Na guerra anunciada contra o Iraque, os EUA não olham a meios para atingir os seus fins

A polémica está instalada ao mais alto nível

Os inspectores no Iraque apresentam amanhã um novo relatório ao Conselho de Segurança e o Papa recebe em audiência o dirigente iraquiano Tarik Aziz.

Crise aberta na NATO, divisão na União Europeia, irritação em Washington, críticas no Vaticano e manifestações pela paz em todo o mundo - esta em síntese a turbulenta situação provocada pelo sanha anglo-saxónico em atacar e ocupar o Iraque.

Tudo se precipitou no fim-de-semana com o anúncio da proposta franco-alemã para evitar o ataque a Bagdad (ver peça na página 25), mas o acentuar das divergências tornou-se notório logo na quarta-feira, após a apresentação por Colin Powell, na ONU, das alegadas «provas» da existência de armas de destruição maciça no Iraque. Os EUA não conquistaram novos adeptos para a sua tese.

Enquanto Bush, falando à televisão a partir da Casa Branca, afirmava na quinta-feira, dia 6, que «the game is over» (o jogo acabou), multiplicavam-se por todo o lado declarações em sentido contrário.

No próprio dia 6, o presidente do conselho Pontifício Justiça e Paz, arcebispo Renato Martino, afirmava que «as provas apresentadas por Powell» não lhe pareceram «convincentes». No dia seguinte, após uma audiência a Joschka Fischer, ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, o Papa João Paulo II sublinhava a responsabilidade de todos «para se evitar a eclosão de um trágico conflito» no Iraque. Fischer, por seu lado, garantiu que a Alemanha e o Vaticano têm «uma posição comum» e farão «tudo o que for possível» para evitar o recurso às armas.


Jornalistas vêem «provas»


Ainda na sexta-feira, dia 7, jornalistas estrangeiros visitavam os centros de montagem e de ensaios de mísseis iraquianos citados no relatório de Powell e comprovavam que as acusações não têm razão de ser. Por exemplo, o centro de al-Musayyib, a 60 quilómetros de Bagdad, cuja fotografia Powell apresentou como «prova», foi visitado dez vezes desde Novembro de 2002 pelos inspectores da ONU, que não registaram nenhuma violação. Os mísseis de curto alcance ali produzidos são legais, segundo as normas das Nações Unidas, e apresentam os selos de inventário da ONU.

No mesmo dia, segundo a agência chinesa Xinhua, citada pela Lusa, o presidente chinês, Jiang Zemin, em conversa telefónica com Bush, afirmava que a China defende o reforço do trabalho dos inspectores no Iraque; em Moscovo o responsável pela diplomacia russa, Igor Ivanov, reafirmava que o seu país defende «uma solução política do problema iraquiano» e condena qualquer «acção unilateral» contra Bagdad.

Também o presidente francês, Jacques Chirac, em contacto com Bush, «reafirmou a sua convicção de que existe uma alternativa à guerra». Enquanto isso, o primeiro-ministro gaulês, Jean-Pierre Raffarin, de visita à Índia, respondia à letra ao presidente norte-americano dizendo que o problema iraquiano «não é um jogo nem está terminado».

No Irão, a posição de Ali Khamenei, Guia supremo do país, é clara: «os EUA querem apoderar-se das ricas fontes petrolíferas do Iraque, servir o lobby capitalista e sionista mundial e controlar a região estratégica do Golfo». Para Khamnei, os argumentos da Casa Branca para um ataque são «uma grande mentira» em que «ninguém acredita». A imprensa oficial síria assume uma posição semelhante, falando de «novo colonialismo» assente na dominação das economias árabes e na ocupação por Israel de «terras árabes».

Indiferentes a todas estas posições, os EUA decidiram encerrar a sua representação em Bagdad e autorizaram o seu pessoal não essencial e respectivos familiares a abandonar as embaixadas de Israel, Síria, Jordânia e Líbano.


Relatório de Powell
é um miragem


As «provas» apresentadas por Colin Powell são «irrealistas» e visam desacreditar a missão dos inspectores das Nações Unidas, afirmou sábado, em Abu Dhabi, Scott Ritter, antigo oficial dos serviços de informação da Marinha dos EUA e ex-inspector da ONU para o desarmamento do Iraque (1994-1998).

Segundo Ritter, que falava numa conferência naquele emirato, o relatório de Powell «é uma «miragem», só «convincente e forte, como argumento, para quem não está ao corrente da situação», e tem como único objectivo conduzir a uma acção militar contra o regime de Saddam Hussein.

O antigo oficial afirmou que o chefe da diplomacia norte-americana mostrou imagens de satélite e gravações sonoras «enganosas», com argumentos «falsos», e foi categórico ao dizer que «as inspecções (em curso) não são do interesse dos norte-americanos», pois «eles não querem que seja descoberto nada comprometedor e unicamente derrubar o regime iraquiano»

Chamando a atenção para o facto de as «provas», quase todas baseadas em declarações de dissidentes, não referirem os dados fornecidos por Hussein Kamel, o mais importante dos dissidentes que chegou a ser chefe do programa de armamento, exilado em 1995 e morto quando foi convencido a regressar ao Iraque, Ritter explicou o motivo desta lacuna: as informações de Kamel garantem o desmantelamento de todas as armas de destruição maciça.

Quanto aos alegados stocks de anthrax (25 0000 litros), Ritter classificou a estimativa de «incorrecta» e sublinhou que, mesmo a existirem, já estariam fora de validade.

O ex-inspector acredita que «o povo iraquiano resistirá à invasão norte-americana, não por amar Saddam Hussein, mas sim o seu país». «Não vão ganhar, serão antes massacrados pelos norte-americanos, aos milhares, homens, mulheres e crianças», vaticinou, concluindo que a invasão assinalará «o início da política colonialista norte-americana, cujo próximo alvo é a Coreia do Norte».


Fim-de-semana agitado em Munique


A 39ª Conferência Internacional de Segurança, realizada em Munique, no passado fim-de-semana, serviu de pano de fundo ao secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, para declarar que a actual coligação contra o Iraque «é a maior da história da Humanidade», pois «compreende 90 países», e acusar a França e a Alemanha de se estarem a «isolar» a si próprias ao não alinharem com os norte-americanos.

Com a arrogância que cada vez mais os caracteriza, Rumsfeld foi ao ponto de afirmar que «quem pede que se atrasem os preparativos de guerra pode muito bem provocar que essa guerra seja mais provável», e convidou as «nações livres» a mostrar que estão prontas para «utilizar a força» no Iraque, na sua opinião a única forma de chegar a uma eventual «solução pacífica».

Enquanto no centro de Munique e noutras cidades alemãs milhares de pessoas se manifestavam contra a guerra, o secretário da Defesa elogiava a «valente» carta dos oito governantes europeus (entre os quais Durão Barroso) de apoio a Washington e garantia haver no seio da NATO um «acordo total» sobre o «compromisso de defender a Turquia e sobre a natureza das medidas a tomar» em caso de ataque ao Iraque.

Como se veio a verificar, Rumsfeld estava mal informado. A proposta franco-alemã para evitar o ataque a Bagdad e o veto da Bélgica, França e Alemanha na NATO à transferência de armamento para a Turquia mostrou de forma inequívoca que mesmo ao mais alto nível há quem já tenha percebido a verdade da palavra de ordem que no sábado mais se ouviu nas ruas de Munique: «A guerra só tem um vencedor: a morte».


Boa vontade iraquiana


O Iraque autorizou esta semana, «sem condições», o sobrevoo de seu território por aviões de espionagem U-2 dos EUA. O anúncio, feito pelo embaixador iraquiano na ONU, Mohamed Al-Duri, demonstra a boa vontade do Iraque face às solicitações feitas dos inspectores de desarmamento da ONU.

«Tentamos evitar a guerra a todo custo», disse A-Duri, adiantando que o seu país acataria outra exigência dos inspectores Hans Blix e Mohamed El-Baradei, adoptando leis que ilegalizem as armas de destruição em massa (químicas, biológicas e nucleares).



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