos compreender a nós próprios enquanto actores e pessoas para conhecer os nossos limites, o que funciona e o que faz de nós especiais a representar um determinado papel. É como conhecer outra pessoa. Desse diálogo íntimo fica sempre qualquer coisa.»
Susana não traça planos a longo prazo. «Vou fazendo o que na altura me agrada. Penso no que quero fazer e, a partir desse ponto, vejo que caminho faz sentido. Fiz uma opção de vida mais espiritual do que material, logo não me posso queixar se não tenho uma série de coisas. Ter um carro não é importante para mim, por exemplo. Não escolhi uma profissão a pensar no dinheiro que ia ganhar. Tenho de pagar as contas e comer, mas não quero ser rica.»
A bruxa
Susana Branco vive um dia de cada vez, talvez para fugir à instabilidade do teatro em Portugal. «O actor não é profissionalizado, não tem direito à reforma...», comenta. Nos últimos anos participou nas animações do Palácio de Queluz como dama do século XVIII, fez ateliers de expressão dramática no Hospital de Júlio de Matos com os doentes psíquicos e começou a dar aulas de teatro a crianças num externato de Lisboa.
Actualmente, representa também a bruxa Babaiaga, na peça «Vassilisa», adaptação de um conto tradicional russo encenada pela italiana Letízia Quintavalla e produzido em Portugal pel’«O Bando» e pelo Centro Cultural de Belém. A sua personagem obriga uma criança do público a trabalhar para ela e Susana tem de usar a intuição e a improvisação para a ir guiando. «Instala-se um clima de medo. Aquilo é um momento de vida, porque a criança não é actriz. Procuramos dar-lhe a beleza e a força da realidade, tornando-a mais segura. Quando tiver um desafio, pensa que já enfrentou a bruxa Babaiaga e as coisas tornam-se mais fáceis.»
Susana olha descontraidamente para o seu passado, recordando as performances que desenvolvia em Elvas, nascidas da paixão pela escrita e pela poesia. Quando se apresentou ao público pela primeira vez, numa Semana da Juventude da cidade, sentiu-se reconhecida. «Eu tinha uma atitude um bocadinho diferente da maioria e fiquei contente porque as pessoas gostaram dos espectáculos. Senti-me bem em mostrar aquilo em que acreditava. O mais importante era eu realizar o que tinha na cabeça. Aí é que estava o gozo da coisa.»
Outra vitória foi a entrada no Conservatório. «Estive uma semana a chorar antes da audição… Durante a prova percebi que improvisava muito bem. Quando soube que tinha sido admitida, fiquei orgulhosa. Foi mais um marco. Quando queremos fazer uma coisa e acreditamos muito nisso, temos de a fazer senão vamos ficando com coisas por realizar.» E Susana não tenciona parar.