A corajosa comunista Aida Paula nasceu há 100 anos
EVOCAÇÃO Assinala-se 100 anos do nascimento de Aida Paula, militante comunista que dedicou toda a sua vida ao Partido e à luta pela liberdade e a democracia. Passou 20 anos na clandestinidade e oito na prisão.
Aida Paula conheceu a vida dura das classes populares sob o fascismo
Aida da Conceição Paula nasceu a 9 de Dezembro de 1918 em Lisboa, na freguesia de Santa Isabel. Ainda a frequentar a escola primária, começou a trabalhar como ajuntadeira nas manufacturas de calçado, ajudando ao parco rendimento familiar, sustentado pelo pai pintor da construção civil e a mãe tecedeira. A sua vida difícil, por vezes miserável, seria agravada pela deportação do pai para Angola, por questões políticas, em 1927. Dezoito meses depois, embarca com a mãe para se lhe juntar. Fruto do estado de saúde do pai, regressaria mais tarde a Lisboa, ingressando aos 18 anos no Partido Comunista Português.
Em sua casa, o Avante! era lido e discutido. A mãe, Luísa da Conceição Paulo, aprendeu a ler na clandestinidade, aos 46 anos. Mulher lutadora e solidária, teve sempre, tal como o pai, Carlos Luís Paulo, um papel fundamental na vida da filha.
Passados uns meses sobre a morte deste, Aida Paula passa à clandestinidade, em Fevereiro de 1939. Aí conheceu a dureza da vida clandestina, o corte com a família, o isolamento, os sobressaltos. A mãe, sozinha depois do falecimento do marido, juntar-se-ia à filha, no Partido e na clandestinidade.
Cumplicidade nas horas difíceis
Mãe e filha foram presas juntas, em Maio de 1939, era Aida funcionária do Partido com tarefas numa tipografia clandestina em Algés. Levadas para a sede da PVDE na Rua António Maria Cardoso, foram separadas: a filha seguiu para uma esquadra da PSP em Campolide, foi atirada para um calabouço imundo, onde esteve um mês, incomunicável, saindo apenas daquele buraco para interrogatórios. Aí, defrontou as ameaças dos agentes que a massacravam dizendo que a mãe estava muito doente e que sofria. Que se falasse, a mãe não sofreria tanto. Nunca falou.
Durante esse mês não recebeu uma única peça de roupa, lavando, à vez, a roupa que tinha vestida. Corriam-lhe as lágrimas ao pensar na mãe, doente (que o estava de facto), nas humilhações semelhantes por que estaria a passar, mas os ensinamentos dos pais lembravam-lhe: «Na polícia não se fala. Morre-se mas não se diz nada! Ouviste?»
Em Junho foi transferida para a Cadeia das Mónicas, onde se juntou à sua mãe, e onde viveriam numa sala à parte, isoladas das outras presas.
Em 19 de Outubro de 1940 foi julgada pelo Tribunal Militar Especial, condenada a 12 meses de prisão e perda de direitos políticos por cinco anos. Libertada a 27 do mesmo mês, retomou o seu trabalho político e entrou novamente para a clandestinidade, de novo com a mãe.
Aida Paula e a mãe foram as únicas mulheres a dar apoio ao 3.º Congresso (1.º Ilegal) do Partido, realizado em Novembro de 1943. Mais tarde, seguiriam com tarefas diferentes, cada uma por seu caminho, ficando sem se ver durante sete anos.
Coragem face aos algozes
A segunda prisão de Aida Paula deu-se quase 20 anos depois da primeira, em Dezembro de 1958. Esteve oito dias em isolamento na Prisão de Caxias e foi julgada no Tribunal Plenário de Lisboa, em Abril de 1960, como membro e funcionária do Partido Comunista Português. Foi então condenada a dois anos e meio de prisão maior, com medidas de segurança prorrogáveis de seis em seis meses até três anos. Na prática, foram seis anos seguidos de prisão.
Dada a sua posição firme, lutando sempre contra o regime prisional e as condições desumanas em que os presos se encontravam, foi castigada seis vezes, entre a proibição de receber visitas, a privação de exercício ao ar livre, do recebimento de jornais, revistas e quaisquer outras publicações e ainda de alimentos, pelas visitas.
Voltaria a ser presa em 1967, quando se encontrava na legalidade. Esta foi talvez a pior prisão para Aida Paula. A sua saúde debilitada ressentir-se-ia gravemente, pouco tempo depois, das torturas a que foi submetida. Com um grave esgotamento e fortemente medicada, sofreu 18 dias em isolamento, seguidos da tortura do sono durante seis dias e seis noites.
O seu estado de saúde deteriorava-se rapidamente e nem mesmo esse facto fez com que a PIDE não a sujeitasse a um isolamento absoluto e a mais de três meses de incomunicabilidade. Sofria alucinações, perdia o equilíbrio e tinha dificuldade em manter-se em pé. Tinha tonturas, subidas bruscas da tensão arterial, baixas de açúcar no sangue, terminando constantemente em desfalecimentos. Pensou que era «daquela que morria».
Exigiu sempre tratamento médico e foram-lhe feitos exames cujos resultados apenas a libertaram de interrogatórios prolongados e nocturnos.
Foi libertada a 2 de Maio de 1968.
Formação e solidariedade
A solidariedade nacional e internacional com Aida Paula revelou-se em diversas campanhas de libertação. As campanhas contra as prisões arbitrárias – as célebres «medidas de segurança», que na realidade serviam apenas para manter os presos políticos encarcerados durante períodos de tempo indefinidos –, as torturas bárbaras e a ausência de cuidados básicos tiveram eco no estrangeiro e em Portugal. Foram vários os pedidos para a sua libertação.
De coragem inquebrável, apesar da sua saúde débil, aproveitou sempre o melhor que conseguiu os anos de clandestinidade. Aprendeu muito, estudou, escreveu textos no jornal 3 Páginas e mais tarde em A Voz das Camaradas, essencialmente sobre a defesa e a vigilância das casas, com o pseudónimo de «Marta». Colaborou no Avante!. Aprendeu francês com um camarada e, sozinha, traduziu «O Estado e as suas Funções». A partir daí passou a traduzir artigos que eram distribuídos pelas casas do Partido.
Escreveu contos e textos de formação para as camaradas das casas clandestinas. Participou na elaboração do manifesto dirigido às organizações femininas e democráticas do mundo inteiro, enviado clandestinamente da Prisão de Caxias, em Maio de 1961, fazendo a denúncia das torturas e das miseráveis condições em que as presas políticas se encontravam.
Faleceu em 25 de Outubro de 1993.