Sempre o mesmo filme
O filme de Barry Levinson «Wag the dog» («Manobras na Casa Branca»), de 1997, descreve com implacável lucidez e humor processos de manipulação mediática que preparam, justificam e conduzem à guerra. É premonitório.
O presidente dos EUA, a contas com um escândalo sexual, lança uma acção de guerra para desviar a atenção da opinião pública. A ficção antecipa a realidade. Clinton fará o mesmo no ano seguinte. Apanhado, por assim dizer, com as calças na mão, manda bombardear a fábrica de produtos farmacêuticos Al-Shifa, no Sudão, justificando a acção com a acusação de que era ali fabricado agente neurológico VX – uma arma química – e que os proprietários da fábrica tinham ligações com a al-Qaeda. A justificação era falsa, a fábrica (que produzia medicamentos para tratamento humano e veterinário) foi destruída, houve 12 vítimas, 300 trabalhadores perderam o emprego.
Se há enredo que se repete na história dos EUA é este. Do «remember the Maine» ao «incidente do Golfo de Tonquim», das armas químicas de Clinton às armas químicas de Trump passando pelas armas de destruição massiva de Bush/Blair/Aznar e seu lacaio Barroso, a engrenagem evolui segundo um padrão espantosamente repetitivo. E se é espantoso que continue a agir com eficácia junto da opinião pública indiferenciada, ainda mais espantoso é que aja com eficácia semelhante junto de gente que se presume de esquerda e, quem sabe, talvez mesmo anti-imperialista.
Tal como no filme, a manipulação aponta o criminoso antes de descrever o crime, por vezes com surpreendente (ou, se se quiser, significativa) antecedência. E essa designação vem de fontes muito diversas. Comentadores de direita, opiniões do leque partidário que na AR condenou a Síria, o sítio web do sr. George Soros, a escolha é variada e instrutiva. Se, perante tão repetido filme há quem não aprenda nada o problema não é estar enganado. É, queira ou não reconhecê-lo, ter feito uma opção.