Datas da História

Memórias de 1957 - Ficções de 2003

J. M. Costa Feijão

Tijolo a tijolo, paulatinamente prossegue a construção da Europa que alguns vão erguendo nas costas dos povos comunitários, como «democracia de fato feito», concebida à medida das grandes potências.

Até aqui nada de novo... salvo o alarido da comunicação social, face às «novas propostas» do eixo franco-alemão quanto à partilha de poderes, inseridas nos planos hegemónicos de um quinteto que já iniciou a encenação do espectáculo «da nova arquitectura institucional da União Europeia», a estrear em Junho na Convenção sobre o Futuro da Europa.

Nesta matéria, se recuarmos no tempo, encontraremos curiosos alertas do salazarento ministro das finanças que, em 1956-1957, já destacava entre os perigos comunitários: «A organização deste mercado pressupõe a existência de órgãos dotados de poderes supranacionais.»

Mas, as experiências colhidas no post 1985 foram muito mais além. Certo dia, um qualquer comissário eurocrata que ninguém elegeu, determinou um amplo abate da nossa frota de pesca e, enquanto nos vangloriamos de possuir a maior zona económica exclusiva da UE, o peixe que nos chegava do mar, passou a vir de terra. Os arrastões e as traineiras portuguesas deram lugar a camiões frigoríficos que alimentam o tráfego rodoviário TIR nas auto-estradas comunitárias. - O atraso técnico da nossa agricultura foi rapidamente superado. Vendemos tempo de actualização por dinheiro vivo e, entre o lavrar o agros ou receber subsídio para não produzir, optou-se pela última modalidade. Vencemos a batalha da produção alimentar com um grande salto de modernidade: importamos, importamos e... tentamos sobreviver num qualquer pelotão desse novo eufemismo – Eurolândia.

Será justo, aqui e agora, recordar os avisos à navegação produzidos pelo PCP há 46 anos, sobre as ameaças à economia do país num quadro de adesão: «As nações industrializadas da Europa ocidental, como a Alemanha, a Inglaterra e a França, estão interessadas em deitar abaixo as barreiras aduaneiras dos pequenos Estados europeus, que defendem a sua actividade industrial da concorrência estrangeira, para depois invadirem esses países com a sua produção agrícola a preços mais baixos e se assenhorearem assim dos mercados dos pequenos países (...) a nossa indústria ver-se-á impotente para poder aguentar a concorrência desenfreada da grande indústria estrangeira, será lançada na ruína completa.» - in Avante! n.º 231, Março, 1957.

A verdade desses juízos pretéritos, hoje designados por europessimismo, é dia a dia experimentada pelos trabalhadores atingidos pela vaga de falências e, sem perspectivas, desesperam perante a ausência de trabalho.

Mas, quem sabe... Talvez num próximo quadro comunitário de apoio, as grutas dos maciços calcários sejam recuperadas como habitação social, com amplos T-ZERO colectivos, para os eurolandeses mais carenciados, enquanto aguardam a deslocalização do país, com direito a hino, bandeira e opção de segunda língua, o português.

«Só a grande burguesia com ligações e compromissos com os monopólios internacionais pode defender tal política.» - in Avante! n.º 229, Fevereiro, 1957.



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