Ingerência externa<br>aumenta na Nigéria

Carlos Lopes Pereira

LUSA

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A situação política e militar agravou-se na Nigéria, a maior economia africana. As eleições presidenciais previstas para o final desta semana foram adiadas, o grupo Boko Haram intensificou os ataques na região, o conflito internacionalizou-se e aumenta a ingerência estrangeira no país.

A pedido do governo de Abuja, que alegou razões securitárias – a impossibilidade das forças armadas garantirem a normalidade do escrutínio no nordeste, onde enfrentam há seis anos, com pouco êxito, as brutais investidas da seita islamita –, a comissão eleitoral nigeriana adiou para 28 de Março as eleições presidenciais, legislativas e senatoriais. A votação para governadores e assembleias estaduais foi também atrasada um mês e meio e marcada para 11 de Abril.

O adiamento suscitou duras críticas da oposição. Afirma que os problemas de segurança não serão resolvidos em seis semanas e que as verdadeiras causas da alteração do calendário do escrutínio presidencial são os problemas logísticos da máquina eleitoral e, sobretudo, a pouca popularidade do chefe de Estado cessante, Goodluck Jonathan, que assim pode ganhar algum tempo de campanha. Apesar dos grandes meios de que dispõe para a mobilização do eleitorado, o actual presidente é acusado de não travar a guerra contra os islamitas, de deixar alastrar a corrupção e de agravar as desigualdades sociais no país, cuja economia assenta na produção e exportação de petróleo.

Os dois principais favoritos, entre mais de uma dezena de candidatos, são Jonathan, de 57 anos, zoólogo, cristão, originário do Sul, apoiado pelo Partido Democrático Popular; e Muhamadu Buhari, de 72 anos, general reformado, muçulmano, do Norte, apresentado pelo Congresso Progressista, principal formação oposicionista. Buhari, conhecido pelo seu perfil autoritário, apresenta-se pela quarta vez a votos e já esteve no poder num curto período, na década de 80, guindado por um golpe militar.

Há quase 69 milhões de eleitores inscritos para as próximas eleições nesta república federal, constituída por 37 estados, com uma população global de 173 milhões. Hoje o país mais populoso da África, a Nigéria, antiga colónia britânica, independente desde 1960, tem um historial de golpes de Estado, de conflitos entre diferentes comunidades e de uma sangrenta guerra civil, provocada em finais dos anos 60 pela secessão do Biafra, que causou entre um e três milhões de vítimas.

Desde 2009, a insurreição do Boko Haram já provocou 13 mil mortos e um milhão e meio de deslocados na Nigéria, além de milhares de refugiados nos países limítrofes. A seita, liderada por Abubakar Shekau, tem mostrado simpatia por organizações como o Estado Islâmico e a Al-Qaida. Na sua guerra contra o Estado nigeriano, tem cometido crimes bárbaros – massacres de civis, assaltos a aldeias, ataques a igrejas, mesquitas e escolas, atentados bombistas em mercados e outros locais públicos, raptos de crianças e mulheres, assassinatos, extorsões.

Alastra a guerra

Nas últimas semanas, no plano militar, a situação complicou-se não só na Nigéria mas agora igualmente num conjunto de países da África Ocidental.

Os bandos do Boko Haram, que controlam vastas áreas do nordeste nigeriano, multiplicam as acções também nos territórios dos vizinhos Camarões e Níger – em cuja capital, Niamey, há uma base aérea conjunta da França e dos Estados Unidos. O Níger é o principal fornecedor de urânio para a indústria nuclear francesa e alberga, em Agadez, uma outra base militar norte-americana.

Em resposta, está em curso a organização pela Nigéria, Chade, Níger, Camarões e Benin de uma força multinacional constituída por 8700 militares, polícias e civis para combater os islamitas. Conta com o patrocínio da União Africana e das Nações Unidas e terá o seu quartel-general em Djamena, a capital chadiana.

Antecipando-se e tomando a iniciativa, o Chade interveio directamente no conflito, enviou tropas e blindados para o Níger e os Camarões e lançou a partir dali uma ofensiva terrestre no nordeste da Nigéria. O exército chadiano é um dos mais bem equipados de África e o principal aliado do Chade, a França, que mantém uma base militar em Djamena, já prometeu apoiar a intervenção com armas, logística e informações.

O caso da Nigéria é exemplar. Em diferentes zonas de África mas também noutros continentes, as potências imperialistas apoiam sectores corruptos das classes dominantes, espalham intrigas, traficam influências, instigam conflitos étnicos e religiosos, criam e armam grupos terroristas, fomentam guerras, liquidam estados, dividem nações – tudo isso para continuar a exploração dos trabalhadores e a rapina das riquezas dos povos.




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