A grilheta do lucro e do poder
Começa a sentir-se um declarado mal-estar de correntes de opinião católicas perante a política de interesses que a sua hierarquia insistentemente teima em defender. Há enredados silêncios cúmplices e precipitados branqueamentos de imagem que já não recolhem os êxitos de tempos anteriores. As permanentes contradições são indisfarçáveis. Contradições em torno de posições que se arrastam e se agravam. E não se vá dizer que quando se fala em contradição a expressão implique necessariamente censura ou condenação. Há contradições que podem ser sinais de vitalidade de um sistema. Outra coisa é a contradição persistente entre a prática e os princípios pastorais. Um dos grandes pomos da discórdia que actualmente divide os católicos é, necessariamente, a questão política do Iraque e a distinção clara entre o que poderá ser do interesse da hierarquia fazer ou os princípios da paz, do diálogo e da solidariedade em liberdade que o Cristianismo como mensagem humanista contém. Ao povo católico é urgente saber se a sua hierarquia é politicamente hábil na condução dos negócios da Igreja ou se interpreta a sua missão pastoral segundo os grandes valores doutrinais. Começa a ser claro para o povo católico que o problema do Iraque despoleta dúvidas silenciadas na área dos valores. Como podem ser desculpados os bispos e os cardeais quando milhões de seres humanos se encontram na eminência do genocídio? Porque os príncipes da igreja bem conhecem as causas das injustiças, da ganância e dos sectarismos que são matriz todas as guerras da humanidade. Uma outra razão de ofensa que muitos crentes começam a não poder calar resulta da desmedida ambição do lucro que o corpo eclesiástico persiste em cultivar. Ainda há poucas semanas, em 22.2.003, uma revista (Única/Expresso) publicou um texto de grande interesse assinado por Graça Rosendo e Mário Robalo (jornalista frequentemente citado como ligado à hierarquia católica). A reportagem intitula-se «Receitas sagradas» e nela são abordados certos aspectos pouco transparentes da contabilidade eclesiástica, tais como a não prestação pública de contas, a verdade acerca dos salários reais do clero (32 bispos e 3000 padres), a relação dos bens patrimoniais das Fundações e das dioceses, os lucros do Santuário de Fátima, o quadro financeiro que configura o modelo do padre-empresário situado entre a obediência à cadeia hierárquica e a livre empresa, etc. Simultaneamente, a nível da Conferência Episcopal e a exemplo das práticas neoliberais, os bispos cultivam a contradição estratégica. Falam na doutrina social quando isso vem a propósito. Mas, claramente, dão prioridade à defesa dos interesses particulares da igreja. Fez escola, entre o episcopado o princípio materialista do voluntariado pago. Nessa linha de raciocínio político, e independentemente da composição das forças no poder, o episcopado presta-se a organizar zonas-tampões nos «media», na saúde, no ensino, na segurança social ou em áreas como as das minorias étnicas, da defesa da vida, da toxicodependência, da família, das migrações, da cultura, etc., desde que os serviços que a igreja preste sejam bem remunerados - em dinheiro e em maior extensão dos privilégios. Consta que, ainda no decurso do mês de Março, será divulgado o texto da revisão da Concordata entre o Estado Português e o Vaticano. Veremos que negócios ele encerra à sombra da liberdade religiosa. Voltando às questões do Iraque, é evidente que ninguém contesta a legitimidade do apelo à Paz, pela oração e pelo jejum, dirigido ao povo católico. É uma área exclusiva da religião. É importante, entretanto, compreender-se que um exercício dessa ordem não esgota os deveres da igreja em relação à paz. É preciso que haja a coragem de lançar nos pratos da balança todo o poder da instituição. Óbvia constatação esta que torna indescupavelmente caricatas recente declarações de D. José Policarpo quando afirmou mais ou menos isto, em resposta a uma jornalista que o interrogou sobre os silêncios do episcopado português acerca dos perigos de guerra no Iraque (justamente no final do «dia de jejum e oração»): «Sabe, nós (os bispos) estivemos a debater o assunto na Conferência Episcopal e chegámos à conclusão de que se trata de uma guerra como tantas outras . E nós (os bispos) procuramos não misturar política com religião ...».