Espanhóis arrasam Zapatero
O PSOE sofreu a sua maior derrota eleitoral de sempre, perdendo nas 13 comunidades autónomas em disputa e na esmagadora maioria dos oito mil municípios.
Partido do governo perde um milhão e meio de votos
Embora o Partido Popular tenha sido o grande beneficiado (+1,5%), tornando-se a força mais votada em praticamente todo o território (37,73%), a verdade é que só captou uma pequena parte da descida eleitoral do PSOE, crescendo 558 mil votos em comparação com as eleições de 2007. Ora o PSOE perdeu praticamente um milhão e meio de votos, baixando de 35,31 para 27,79 por cento (-7,5%).
Por outro lado, estes dois partidos, que têm sido responsáveis pela governação de Espanha nas últimas três décadas e meia, viram diminuir o seu peso conjunto no eleitorado, tanto em termos absolutos como relativos.
Em 2007, PP e PSOE conseguiram 15,7 milhões (71,32 por cento) dos 22,2 milhões de votos registados. No último domingo, ficaram-se pelos 14,8 milhões (65,32 por cento) dos mais de 22,9 milhões de votos. Ou seja, em conjunto os dois partidos perderam mais de 900 mil votos, caindo seis pontos em percentagem. Dito de outro modo, apenas 31 por cento dos eleitores inscritos (34,7 milhões) votaram num destes dois partidos.
Se bem que a abstenção tenha diminuído (33,77%) em relação a 2007 (36,73%), os votos em branco aumentaram para 589 mil (+157 mil) e os nulos para 389 (+127). Ao todo, os brancos e nulos ascenderam a 973 mil boletins (4,24%).
Os votos brancos e nulos foram particularmente expressivos na Catalunha, onde atingiram 5,82 por cento do total de votos expressos (mais 170 mil votos), mais dois pontos do que há quatro anos.
Nesta região, onde só se realizaram eleições municipais, a coligação nacionalista conservadora CiU ganhou ao PSOE a capital Barcelona, segunda cidade de Espanha, enquanto a esquerda republicana (ERC) sofreu mais um revés eleitoral, que já provocou a demissão em bloco da sua direcção.
O seu líder, Joan Puigcercós, reconheceu os resultados «péssimos» e «muito maus» nas grandes cidades da Catalunha, que se somam ao retrocesso eleitoral já em eleições anteriores. Segundo disse, a ERC perdeu a confiança dos eleitores pelo que será necessário «refundar» ou «reanalisar a fundo» a estratégia do partido. A ERC obteve 271 mil votos, perdendo mais de 76 mil votos face aos resultados de 2007.
Note-se que na Catalunha, País Basco, Galiza e Andaluzia não se realizaram eleições para os parlamentos regionais.
IU alcança um bom resultado
Por sua vez a Izquerda Unida (IU) registou uma assinalável subida da votação, ganhando mais 207 mil votos em relação ao escrutínio de 2007 e passando de 5,48 para 6,33 por cento.
Como sublinhou o seu coordenador-geral, Cayo Lara, a IU consolidou-se como a terceira força política, conseguindo «crescer cerca de 20 por cento». «Temos mais 200 vereadores em toda a Espanha, mais municípios e também ganhámos peso em comunidades autónomas como Navarra, Valência, Madrid e Aragão. Entrámos na Estremadura e em Castela e Leão, onde não estávamos representados.
Todavia, apesar do «bom resultado» da IU, Lara lamentou a vitória do PP dado que ela antecipa políticas «mais conservadoras». «O PP não é a alternativa de que o nosso país necessita», sublinhou, responsabilizando a governação do PSOE pelo crescimento significativo do Partido Popular.
«Advertimos que se Zapatero continuasse as suas políticas neoliberais, traria pela mão o PP e nos poria a Espanha de azul. Lamentavelmente o nosso prognóstico confirmou-se», lembrou Lara em declarações citadas pela Europa Press (23.05).
A força da Bildu
O resultado obtido pela coligação independentista basca foi para muitos a grande surpresa das eleições regionais e municipais. Depois de ter sido proibida pelo Tribunal Supremo – acusada de ligações à ETA e de servir de cobertura para a apresentação das listas do ilegalizado Batasuna –, a Bildu foi finalmente autorizada pelo Tribunal Constitucional.
Disputas jurídicas à parte, a verdade é que a legitimidade democrática desta formação foi inequivocamente confirmada pelo povo, que fez dela a segunda força política do País Basco com a melhor votação de sempre da esquerda independentista – 313 mil votos (22%), atrás do Partido Nacionalista Basco (PNV).
Tendo conquistado maioria absoluta em 74 municípios (com destaque para São Sebastião) e maioria simples em outros 22, a Bildu tornou-se a primeira força autárquica, com 1137 vereadores municipais, superando o PNV, que obteve 872 vereadores (327 mil votos e 22,97%), e quase triplicando o número de eleitos do Partido Socialista (PSE), que governa actualmente Euskadi (País Basco). Este ficou-se pelos 473 vereadores (227 mil votos e 16%).
Juventude indignada
Na semana que precedeu as eleições em Espanha, milhares de jovens e menos jovens prosseguiram um movimento inédito de protesto, com manifestações diárias nas praças centrais das principais cidades, onde foram surgindo acampamentos e se realizaram assembleias públicas com palavras de ordem contra o sistema bipartidário, pela alteração da lei eleitoral, por políticas de emprego e contra a corrupção no país.
A adesão popular a este movimento – designado 15-M, em referência à data de 15 de Maio, em que se realizaram desfiles em 50 cidades, convocados pela «Democracia Real, Já!» – aumentou significativamente após a tentativa da Junta Eleitoral Central de proibir, dia 19, as manifestações para sábado e domingo nos centros urbanos.
A Puerta del Sol, em Madrid, a Praça da Catalunha, em Barcelona, e outras em dezenas de cidades registaram no final da tarde de sexta-feira e durante a madrugada de sábado as suas maiores enchentes.
Desafiando a proibição, milhares de pessoas amanheceram na rua na jornada de reflexão e os protestos prosseguiram no dia das eleições. Em várias de capitais europeias, designadamente em Lisboa e Porto, ouviram-se ecos de solidariedade com os jovens de Espanha.
A juventude do 15-M promete dar sequência às mobilizações, anunciando para 15 de Junho uma grande manifestação. Para já os organizadores pretendem continuar a ocupar as praças até domingo.