EUA

«Queremos paz!»

André Levy

O protesto na cidade de Nova Iorque teve um significado especial.

A concentração teve lugar perto da sede das Nações Unidas, onde no dia anterior Hans Blix, no Conselho de Segurança da ONU, apresentou o último relatório do grupo de inspectores UNMOVIC. Mais uma vez Blix confessou alguma frustração com a franqueza e abertura do regime de Saddam, sobretudo em localizar armas biológicas e químicas, mas declarou que o regime não tem oferecido obstáculos e mostrou-se confiante no processo de inspecções. Igualmente notável foram as suas acusações de manipulação de imagens e informações em prol da causa de guerra. Na apresentação multimedia de Colin Powell ao Conselho de Segurança, o secretário de Estado fez uso de especulações e distorções, embelezadas com fotografias, num discurso que pretendia convencer o CS e o povo dos EUA. O uso de argumentos enganosos é prática corrente, por exemplo quando Bush no seu discurso de Estado da Nação se referiu a tubos de alumínio, apesar de estes terem sido eliminados como evidência de um programa nuclear pela Agência Internacional da Energia Atómica.

Nova Iorque é também a cidade onde os ataques terroristas de 2001 tiveram o seu maior impacto material, humano e emocional. Mas neste dia, os habitantes desta cidade ferida vieram à rua dizer «Em nosso nome, não vais lançar uma guerra!».

A Câmara Municipal e o Departamento de Polícia de Nova Iorque criaram todo o tipo de obstáculos à coligação «Unidos pela Paz e Justiça» na obtenção de licenças para realizar o evento. Pouco mais do que uma semana antes de 15 de Fevereiro, a cidade deu finalmente autorização para uma concentração, mas rejeitou terminantemente a realização de uma marcha, alegando razões de segurança, apesar da cidade de Nova Iorque acolher todos os anos dezenas de marchas populares.


Um mar de gente


Nem as incertezas quanto às autorizações, nem o frio, nem a declaração nacional de «Código Laranja» (o nível de alerta contra ataques terroristas sob o código máximo de vermelho), evitaram que um mar de gente enchesse as ruas. As pessoas chegaram à cidade de comboio e autocarro nos principais pontos de entrada e formaram colunas de manifestantes que convergiam com outras marchas à medida que as vozes e os cartazes se aproximavam das Nações Unidas.

Como vem sendo hábito nestas manifestações contra a guerra, o carácter dos manifestantes é notavelmente diverso. E porque o movimento vai crescendo, encontram-se sempre pessoas que nunca antes haviam participado num protesto, mas que fartas da retórica da Administração e com a ausência de argumentos convincentes decidiram sair de casa e fazer-se ouvir. Cartazes clamavam por paz, livros, saúde e educação em vez de guerra. Embora o motivo central de convergência dos manifestantes fosse uma mensagem de paz, muitas vozes reflectiam frustração com a condução da presidência. Vozes demonstravam desconfiança nos motivos e meios de Bush (alguns exigindo o «impeachment» do presidente). «Nenhuma guerra pelo petróleo!», «Bush diz guerra, nós dizemos não!», foram algumas das palavras de ordem mais gritadas. Mas igualmente popular era «Isto é que é democracia» e «O povo unidos jamais será vencido».

A polícia não estava preparada para o mar de pessoas e declarou o mais alto nível de mobilização duas horas depois do início do evento. Barricadas limitavam o fluir da multidão que procurava aproximar-se do palco, dando origem a muita frustração e algumas cargas policiais. Apesar da presença policial intimidante, o comportamento dos manifestantes foi exemplar. Numa ocasião, a polícia fez uso de cavalos para encurralar pessoas, deixando atónitos alguns dos participantes que nunca pensaram ver a polícia agir desnecessariamente de forma tão violenta.

Durante o evento, alguém do palco leu um comunicado da Associated Press, reportando que dada a força dos protestos por todo o mundo, Blair e Powell esboçavam uma resolução menos agressiva para apresentar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Entre os vários intervenientes no palco contavam-se os actores Danny Glover e Susan Sarandon, a activista Angela Davis, e os cantores Pete Seger e Harry Belafonte, que recordou palavras de Martin Luther King, Jr: «Se a humanidade não põe fim à guerra, a guerra irá acabar com a humanidade». O prémio Nobel da Paz, Arcebispo sul-africano Desmond Tutu, perguntava: «Já imaginaram o que poderíamos alcançar se metade do que investíssemos em guerra, investíssemos em paz?». Depois, perguntou à massa humana: «Que querem vocês?»

«Paz!», respondemos em uníssono.



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