Meio milhão em Berlim
Berlim viveu uma das maiores senão a maior manifestação da história da Alemanha Federal.
Pelo menos meio milhão de manifestantes estiveram na capital da Alemanha, segundo os números oficiais anunciados pela polícia.
Desde muito cedo, milhares de pessoas começaram a encher a Alexanderplaz. Quando se iniciou o desfile e a cabeça da manifestação chegou à Siegessäule num percurso muito longo, ainda a Alexanderplatz se encontrava repleta de manifestantes que aguardavam a sua vez para poderem entrar no cortejo. Diante da Universidade «Humbolt», o desfile parou subitamente e dezenas de jovens lançaram-se para o chão. A linha do eléctrico ficou simbolicamente coberta de cadáveres. Estava à vista o que acontecerá à população civil quando os EUA decidirem atacar o Iraque. Numa faixa da organização regional de Berlim da Central Sindical Alemã, DGB, encontrava-se escrito em letras grandes «Guerra é terrorismo!». Outros cartazes exigiam o «regresso das todas as tropas alemãs que se encontram em território estrangeiro!» ou alertavam que «as armas e o capital alemão continuam a matar no mundo inteiro!».
No comício, o presidente do sindicato dos serviços Verdi (2,5 milhões de associados) Frank Bsirske denunciou o direito que os EUA se arrogam de desencadearem «guerras de agressão preventivas e de utilizarem nessas guerras armas atómicas mesmo contra países que não possuem tais armas». Bsirske considerou «absurdo que dada a superioridade militar de Washington, os EUA pretendam apresentar o Iraque como uma ameaça para a sua segurança».
Ataque em duas frentes
Por sua vez, o actor Rolf Becker, representante do sindicato dos Media de Hamburgo, lembrou aos manifestantes que a direcção da DGB, na guerra contra a Jugoslávia, esteve sempre ao lado dos agressores. «Nós estivemos com muitos camaradas do nosso sindicato na Jugoslávia e verificámos que não foi uma guerra contra Milosevic mas contra a população civil», disse. E voltando-se para o presidente do Verdi perguntou: «o sim de hoje da DGB à paz é sincero ou irá manter-se só até governo voltar a dizer não à paz? Nós exigimos que a direcção da DGB passe a ouvir a esmagadora maioria dos sindicalistas e a voz dos trabalhadores». E o actor e sindicalista alemão prosseguiu afirmando que: «as classes dominantes atacam hoje em duas frentes. Preparam a guerra contra o Iraque e simultaneamente desencadeiam uma guerra interna contra os trabalhadores com a desmontagem dos direitos sociais e dos postos de trabalho, com os cortes nos sistemas de saúde e das reformas. Nós temos que lutar e resistir nestas duas frentes» acrescentou Becker.
O teólogo evangélico Friedrich Schorlemmer, director da Academia de Wittenberg, acusou por seu turno Bush de «fundamentalismo» concluindo que o presidente norte-americano «procura formar uma coligação de guerreiros mas nós respondemos-lhe com uma coligação de todos aqueles que defendem a paz».
Também noutras cidades alemãs como Dulsseldorf e Heidelberg se realizaram manifestações com milhares de participantes, como em Stuttgart, onde desfilaram mais de oitenta mil pessoas. Na segunda-feira, mais 10 mil manifestantes participaram na igreja de S. Nicolau, em Leipzig, numa iniciativa contra a guerra. Entrevistados pela ARD, os participantes sublinhavam que «Bush constitui hoje uma ameaça para a paz muito maior do que Saddam Hussein».
O inimigo da democracia
Perante a grandeza dos protestos, o capital transnacional sediado na Alemanha não se atreve a reclamar directamente o apoio do governo alemão para a agressão contra o Iraque. Os media controlados pelo capital financeiro, como o Financial Times, Handelsblatt, Die Welt ou FAZ, optaram por lançar uma campanha de lamúrias contra a quebra da solidariedade com os EUA e o perigo de divisões insanáveis no seio da NATO e da União Europeia, e por invocar as consequências nefastas que daí possam resultar para a economia alemã. Outros especulam sob a possibilidade dos grupos petrolíferos norte-americanos poderem manter os monopólios europeus à margem da repartição dos despojos, após a ocupação do Iraque. O acordo real ou aparente verificado nos últimos dias entre os governos da UE e da NATO está a mostrar que a maioria dos governantes europeus prefere a obediência a Washington ao respeito pelas vontade dos respectivos povos.
Os milhões de manifestantes que no mundo inteiro fizeram ouvir o seu protesto contra a guerra não o fizeram num acto simbólico. Qualquer que venha a ser a decisão do monstro imperialista, não se tratou de um grito de desespero ou de impotência. Chegará o dia em que o império se desmoronará sob o impulso irresistível dos que lhe resistem. O dia 15 de Fevereiro de 2003 poderá ter marcado uma viragem no processo de regressão com que o capitalismo há mais de uma década tem vindo a asfixiar as consciências e a impelir a humanidade para uma catástrofe.
A ditadura do pensamento único sai derrotada nesta grandiosa jornada de protesto com mais de 75 por cento da população alemã a opor-se à agressão contra o Iraque. Na maioria dos estados europeus essa porcentagem ultrapassa os 80 e na Turquia atinge os 94 por cento. Na sua cruzada pela «democracia» e pela instauração de um protectorado militar em Bagdad sob o comando de um general norte-americano, os exércitos do Pentágono encontram apoio decisivo e instalam as suas bases nos regimes feudais dos emires do Katar, do Barain e do Koweit. Ao contrário do que afirmam os propagandistas do sistema, nunca foi tão claro que o capitalismo é o principal inimigo da vontade dos povos, da paz e da democracia.