A máscara caiu

Anabela Fino

O país está em recessão. Segundo os dados disponíveis, a indústria e a construção começaram a desacelerar em 2001, seguindo-se o abrandamento do sector dos serviços, que representa 62 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), particularmente acentuado no último trimestre.

Forçados a apertar cada vez mais o cinto, os portugueses já tinham dado pela recessão muito antes de os números oficiais a reconhecerem.

Na altura em que a realidade do desemprego se tornou impossível de escamotear - 440 000 confirmados, sem contar com os que nunca chegam a ser contabilizados mas nem por isso são menos reais -, milhares de famílias viviam há muito o terrível drama de se encontrarem de um dia para o outro sem meios de subsistência, o que num país de escassos recursos como Portugal significa não ter com que comprar comida, pagar a renda da casa, prover às mais elementares necessidades de uma vida digna.

Estimulados ao consumo durante anos sucessivos e aliciados pelo constante matraquear do «compre hoje, pague depois», os portugueses endividaram-se até ao tutano, hipotecando o salário às compras do supermercado, às prestações da casa e do carro, às propinas dos filhos, à ilusão de um nível de vida muito acima das suas possibilidades. Quando as empresas começaram a fechar em catadupa e os despedimentos se tornaram uma constante em todos os sectores de actividade, o descalabro bateu a muitas portas que até então se julgavam estáveis.

O discurso da tanga não contribuiu para resolver nenhum problema, mas ainda assim continuou a haver quem, iludido pelas promessas eleitorais, acreditasse que a política de rigor e justiça social era mesmo para cumprir, que os sacrifícios pedidos eram para todos, que as reformas anunciadas iriam repartir o bolo de forma mais equitativa.

As benesses a filhos e afilhados que não tardaram a vir a lume, timidamente denunciadas, não chegaram a provocar grandes escândalos, enraizado que está no subconsciente colectivo ser «natural» que quem está no poder se sirva. Mas eis que em meados de Fevereiro, com a recessão instalada e o desemprego a disparar, com milhares e milhares de trabalhadores sem salário ou com salários em atraso ou com salários tão magros que não há engenharia financeira que lhes valha, surge a notícia que é uma afronta a todos nós: o Governo vai pagar 25 milhões de euros aos ex-accionistas do Banco Português do Atlântico pela sua nacionalização a 11 de Março de 1975.

O país está de tanga mas paga indemnizações ao capital. O país está em recessão mas gasta uma fortuna para satisfazer o apetite voraz de accionistas da Banca. O país vende ao desbarato o que resta do sector público para cumprir metas comunitárias e dá-se ao luxo de pagar indemnizações. O país não tem dinheiro para pagar aos funcionários públicos, investir nas escolas, nos hospitais, nos serviços sociais, enfim, mas paga indemnizações.

Esta decisão, mais do que vergonhosa, é um ultraje a todos os trabalhadores e a todos os portugueses que aspiram à justiça social que é suposta existir num regime democrático. Esta decisão mostra o verdadeiro rosto do Governo que temos. A máscara caiu.



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