• Jorge Messias

O povo que também é povo e a Igreja dos mercadores

«O homem não é um ser abstracto, exterior ao mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a Sociedade, os quais produzem a religião, consciência corrompida do mundo… Os princípios sociais do cristianismo pregam a necessidade de uma classe dominante e limitam-se a fazer votos piedosos de que a primeira seja caridosa com a outra… Os princípios sociais do cristianismo são servis e o proletariado é revolucionário !».

V.I. Lénine (O Comunismo dos Observadores Renanos, 1847)

 

«Ninguém pode servir a dois patrões. Porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro... Seja pois o vosso falar: sim, sim, não, não. Porque o que passa adiante disto procede das fontes do Mal».

Bíblia Sagrada ( Evangelho Segundo S. Mateus, cap. V e VI )

 

Na pobreza mundial que cresce a olhos vistos, o universo católico dispersa-se, divide-se em heresias, despreza qualquer noção de mensagem, envolve-se em negócios, mas nesta fase decadente as suas instituições continuam a revelar influência política e social e coesão.

Potencialmente, há uma cisão que se anuncia entre a base e o topo da pirâmide eclesial. O povo católico pobre e trabalhador inquieta-se quanto ao futuro e olha, com uma contida incompreensão, as posições das hierarquias quanto aos gravíssimos problemas que esmagam os humildes e ameaçam as classes médias. Cada vez mais católicos vão-se apercebendo de que as hierarquias eclesiásticas serão tudo o que quiserem menos cristãs. Os seus actos visam apoiar e participar na esfera do grande capital, aquele mesmo que, explicitamente, os textos da Igreja condenam.

Dir-se-ía, então, que a base social da luta de classes está estabelecida no mundo católico. Mas não é, por enquanto, assim. A religião ensinou aos «crentes» (deve reconhecer-se que esta crítica afecta igualmente todas as outras religiões) os princípios da obediência da base ao topo, da origem divina das chefias, do carácter indistinto da Igreja e da fé e dos dogmas que ligam as noções de desobediência, ruptura e pecado.

 

O povo cristão e os mercadores

 

É claro que tudo isto também se reflecte nas atitudes dos povos, sejam elas religiosas ou laicas. A Igreja católica, na sua dimensão de instituição altamente organizada, vem desde o Concílio do Niceia, no século IV e a partir de então não cessou de se expandir, de arrecadar fortunas, de participar no mundo dos negócios e de colaborar activamente com as políticas de Estado, primeiro dinásticas e nacionais, depois sucessivamente imperiais, absolutistas, iluministas e liberais. Tudo pode ser consentido desde que contribua para a maior glória de Deus e da Igreja. Pecar contra um é pecar contra o outro. Este preconceito agrilhoa, ainda, milhões de católicos. E continua a fazer todo o sentido dizer-se que «a religião é o ópio do povo».

A situação em que hoje mergulha Portugal, se não é aquela que desejaríamos, é pelos menos aquela que «é», a que «existe», a situação «real». E a realidade que os cidadãos honestos (católicos ou não) registam no dia-a-dia são revoltantes, «bradam aos céus». Bispos, cardeais e o Vaticano metidos em negócios milionários que envolvem o branqueamento financeiro dos lucros resultantes dos offshores, das fraudes bancárias, das misérias morais das transacções subterrâneas resultantes dos armamentos, da prostituição de seres humanos, do jogo e do vício, das falcatruas dos políticos, etc., etc. Havemos de regressar a estas matérias.

De momento, é importante registar que se constata um aumento de nível da consciência cívica e moral do povo católico mas que ela ainda é insuficiente. Tal como em 1974, muitos católicos portugueses limitam-se a «ver, ouvir e ler» os acontecimentos da vida real. Mas não agem consequentemente nem tentam desmascarar os sofismas das hierarquias, denunciá-las ou romper com a dupla adoração de Deus e do Dinheiro. Os católicos só falam no «ladrão» quando ele é ateu ou de outra cor.

A questão é essencialmente ética e moral. Mas enquanto ela dominar os horizontes sociais, parece improvável que se expanda a tão desejável cooperação entre iniciativas católicas e comunistas.

O tempo dirá se assim é.



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