Um confuso catolicismo
Ao anunciar recentemente à Assembleia da República, em tom triunfalista, a conclusão de um pacto trilateral que irmana o capital, o poder político e a UGT, o ministro Bagão Félix, porta-voz da igreja oficial, não se proibiu de bradar a plenos pulmões: «Acabou o emprego por toda a vida!» A afirmação foi impressa nos principais jornais. Sem repúdio evidente que se erguesse na maioria católica, o que é grave. Face à doutrina social da igreja, uma simples frase escandalosa como esta deveria ser merecedora da condenação moral do seu autor. «O escândalo» - declara-se no Catecismo da Igreja Católica (ponto 2 285) - «reveste uma gravidade particular em virtude da autoridade dos que o causam ou da fraqueza dos que dele são vítimas ... O escândalo pode ser provocado pela lei ou pelas instituições, pela moda ou pela opinião (ponto 2 286)».
Mas por que razão, nas teses dos cardeais uma declaração como a de BF se reveste de tão grande gravidade ? É que o Código do Trabalho, origem da euforia do piedoso ministro, contribui decisivamente para acelerar a destruição do conceito de família, tal como a doutrina da igreja no essencial o aparenta defender: como elo social mais importante na ligação da tradição à modernidade, numa sociedade em constante movimento e distanciamento laico. A família como ponte que liga o passado e o futuro da sociedade. Como instituição sagrada que muda de aspecto mas que permanece fiel à doutrina. Na prática, BF e as forças que o sustentam minaram as bases dessa tese central. A heresia do escândalo do Código do Trabalho deveria indignar os católicos e fazê-los suspeitar dos homens e das mulheres que, partindo do corpo da igreja, ocupam agora cargos políticos e usam o poder para envenenarem o sentido da doutrina social. Leigos místicos que colocam os interesses do patronato acima da ideia cristã da solidariedade humana e procuram destruir - para aumentarem os lucros dos grupos económicos e da própria hierarquia religiosa - as bases sociais e políticas que apontam à família católica a estabilidade, o bem-estar, a justiça social e as perspectivas de futuro. Padres, como Vaz Pinto, Feytor Pinto, Vítor Melícias ou José Maia, revelam-se mentores ou gestores de valores acorrentados às políticas das classes dominantes e aceitam transformar-se em agentes da permanente transferência da fortuna e da influência da área do bem comum - a sua matriz natural - para as alfurjas da especulação financeira, dos lobbies sempre mafiosos ou do Opus Dei. É assim que se pode entender a aceitação activa e colaborante, por parte da hierarquia religiosa, das repetidas violações dos direitos fundamentais dos trabalhadores e dos cidadãos, camufladas pela retórica jesuítica da flexibilização, da mobilidade, da produtividade, da competitividade, da justiça social e do bem comum, da reconciliação de classes, da ética ou da mundialização das aldeias globais. Que sentido faz uma igreja cuja doutrina se divide entre o que afirma e o seu oposto ? O Vaticano, por exemplo, assume-se com o herdeiro do «aggiornamento» e bandeira desfraldada na defesa das liberdades do homem. «Qualquer programa para aumentar a produção não tem razão de ser senão colocado ao serviço da pessoa. Deve reduzir desigualdades, combater discriminações, libertar o homem da servidão, torná-lo capaz de - por si próprio - ser o agente responsável do seu bem-estar material, progresso moral e desenvolvimento espiritual. Dizer-se desenvolvimento é, com efeito, preocuparmo-nos, tanto com o progresso social como com o crescimento económico. Não basta aumentar a riqueza para que ela seja distribuída equitativamente... A tecnocracia de amanhã pode gerar ainda maiores males que o liberalismo de ontem... E o homem só é verdadeiramente homem na medida em que, senhor das suas acções e juíz dos valores que elas contêm, for autor do seu progresso, em conformidade com a natureza que lhe deu o Criador e cujas possibilidades e exigências ele aceitar livremente! (Paulo VI, Populorum Progressio, Nº. 34).
Penso que o pecado capital desta igreja consiste em cometer o abuso de colocar a ética e a fé (que são bens pessoais) ao serviço dos interesses dos ricos. Contra o que afirma na sua doutrina.