Três ideias... pela paz

Ângelo Alves

Por mais es­forços que o clube de guerra, pre­si­dido por Ge­orge W Bush, e al­guns ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial ao seu ser­viço, de­sen­volvam, a luta contra a guerra é hoje um factor de­ter­mi­nante da si­tu­ação in­ter­na­ci­onal e na­ci­onal. As ma­ni­fes­ta­ções de dia 15 de Fe­ve­reiro e suas ondas de choque de­mons­traram a im­por­tância da cons­ci­en­ci­a­li­zação e mo­bi­li­zação das massas po­pu­lares na luta pela paz e contra o im­pe­ri­a­lismo.

Em tempo de ar­ranque para novas jor­nadas de luta im­porta reter três ideias fun­da­men­tais:

A pri­meira: o ataque ao Iraque não é ine­vi­tável.

A mo­bi­li­zação po­pular pela paz tem vindo a isolar po­li­ti­ca­mente os de­fen­sores da guerra. Se é certo que a de­ter­mi­nação em atacar o Iraque con­tinua, é também in­dis­cu­tível que a ad­mi­nis­tração norte-ame­ri­cana e o go­verno bri­tâ­nico não con­se­guem con­vencer a opi­nião pú­blica mun­dial da jus­teza e ne­ces­si­dade de tal de­cisão. É desta pressão cres­cente, e também da co­e­rência de ar­gu­mentos da mai­oria dos que se co­locam do lado da paz, que nascem as di­fi­cul­dades dos de­fen­sores do ataque ao Iraque. O re­velar das men­tiras da ad­mi­nis­tração norte-ame­ri­cana e a fa­lência das te­o­rias de guerra hu­ma­ni­tária em de­fesa do povo ira­quiano são si­nais dessa fra­queza.

Os úl­timos tempos de­mons­tram, assim, que, por mais po­de­rosos que sejam os ins­tru­mentos em poder do im­pe­ri­a­lismo (que o são), também esses se podem der­rotar se con­fron­tados com um amplo mo­vi­mento pela paz, es­cla­re­cido e in­ter­ve­ni­ente.

A se­gunda: é pos­sível, através de um pro­cesso de luta co­e­rente e au­da­cioso, dar força aos que com­batem a he­ge­monia norte-ame­ri­cana e con­di­ci­onar ou mesmo in­verter a po­lí­tica de go­vernos que «ge­ne­ti­ca­mente» de­fen­de­riam os in­tentos im­pe­ri­a­listas.

As po­si­ções do cha­mado eixo franco-alemão e as di­fi­cul­dades dos EUA, Grã Bre­tanha e Es­panha em aprovar uma nova re­so­lução no Con­selho de Se­gu­rança da ONU não são mais do que a ex­pressão con­creta das con­tra­di­ções in­te­rim­pe­ri­a­listas de­ter­mi­nadas fun­da­men­tal­mente pelos in­te­resses das pe­tro­lí­feras eu­ro­peias e pelas guerras eco­nó­micas entre po­tên­cias, evi­den­ci­adas agora pela pressão a que os go­vernos eu­ro­peus e de ou­tros países mem­bros do Con­selho de Se­gu­rança da ONU estão su­jeitos por via da luta de massas contra a guerra.

A re­cente ci­meira do Mo­vi­mento dos Não Ali­nhados evi­dencia igual­mente a im­por­tância da mo­bi­li­zação po­pular no alar­ga­mento, mesmo ao nível go­ver­na­mental, da re­sis­tência à he­ge­monia im­pe­ri­a­lista ca­pi­ta­neada pelos EUA.

Im­porta agora não baixar armas, con­ti­nuar num in­tenso ritmo de ac­ções e in­tro­duzir na luta fac­tores e ob­jec­tivos que con­firam ao mo­vi­mento da paz um ca­rácter cla­ra­mente anti-im­pe­ri­a­lista. Fa­lamos de ques­tões como a dis­so­lução da NATO, a luta contra a cri­ação de uma nova po­tência mi­litar a partir da U.E., a não ce­dência de bases mi­li­tares aos EUA, a luta pela abo­lição das armas nu­cle­ares e de des­truição mas­siva e a so­li­da­ri­e­dade com os povos em luta.

A ter­ceira: só com uma ampla e real uni­dade, nas­cida da di­ver­si­dade dos agentes en­vol­vidos na luta contra a guerra, é pos­sível dar con­ti­nui­dade e for­ta­lecer o mo­vi­mento pela paz.

Os úl­timos tempos de­mons­tram que muitos são os que fazem suas as ve­lhas téc­nicas di­vi­si­o­nistas. Ex­plo­rando per­ver­sa­mente - e com ver­da­deiras men­tiras - na­tu­rais di­fe­renças de opi­nião, ou ten­tando in­tro­duzir a todo o custo fac­tores de­ses­ta­bi­li­za­dores dos pro­cessos de con­ver­gência para a luta, existe quem, em Por­tugal, por von­tade ou ir­res­pon­sa­bi­li­dade, tente pôr em causa o for­ta­le­ci­mento da con­ver­gência pela paz em Por­tugal.

A uni­dade só o é se nela se res­pi­rarem os prin­cí­pios do res­peito mútuo; da co­e­rência; da fron­ta­li­dade; da va­lo­ri­zação das di­fe­renças de opi­nião como ri­queza base para a cons­trução de pro­jectos e ac­ções co­muns, e do res­peito pela iden­ti­dade, es­paço de in­ter­venção e afir­mação de cada um. Foi desta uni­dade na di­ver­si­dade que nasceu dia 15. O PCP sempre fez e tudo vai con­ti­nuar a fazer para a manter e re­forçar.

A luta pela paz tem pro­pri­e­tá­rios: os tra­ba­lha­dores e os povos que lutam contra o im­pe­ri­a­lismo. É com esses e para esses que o PCP se mo­bi­liza e tra­balha!



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